Juros e inadimplência ameaçam fôlego do crédito para setor automotivo

Economista Tereza Fernandez aponta desaceleração da economia no segundo semestre e alerta para limites à expansão do financiamento; caminhões e implementos ainda operam no campo negativo

Valeria Bursztein

O crédito, um dos principais responsáveis por sustentar o mercado brasileiro de veículos em 2026, começa a dar sinais de perda de fôlego diante dos juros elevados e do avanço da inadimplência. A avaliação é da economista Tereza Fernandez, que vê uma desaceleração da atividade econômica no segundo semestre e considera que o cenário exige maior cautela nas projeções para 2027.

A análise foi apresentada nesta terça-feira (18), durante coletiva de imprensa realizada no 34º Congresso & Expo Fenabrave, em São Paulo. Segundo a economista, os indicadores de indústria, comércio e serviços já mostram perda de ritmo, embora isso não signifique uma retração da economia.

“Os últimos dados indicam efetivamente a desaceleração da economia brasileira”, afirmou Tereza. Para 2026, sua projeção é de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em torno de 1,8%.

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Crédito ajudou a sustentar mercado de veículos

No setor automotivo, o comportamento do crédito aparece como uma das principais variáveis para explicar o desempenho das vendas ao longo do ano. Segundo Tereza, a oferta de financiamento surpreendeu positivamente em 2026 e ajudou a impulsionar especialmente os segmentos de automóveis, comerciais leves e motocicletas.

A economista destacou que o crédito para veículos, que chegou a apresentar crescimento praticamente nulo em parte do primeiro semestre, passou por uma reversão e voltou a avançar, chegando a cerca de 11%.

O movimento, entretanto, pode estar próximo de encontrar um limite. “O crédito foi a grande surpresa positiva este ano, que agora está batendo aparentemente no limite com o crescimento da taxa de juros”, afirmou. Segundo ela, o aumento da inadimplência já começa a levar os bancos a adotar maior cautela na concessão de novos financiamentos.

A própria evolução da inadimplência no financiamento de veículos foi apontada como um sinal de atenção. De acordo com a economista, o indicador destinado às pessoas físicas alcançou o maior nível da série apresentada, iniciada em 2016.

Caminhões e implementos ainda ficam para trás

A melhora proporcionada pelo crédito, porém, não se distribuiu de maneira uniforme entre os diferentes segmentos do mercado automotivo.

Enquanto automóveis, comerciais leves e motocicletas foram mais beneficiados pela expansão dos financiamentos, caminhões e implementos rodoviários permanecem no campo negativo, apesar de apresentarem alguma melhora, segundo Tereza.

A diferença reforça o impacto que o ambiente de juros elevados exerce sobre os bens de maior valor e sobre decisões de investimento das empresas. Para o transporte de cargas, a manutenção de condições financeiras restritivas tende a continuar como um dos fatores relevantes para a renovação e ampliação das frotas.

Juros devem continuar elevados

Tereza também demonstrou cautela em relação à trajetória dos juros. Na avaliação da economista, a taxa básica dificilmente cairá muito abaixo de 14% no atual cenário, enquanto crédito, inadimplência e situação fiscal permanecem entre as variáveis que precisam ser acompanhadas nos próximos meses.

No cenário externo, a economista chamou a atenção para os efeitos das tensões geopolíticas sobre os preços de energia e matérias-primas. A volatilidade do petróleo, segundo ela, tem reflexos particularmente importantes para o Brasil por sua influência sobre o diesel, combustível ainda predominante no transporte rodoviário de cargas.

Além do risco inflacionário externo, Tereza colocou a situação fiscal brasileira entre suas principais preocupações para os próximos anos. Para ela, a combinação entre custo elevado de financiamento da dívida e aumento das despesas públicas amplia as incertezas para 2027.

Apesar dos sinais de alerta, a economista avalia que 2026 ainda deve terminar com crescimento da economia e expansão do crédito. O ponto de atenção, segundo ela, passa a ser a evolução das variáveis macroeconômicas que determinarão as condições para o próximo ano.

“Este ano está dado, não tem muita coisa que vai interferir. O que a gente tem que acompanhar é a evolução dessas variáveis para projetar o ano que vem”, concluiu.

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