Aquisições movimentam integração da logística global

Grandes operadores avançam sobre tecnologia, armazenagem, transporte e última milha em busca de novos mercados

Valeria Bursztein

As fusões e aquisições no setor logístico estão avançando para além da tradicional busca por escala. Grandes grupos passaram a usar aquisições para incorporar tecnologia, entrar em novos mercados e ampliar sua presença em diferentes etapas da cadeia, em um movimento que aproxima transporte marítimo, terminais, armazenagem, logística contratual, transporte terrestre e última milha.

O movimento aparece no Global Logistics M&A Recap, levantamento produzido pela Logisyn Advisors em parceria com a Transport Intelligence (Ti). Dados referentes a julho mostram que Europa e América do Norte concentraram, cada uma, 42% das aquisições registradas, enquanto a América do Sul respondeu por apenas duas operações.

Apesar da participação reduzida em número de negócios, transações recentes colocam a América Latina — e particularmente o Brasil — dentro das estratégias de expansão de alguns dos principais grupos globais.

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Mais do que a quantidade de negócios, chama atenção o perfil dos ativos procurados. Software respondeu por 18% das aquisições no período, enquanto freight forwarding, última milha e transporte representaram 15% cada. Juntos, esses três segmentos concentraram 45% das operações.

A composição sugere uma mudança na lógica de consolidação do setor. Redução de custos e ganho de escala continuam relevantes, mas dividem espaço com a aquisição de capacidades que levariam tempo para ser desenvolvidas internamente — de plataformas digitais e inteligência artificial a redes de distribuição, armazenagem e acesso a novos mercados.

Da escala ao controle de mais elos da cadeia

A estratégia fica particularmente evidente entre grandes grupos que historicamente atuaram em segmentos específicos da logística.

Um dos exemplos é a CMA CGM. Em julho, o grupo francês anunciou acordo para adquirir a FedEx Supply Chain, operação de logística contratual da FedEx, por US$ 1,4 bilhão. A transação deverá praticamente triplicar a operação de contract logistics da CEVA Logistics na América do Norte e ampliar a presença do grupo em armazenagem, fulfillment e gestão de devoluções. A conclusão está prevista para este ano, condicionada às aprovações regulatórias.

A operação não ocorre isoladamente. Nos últimos anos, a CMA CGM ampliou sua atuação para além do transporte marítimo, avançando sobre logística, carga aérea e infraestrutura portuária.

No Brasil, esse movimento ganhou uma dimensão adicional com a aquisição do controle da Santos Brasil, dona de ativos portuários e logísticos, entre eles o Tecon Santos. A combinação desses negócios aproxima, dentro de um mesmo grupo econômico, diferentes etapas do fluxo da carga.

A estratégia não significa que todas as operações logísticas serão internalizadas. Mas revela uma intenção de ampliar o número de serviços que podem ser oferecidos ao embarcador dentro da própria estrutura do grupo — do transporte internacional à movimentação portuária, armazenagem e distribuição terrestre.

ICTSI avança além do terminal portuário

Movimento semelhante pode ser observado na International Container Terminal Services Inc. (ICTSI), tradicional operadora de terminais de contêineres.

Em junho, a companhia informou oficialmente a aquisição de participação em uma empresa brasileira dedicada à armazenagem geral e alfandegada e a serviços de logística multimodal. O negócio aparece nos registros corporativos da própria ICTSI.

A operação reforça uma tendência importante para os operadores portuários: ampliar a conexão entre os terminais e o hinterland, incorporando soluções capazes de acompanhar a carga para além dos portões do porto.

No Brasil, onde a ICTSI controla operações como o Rio Brasil Terminal, no Porto do Rio de Janeiro, e o Tecon Suape, em Pernambuco, essa expansão acrescenta uma nova dimensão à estratégia do grupo. O ativo adquirido amplia sua exposição a armazenagem e logística multimodal, aproximando a companhia dos fluxos terrestres associados às operações portuárias.

O movimento ajuda a explicar por que as fronteiras tradicionais entre terminal portuário, operador logístico e transportador estão ficando menos rígidas.

Tecnologia também entra na corrida por aquisições

A consolidação não envolve apenas ativos físicos. O peso do software entre as transações mostra que tecnologia também se tornou um ativo estratégico no mercado de M&A logístico. Um dos negócios recentes envolve diretamente a América Latina. A canadense Descartes Systems Group adquiriu a chilena Drivin, especializada em tecnologia para gestão de entregas de última milha.

A transação envolveu pagamento inicial de aproximadamente US$ 30 milhões, além de até US$ 5 milhões adicionais condicionados ao desempenho do negócio nos dois primeiros anos após a aquisição.

Mais relevante do que o valor é o que foi comprado. A plataforma da Drivin reúne otimização de rotas, gestão de despachos e visibilidade das entregas em tempo real, com recursos de machine learning e inteligência artificial agêntica.

A própria Descartes considera a América Latina um mercado de crescimento e afirma que a aquisição amplia tanto sua presença regional quanto sua oferta de soluções para gestão de desempenho de frotas.

Nesse caso, a aquisição substitui parte do tempo e do risco necessários para desenvolver internamente tecnologia, base de clientes, dados operacionais e conhecimento de um mercado regional.

América Latina ainda representa parcela pequena

Apesar dos negócios recentes, os números recomendam cautela antes de falar em uma corrida de aquisições pela América Latina. A região ainda representa uma parcela pequena das transações globais.

Essa concentração fora da América do Sul não é uma particularidade de julho. Em junho, por exemplo, Europa e América do Norte responderam juntas por cerca de 81% das 32 aquisições acompanhadas pelo levantamento, enquanto a América do Sul registrou apenas uma.

A série mensal mostra, entretanto, mudanças no tipo de ativo procurado. Em fevereiro, a logística marítima havia sido o segmento mais ativo; em março, transporte liderou as operações; em abril, logística; e, em maio, última milha.

O que os negócios envolvendo ICTSI, CMA CGM/CEVA e Descartes indicam, portanto, não é necessariamente uma explosão de M&A latino-americano, mas a inserção de ativos da região em estratégias globais mais amplas.

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