A Reforma Tributária começa a provocar um movimento de revisão na localização dos centros de distribuição (CDs) das grandes empresas brasileiras. Pesquisa do Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS) mostra que 21% das grandes empresas embarcadoras pretendem mudar a localização de seus centros de distribuição principalmente por causa da Reforma Tributária.
Outros 13% também planejam alterar a localização dos CDs, mas por decisões internas que independem da mudança no sistema tributário. Já 49% não têm previsão de mudança e 17% ainda não avaliaram o tema.
Os dados foram divulgados pelo ILOS em pesquisa realizada em 2026 com mais de 100 grandes empresas embarcadoras dos setores de indústria, varejo e agronegócio.
O resultado reforça a mudança na tributação tende a reduzir a importância dos incentivos fiscais na definição das redes logísticas e aumentar o peso de fatores como custo de transporte, proximidade dos mercados consumidores, prazo de entrega e infraestrutura.
Tributação deixa de ser único fator de decisão
A mudança ocorre em um momento em que as empresas começam a rever o desenho de suas operações logísticas diante da transição para o novo sistema tributário.
Em março, a Agência Transporte Moderno mostrou que a reforma tende a provocar uma reconfiguração das redes logísticas justamente porque a tributação passa a seguir uma lógica baseada no destino. Na avaliação de Leopoldo Suarez, VP de Cliente, Estratégia e Mercado & Partner da nstech, empresas devem rever localização de CDs e rotas considerando custo logístico e nível de serviço, e não apenas incentivos fiscais.
Em junho, a reportagem sobre o futuro dos postos fiscais nas rodovias voltou ao tema. Segundo o advogado entrevistado pela TM, a redução da importância dos benefícios fiscais tende a levar transportadoras e operadores logísticos a reavaliar a localização de suas operações, priorizando eficiência operacional e proximidade dos mercados consumidores.
Agora, o levantamento do ILOS traz uma dimensão concreta desse movimento: mais de um quinto das grandes embarcadoras pesquisadas já aponta a reforma como principal motivo para uma eventual mudança de endereço de seus CDs.
São Paulo segue como polo logístico
A mudança não significa necessariamente uma migração generalizada dos centros de distribuição para uma única região. A decisão depende da combinação entre demanda, infraestrutura, transporte e disponibilidade imobiliária.
A dinâmica do mercado mostra a força de regiões próximas aos grandes centros consumidores. Levantamento recente da Qive, empresa de tecnologia especializada em gestão e automação de documentos fiscais e financeiros, mostrou que 56,6% dos CT-es emitidos no Brasil entre 2024 e 2025 tiveram origem em São Paulo. O estudo também destacou o chamado “anel logístico metropolitano”, formado principalmente por Cajamar, Guarulhos, Barueri e Sumaré, como uma concentração importante de centros de distribuição de varejistas, marketplaces e operadores logísticos.
A concentração, entretanto, também aumenta o custo de ocupação. Em julho, a taxa de vacância dos galpões industriais e logísticos de São Paulo havia caído para 5%, enquanto a absorção líquida alcançava 452 mil m² no segundo trimestre. Ou seja, uma empresa que decide reposicionar sua operação não encontra necessariamente uma grande oferta de imóveis prontos nas regiões mais estratégicas.
Falta de galpões pode complicar mudança
A disponibilidade imobiliária se transforma, portanto, em uma variável importante para a própria execução da estratégia. Em agosto, a vacância de galpões logísticos de alto padrão chegou a 4,3%, cenário que já começa a dificultar a localização de grandes CDs em regiões estratégicas. O custo elevado do capital também limita a construção de novos empreendimentos especulativos, estimulando alternativas como pré-locação e projetos built to suit (BTS).
Em Santa Catarina, por exemplo, a vacância logística chegou a 5% no fim de 2025, segundo dados da Colliers, levando empresas a disputar áreas próximas à BR-101.
Esse cenário adiciona uma nova variável à decisão das empresas: não basta identificar uma localização logisticamente mais eficiente; é preciso encontrar um imóvel adequado, com disponibilidade e custo compatíveis com a operação.
Mudança de CD pode redesenhar o transporte
A localização dos centros de distribuição tem impacto direto sobre a operação de transporte. Um CD mais próximo dos mercados consumidores pode reduzir distâncias percorridas e melhorar o prazo de atendimento. Ao mesmo tempo, a mudança pode exigir uma nova configuração das rotas, contratação de operadores, revisão de contratos e redistribuição dos estoques.
A movimentação já pode ser observada em empresas que estão reorganizando suas redes por razões operacionais. A Exeltis Brasil, por exemplo, transferiu seu CD de Goiânia para Extrema (MG) para aproximar a operação dos principais mercados consumidores, especialmente no Sudeste, buscando maior agilidade no abastecimento e eficiência no transporte rodoviário.
Da mesma forma, a ICL transferiu sua operação de distribuição em Goiás de Aparecida de Goiânia para Rio Verde, além de abrir unidades em Paulínia (SP) e Uberaba (MG), como parte de uma reorganização de sua malha nacional.
Esses movimentos não são necessariamente consequência da Reforma Tributária, mas ajudam a mostrar como a localização do estoque vem sendo tratada como uma decisão estratégica de supply chain, e não apenas imobiliária.
Outro fator que entra nessa equação é a necessidade de reduzir o tempo entre o pedido e a entrega. A expansão das redes de distribuição do comércio eletrônico tem levado empresas a aproximar estoques dos consumidores. A Shopee, por exemplo, ampliou sua estrutura brasileira para 26 centros de distribuição em 2026, complementados por mais de 200 hubs de primeira e última milha.
O Mercado Livre também vem ampliando sua rede própria e prevê chegar a 42 CDs Full no Brasil até o fim de 2026. A empresa associa a expansão à necessidade de dar maior previsibilidade e velocidade às entregas. Isso significa que a Reforma Tributária chega a um mercado no qual proximidade do consumidor já é uma variável estratégica para as redes de distribuição.
Decisão exige planejamento
O levantamento do ILOS mostra ainda um ponto importante: 17% das empresas pesquisadas ainda não avaliaram se a reforma provocará mudanças na localização de seus CDs.
Esse grupo terá de tomar uma decisão em um ambiente no qual imóveis bem localizados estão disputados e a expansão da infraestrutura logística exige planejamento antecipado.
Para as empresas que decidirem alterar suas redes, o processo envolve mais do que escolher uma nova cidade. É necessário avaliar frete, estoque, nível de serviço, mão de obra, disponibilidade de galpões, contratos e infraestrutura, além do impacto da nova estrutura sobre toda a malha de transporte.
A tendência, portanto, é que a Reforma Tributária acelere uma discussão que já estava em curso no setor: qual é o melhor lugar para manter o estoque quando o benefício fiscal deixa de ser o principal argumento para escolher uma localização?
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