Setor cobra incentivos para acelerar caminhões a gás natural e biometano

Executivos defendem políticas públicas para tornar o transporte de baixa emissão competitivo frente ao diesel

Valeria Bursztein

O principal desafio para a expansão do biometano no transporte pesado brasileiro deixou de ser tecnológico e passou a ser econômico. A avaliação foi compartilhada por produtores, distribuidoras, transportadoras e especialistas reunidos durante o CIBiogás Conecta Transporte Pesado, em São Paulo, que defenderam a criação de incentivos públicos para acelerar a adoção de caminhões movidos a gás e biometano.

Embora a tecnologia já esteja disponível comercialmente e apresente ganhos ambientais expressivos, o elevado custo inicial dos veículos e a limitada infraestrutura de abastecimento ainda restringem a expansão da frota.

Atualmente, o Brasil possui pouco mais de 2,5 mil caminhões movidos a gás natural e biometano em circulação, número equivalente a aproximadamente 0,1% da frota pesada nacional, estimada em mais de 2 milhões de veículos.

Em 2025, foram emplacados cerca de 670 caminhões e ônibus movidos a gás no país, diante de um mercado total de aproximadamente 135,5 mil veículos comerciais pesados, o que evidencia o estágio ainda inicial da tecnologia no Brasil.

“O frete precisa ser competitivo. Se não for competitivo, o negócio não vai acontecer”, afirmou Rodrigo Lima, diretor de Operações da Copersucar.

Segundo ele, períodos de excesso de oferta de caminhões a diesel no mercado pressionam os preços do transporte e dificultam a competitividade dos veículos movidos a gás, que ainda apresentam custos superiores de aquisição e operação.

Fundo Clima

A experiência da Transjordano ilustra os desafios da descarbonização do transporte pesado no país. Ao buscar financiamento do Fundo Clima para adquirir 100 caminhões movidos a biometano, a transportadora precisou comprovar ao BNDES que os veículos seriam abastecidos integralmente com o combustível renovável durante o período do financiamento.

A exigência levou a empresa a estruturar o próprio Corredor Verde, com pontos de abastecimento previstos em Cubatão, Sumaré e Ribeirão Preto, em um projeto de R$ 140 milhões que combina aquisição da frota e implantação da infraestrutura necessária para a operação.

Para Jordano Bessa, diretor comercial da Transjordano, a adoção do biometano só se tornou viável economicamente graças ao acesso ao Fundo Clima e à implantação do Corredor Verde ao longo das operações da companhia.

O Fundo Clima é uma linha de financiamento do BNDES destinada a projetos de descarbonização e transição energética, oferecendo crédito de longo prazo e juros favorecidos para investimentos em tecnologias de baixa emissão, como caminhões movidos a biometano, infraestrutura de abastecimento e produção de combustíveis renováveis.

Segundo o executivo, o custo operacional do combustível renovável é inferior ao diesel, mas os gastos adicionais com aquisição dos veículos e manutenção ainda exigem mecanismos de apoio financeiro.

“A ruptura é financeira. Se não fizer sentido economicamente, a mudança não acontece”, afirmou.

Política pública pode acelerar mercado

Os participantes do evento defenderam medidas como incentivos tributários, linhas de financiamento específicas, redução de IPVA e estímulos regulatórios capazes de reduzir o prazo de retorno dos investimentos.

Para Rafael Gonzalez, diretor de Estratégia e Suprimento de Gás da Necta Gás Natural, experiências internacionais demonstram que políticas públicas possuem papel decisivo na construção de mercados emergentes.

“Política pública muda o jogo”, resumiu.

O consenso do painel foi que o biometano deixou de ser uma promessa tecnológica para se tornar uma alternativa operacionalmente viável para parte significativa do transporte pesado brasileiro. O ritmo dessa transição, no entanto, dependerá da capacidade de construir um ambiente econômico e regulatório favorável à nova tecnologia.

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