A possibilidade de conceder descontos ou até mesmo isenção de pedágio para caminhões movidos a gás começou a ganhar espaço no debate sobre os mecanismos necessários para acelerar a descarbonização do transporte rodoviário de cargas no Brasil.
O tema foi citado durante o CIBiogás Conecta Transporte Pesado, em São Paulo, e reuniu representantes da cadeia do biometano, distribuidoras de gás, transportadores e especialistas em infraestrutura. Embora ainda não exista uma proposta formal estruturada, o chamado “pedágio verde” passou a ser visto pelo mercado como uma das ferramentas com maior potencial para estimular a renovação da frota e a criação de corredores logísticos de baixa emissão.
Incentivo não se limitaria ao biometano
Durante o evento, a gerente executiva ambiental da CNT, Erica Marcos, esclareceu que a discussão não está restrita aos veículos movidos exclusivamente a biometano. Segundo ela, a lógica seria estimular todos os veículos pesados movidos a gás, incluindo aqueles abastecidos com gás natural e biometano, como forma de aumentar a demanda e acelerar a expansão da infraestrutura de abastecimento. “A ideia é dar força à capilaridade e ao aumento da demanda por esse insumo”, afirmou.
A executiva destacou ainda que os postos de abastecimento de gás representam atualmente cerca de 5% da rede nacional de postos de combustíveis. Na avaliação dela, a baixa capilaridade da infraestrutura continua sendo um dos principais obstáculos para a expansão da tecnologia em operações de longa distância e reforça a necessidade de mecanismos capazes de estimular investimentos em novos pontos de abastecimento ao longo dos corredores logísticos.
Erica chamou atenção ainda para outro aspecto da discussão: o impacto potencial do incentivo não deve considerar apenas o número de veículos beneficiados, mas também a quantidade de viagens realizadas por essas frotas, especialmente em operações de longa distância e elevada frequência de utilização das rodovias concedidas.
Um dos pontos centrais do debate foi a necessidade de preservar o equilíbrio econômico-financeiro das concessões rodoviárias. Erica explicou que a CNT representa não apenas transportadores, mas também concessionárias rodoviárias, tornando necessária a construção de mecanismos compensatórios para eventuais perdas de arrecadação.
A proposta em discussão prevê que benefícios tarifários sejam acompanhados de contrapartidas econômicas capazes de preservar a sustentabilidade dos contratos de concessão.
Uma das alternativas levantadas pelos participantes envolve a instalação de pontos de abastecimento de gás e biometano ao longo dos principais corredores logísticos do país. Nesse modelo, concessionárias poderiam participar da implantação da infraestrutura energética, eventualmente contando com incentivos governamentais e mecanismos de parceria público-privada para expansão da rede.
Além de compensar parte da receita perdida com descontos tarifários, a medida ajudaria a resolver um dos principais gargalos apontados pelos transportadores: a insegurança em relação à disponibilidade de combustível ao longo das rotas.
Experiência internacional
Representantes do setor lembraram que mecanismos semelhantes já foram adotados em outros mercados para estimular a adoção de tecnologias de menor emissão no transporte pesado. Nos Estados Unidos, os incentivos se concentram principalmente nos usuários e operadores. Já na Europa, os incentivos historicamente priorizaram produtores e investimentos em infraestrutura, reduzindo custos ao longo da cadeia e acelerando a formação de mercado para novas tecnologias energéticas.
Para Rafael Gonzalez, diretor de Estratégia e Suprimento de Gás da Necta Gás Natural, qualquer modelo brasileiro deverá combinar incentivos à oferta e à demanda. “Você precisa ter demanda para o biometano e precisa fazer sentido para o frete”, afirmou.
Quem paga a conta?
A principal dúvida levantada durante o debate foi justamente a origem dos recursos necessários para financiar um eventual pedágio verde. A avaliação predominante entre os participantes foi que o mecanismo não pode ser tratado como simples renúncia tarifária, mas como uma política pública voltada à redução de emissões e ao desenvolvimento de uma nova cadeia energética para o transporte.
Para Murilo Sulinski Madeira, gerente de Logística da Cocal, a experiência internacional mostra que grandes transformações energéticas normalmente exigem participação ativa do Estado. “Sem o governo dando algum tipo de amparo, dificilmente o projeto de expansão do biometano para de pé”, afirmou.
Os participantes defenderam que um eventual modelo brasileiro deverá combinar incentivos governamentais, investimentos privados e mecanismos de compensação às concessionárias, criando um ambiente econômico favorável à expansão da infraestrutura e da demanda.
Incentivos privados
Enquanto os mecanismos regulatórios ainda estão em discussão, algumas empresas já começaram a criar incentivos próprios para estimular a adoção do biometano. Segundo Rodrigo Lima, diretor de Operações da Copersucar, caminhões movidos a combustível renovável recebem tratamento operacional prioritário em algumas operações da companhia, reduzindo filas e tempos de espera em usinas e terminais portuários.
“Se o caminhão convencional fica aguardando operação, o caminhão a biometano entra direto e descarrega”, afirmou.
Na avaliação dos participantes, iniciativas privadas como essa podem complementar futuros mecanismos regulatórios, como descontos em pedágios e incentivos tributários, acelerando a formação de escala para o mercado.
Ainda em estágio conceitual, o pedágio verde começa a ganhar espaço entre transportadores, concessionárias e empresas da cadeia energética e desponta como uma das principais apostas para aproximar competitividade e descarbonização no transporte pesado brasileiro.
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