A cabotagem brasileira voltou a crescer entre abril e junho, revertendo a desaceleração observada no início do ano e sinalizando uma recuperação gradual da movimentação de contêineres nos portos nacionais. Os dados da Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem (ABAC) mostram que o transporte doméstico e o segmento feeder — serviço que conecta portos brasileiros às rotas marítimas internacionais — avançaram 5,6% no segundo trimestre na comparação com igual período de 2025, impulsionados pela retomada das conexões entre portos brasileiros e as rotas internacionais.
As empresas associadas movimentaram 462.713 TEUs entre abril e junho, ante 438.365 TEUs no mesmo período do ano passado. O resultado representa uma mudança de direção em relação ao primeiro trimestre, quando o setor havia registrado retração de 3,6%, sobretudo em razão da queda nas operações feeder, mais sensíveis ao ritmo do comércio exterior.
A melhora do segundo trimestre, no entanto, não elimina os efeitos do início de ano mais fraco. No acumulado do primeiro semestre, a movimentação cresceu apenas 0,9%, alcançando 898.035 TEUs, evidenciando que a recuperação ainda ocorre de forma desigual entre os diferentes segmentos do mercado.
O principal vetor de estabilidade continua sendo o transporte doméstico, que manteve crescimento consistente. Entre abril e junho, as cargas movimentadas entre portos brasileiros somaram 224.627 TEUs, avanço de 4,2% sobre igual período de 2025. No semestre, a expansão chegou a 6,1%, com 434.895 TEUs transportados.
Fluxo internacional de contêineres
O desempenho indica que a cabotagem segue ampliando participação na logística nacional, beneficiada pela busca das empresas por alternativas ao transporte rodoviário em corredores de longa distância. Ao contrário do feeder, o segmento doméstico apresenta menor exposição às oscilações do comércio internacional e tende a refletir mais diretamente a atividade econômica interna.
A principal mudança em relação aos primeiros meses do ano ocorreu justamente no feeder. Depois de acumular retração de 12,6% no primeiro trimestre, o segmento voltou a crescer entre abril e junho.
O volume transportado aumentou 6,9%, passando de 222.723 TEUs para 238.086 TEUs. Apesar da reação, o semestre ainda encerrou com queda de 3,6%, totalizando 463.140 TEUs, abaixo dos 480.299 TEUs registrados no mesmo período do ano passado.
A recuperação do feeder sugere uma normalização gradual dos fluxos internacionais de contêineres após um início de ano marcado por ajustes operacionais e menor movimentação em parte dos portos.
Outro dado que chama atenção é o crescimento das operações entre o Brasil e os países do Mercosul. O volume praticamente dobrou no segundo trimestre, saltando de 22.407 para 41.892 TEUs, alta de 87%.
Embora represente uma fatia relativamente pequena do mercado, esse desempenho indica uma retomada das rotas regionais de curta distância e reforça a integração logística entre os países do bloco. No acumulado do semestre, o avanço foi de 75,4%, alcançando 78.726 TEUs.
Quando consideradas todas as operações realizadas pelas empresas associadas à ABAC — incluindo o Mercosul —, a movimentação atingiu 504.605 TEUs no segundo trimestre, crescimento de 9,5% sobre igual intervalo de 2025. No semestre, o total chegou a 976.761 TEUs, alta de 4,5%.
Para Luis Fernando Resano, diretor-executivo da ABAC, os números indicam que a cabotagem recuperou parte do dinamismo perdido no início do ano. “O crescimento do transporte doméstico demonstra que a cabotagem continua ganhando espaço na matriz logística brasileira”, afirma.
A leitura dos dados, porém, mostra um setor operando em velocidades diferentes. Enquanto a cabotagem doméstica mantém trajetória consistente de expansão, sustentada pela substituição gradual do transporte rodoviário em algumas rotas, o feeder ainda depende da recuperação mais ampla do comércio exterior para consolidar uma retomada. O forte crescimento observado no segundo trimestre reduz parte das perdas acumuladas no início do ano, mas o avanço modesto de apenas 0,9% no semestre evidencia que a recuperação ainda está em construção.
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