Informação passa a valer tanto quanto a carga nas ferrovias brasileiras

Conectividade em tempo real amplia previsibilidade, reduz falhas operacionais, encurta o transit time e acelera a transformação digital do modal.

Valeria Bursztein

A conectividade deixou de ser apenas uma ferramenta de comunicação para se transformar em um dos principais vetores de eficiência e competitividade das ferrovias, modal que movimenta mais de 20% da carga transportada no país, segundo dados da ANTT.

Em um setor cada vez mais orientado por dados, operadores ferroviários ampliam investimentos em soluções capazes de conectar locomotivas, vagões, sensores, equipes de campo e centros de controle em tempo real, criando uma nova camada de inteligência operacional para o modal.

A mudança acompanha a própria transformação digital das ferrovias. Se, no passado, os sistemas de comunicação estavam restritos ao suporte operacional e à troca de informações entre equipes, hoje a conectividade passou a sustentar processos críticos relacionados à produtividade, disponibilidade dos ativos, segurança operacional e tomada de decisões.

“Quando falamos hoje sobre competitividade, eficiência e modernização das ferrovias, a conectividade já não pode ser vista como um recurso complementar. Ela é um elemento estratégico que conecta pessoas, ativos, sistemas e decisões ao longo de toda a cadeia operacional”, afirma Flavio Franklin, diretor da Globalsat Group no Brasil.

Nas operações ferroviárias modernas, locomotivas, vagões, equipamentos de via permanente, sistemas de sinalização e sensores embarcados geram continuamente grandes volumes de dados. A capacidade de coletar, transmitir e analisar essas informações em tempo real tornou-se essencial para ampliar a visibilidade operacional, antecipar falhas, reduzir tempos de resposta e otimizar recursos.

Informação estratégica

A crescente digitalização das operações altera inclusive a forma como o mercado enxerga a prestação de serviços ferroviários. Se antes o foco estava exclusivamente no transporte da carga, hoje a previsibilidade da operação passou a ser um diferencial competitivo.

Em cadeias logísticas cada vez mais integradas, embarcadores demandam informações precisas sobre localização, condições da carga e previsão de chegada aos destinos. Nesse contexto, a informação passa a assumir valor equivalente ao próprio transporte.

“A conectividade possibilita níveis cada vez maiores de rastreabilidade, previsibilidade e transparência, permitindo que operadores ferroviários tenham uma visão mais precisa de seus ativos e que os clientes acompanhem suas cargas com maior confiabilidade”, afirma Franklin.

Na visão do executivo, a disponibilidade de informações em tempo real contribui para uma gestão mais eficiente de estoques, terminais e operações intermodais, reduzindo incertezas ao longo de toda a cadeia logística.

Impacto na produtividade

Os investimentos em conectividade também começam a refletir diretamente em indicadores estratégicos das ferrovias. Com maior visibilidade da malha, operadores conseguem identificar restrições, antecipar desvios e responder mais rapidamente a eventos que possam comprometer a circulação dos trens.

No Brasil, soluções híbridas de comunicação já vêm sendo utilizadas para monitoramento remoto de locomotivas, telemetria e integração entre equipes de campo e centros de controle ao longo de milhares de quilômetros de malha ferroviária.

O resultado é a redução do tempo de ciclo das composições, maior disponibilidade de locomotivas e vagões e ganhos de eficiência em indicadores como transit time e fluidez da operação. “A conectividade permite monitorar eventos operacionais em tempo real, agilizar a identificação das causas de interrupções e apoiar respostas mais rápidas por parte dos centros de controle e equipes de campo”, diz Franklin.

A melhoria da previsibilidade também reduz o impacto de paradas não planejadas e amplia a utilização dos ativos ferroviários, fator decisivo para elevar a produtividade do modal.

Desafio vai além da cobertura

Apesar dos avanços observados nos últimos anos, a digitalização das ferrovias brasileiras ainda enfrenta desafios importantes. Grande parte dos aproximadamente 30 mil quilômetros da malha ferroviária nacional atravessa regiões remotas, especialmente nos corredores de exportação que ligam o Centro-Oeste e o Norte do País aos portos, onde a infraestrutura tradicional de telecomunicações é limitada.

Nesse cenário, ganha força a adoção de arquiteturas híbridas, combinando redes terrestres, comunicação satelital, Internet das Coisas (IoT) e plataformas digitais capazes de garantir conectividade contínua ao longo de milhares de quilômetros.

No entanto, para Franklin, o desafio atual já não está apenas na expansão da cobertura. “O desafio atual não é apenas conectar os ativos, mas garantir que diferentes plataformas consigam trocar informações de forma integrada, segura e eficiente”, afirma.

Ao longo dos anos, as concessionárias incorporaram sistemas distintos de comunicação, monitoramento, sinalização, automação e gestão operacional. A próxima fronteira da digitalização passa justamente pela interoperabilidade entre essas plataformas. “O valor da conectividade não está apenas na transmissão dos dados, mas na capacidade de transformar informações provenientes de múltiplas fontes em inteligência operacional”, acrescenta o executivo.

A conectividade também assume papel central na prevenção de acidentes e no fortalecimento da segurança operacional. A integração entre comunicação satelital, sensores, IoT e plataformas de monitoramento permite acompanhar continuamente o comportamento dos ativos, identificar anomalias e antecipar situações de risco antes que elas evoluam para incidentes.

“O setor ferroviário caminha para uma abordagem preventiva, baseada em dados e monitoramento contínuo. O objetivo não é apenas responder rapidamente a um problema, mas criar condições para que ele seja identificado e mitigado antes mesmo de acontecer”, afirma Franklin. Segundo ele, operações mais eficientes tendem também a ser mais seguras, uma vez que contam com maior visibilidade sobre processos, ativos e condições operacionais.

Inteligência artificial

A expansão das aplicações de inteligência artificial nas ferrovias dependerá diretamente da disponibilidade e da qualidade dos dados gerados ao longo das operações. Aplicações como manutenção preditiva, gestão inteligente de ativos, automação operacional e otimização de recursos já começam a ganhar espaço no setor. A expectativa é que algoritmos sejam capazes de identificar padrões de desgaste, antecipar falhas potenciais e recomendar intervenções antes que ocorram interrupções operacionais.

Além da manutenção, a inteligência artificial deverá apoiar a otimização do uso de locomotivas e vagões, reduzir tempos improdutivos, melhorar indicadores de transit time e ampliar a previsibilidade operacional ao longo de toda a cadeia logística.

“A inteligência artificial é tão eficiente quanto os dados que recebe. Por isso, a construção de uma infraestrutura robusta de conectividade e integração de sistemas é um passo indispensável para que as ferrovias capturem todo o potencial dessas novas tecnologias”, afirma Franklin.

Na avaliação do executivo, as empresas que conseguirem estruturar uma base consistente de dados, conectividade e interoperabilidade estarão mais bem posicionadas para liderar a próxima etapa da transformação digital do setor ferroviário.

“O verdadeiro desafio já não é conectar apenas locomotivas, sensores ou equipes de campo. O desafio é conectar toda a cadeia operacional, permitindo que informações circulem de forma segura, confiável e contínua entre pessoas, ativos e sistemas”, conclui.

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