Nova ferrovia da Rumo aproxima agronegócio de Santos e reduz dependência das rodovias

Com investimento superior a R$ 5 bilhões, primeiro trecho da Ferrovia de Mato Grosso abre corredor para até 10 milhões de toneladas de grãos por ano

Aline Feltrin

A entrega da primeira fase da Ferrovia de Mato Grosso (FMT), realizada pela Rumo no último sábado (20), marca mais do que a inauguração de 162 quilômetros de trilhos no principal estado produtor de grãos do país. O projeto representa um teste para um novo modelo de expansão ferroviária baseado em autorizações estaduais e capital privado — uma fórmula que o setor vê como alternativa para acelerar obras de infraestrutura sem depender exclusivamente de concessões federais.

Com investimento superior a R$ 5 bilhões nesta primeira etapa, a ferrovia conecta Rondonópolis ao novo terminal rodoferroviário de Dom Aquino, aproximando a malha ferroviária de regiões que concentram a produção agrícola de Mato Grosso. O objetivo é reduzir a dependência do transporte rodoviário em longas distâncias e aumentar a competitividade dos produtos brasileiros nos mercados internacionais.

A expectativa é que o terminal da BR-070 movimente até 10 milhões de toneladas de grãos por ano, criando uma nova porta de entrada para a produção destinada ao Porto de Santos, principal corredor de exportação do agronegócio nacional.

O que muda para o agronegócio?

Mato Grosso responde por cerca de um terço da produção nacional de soja e lidera a colheita de milho no Brasil. Apesar da força no campo, o estado enfrenta há décadas um dos maiores desafios do agronegócio brasileiro: o elevado custo para transportar a safra até os portos.

Hoje, boa parte da produção percorre centenas de quilômetros em caminhões antes de alcançar um terminal ferroviário. Ao avançar os trilhos em direção às áreas produtoras, a Ferrovia de Mato Grosso reduz a distância percorrida por rodovias, diminui o consumo de diesel e melhora a previsibilidade logística.

Para os produtores, isso significa potencial redução de custos e menor exposição aos gargalos tradicionais do transporte rodoviário durante os períodos de pico da safra.

A FMT também inaugura um modelo inédito de expansão ferroviária no Brasil. Diferentemente das grandes concessões federais realizadas nas últimas décadas, o projeto foi estruturado por meio de autorização concedida pelo governo de Mato Grosso. Na prática, a modalidade reduz etapas burocráticas e oferece maior flexibilidade para investimentos privados.

O modelo é acompanhado de perto por investidores e governos estaduais porque pode servir de referência para futuros projetos ferroviários em outras regiões do país. Não por acaso, a ferrovia foi incorporada ao Novo PAC e recebeu apoio institucional dos governos estadual e federal.

Durante a cerimônia de entrega, o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, destacou que a expansão ferroviária é fundamental para aumentar a competitividade brasileira e reduzir emissões de carbono.

Aposta relevante para a Rumo

A empresa já opera o corredor ferroviário que liga Rondonópolis ao Porto de Santos. Com a extensão da malha para dentro do estado, a companhia amplia sua área de influência justamente na região que mais cresce em produção agrícola no Brasil.

A importância estratégica do projeto já havia sido destacada por Maria Alice Gregório, gerente de Planejamento da Rumo. Em entrevista ao Videocast da Transporte Moderno, a executiva afirmou que a expansão da companhia está diretamente ligada ao avanço da ferrovia em direção ao norte de Mato Grosso. (Assista aqui).

“Quando a gente olha a expansão da Rumo nos próximos anos, ela é muito pautada na expectativa de chegar mais próximo a Lucas do Rio Verde. No próximo ano, a gente já chega à BR-070, com um grande terminal que terá uma capacidade considerável. Existe também um investimento muito grande até 2030 falando dessa ferrovia”, afirmou.

A declaração evidencia como a FMT se tornou peça central da estratégia de crescimento da companhia. À medida que a produção agrícola avança para o norte do estado, cresce também a necessidade de infraestrutura capaz de escoar volumes cada vez maiores de soja, milho e farelo.

Segundo a executiva, a chegada dos trilhos mais perto das áreas produtoras permitirá ampliar a capacidade logística do corredor ferroviário e atender à crescente demanda do agronegócio mato-grossense.

A estratégia acompanha a expansão contínua da fronteira agrícola do estado. O norte de Mato Grosso concentra alguns dos municípios com maior crescimento da produção de grãos do país, tornando a infraestrutura logística um fator decisivo para sustentar novos ciclos de expansão.

O CEO da Rumo, Pedro Palma, ressaltou que a ferrovia foi projetada para acompanhar o crescimento de uma das regiões agrícolas mais produtivas do mundo e atender à demanda logística das próximas décadas.

Quando concluída, a Ferrovia de Mato Grosso terá mais de 700 quilômetros de extensão, ligando Rondonópolis a Lucas do Rio Verde e passando por 16 municípios. O projeto também prevê um ramal para Cuiabá.

A expectativa é que a ferrovia transforme a logística estadual ao aproximar os trilhos das principais regiões produtoras e ampliar significativamente a capacidade de transporte de cargas.

Para especialistas do setor, a conclusão do empreendimento poderá consolidar Mato Grosso como o principal exemplo de integração entre produção agrícola e infraestrutura ferroviária no país.

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