Recursos do Move Brasil para transportadoras devem se esgotar em dez dias, prevê executivo da Volvo

Programa de financiamento do governo já consumiu cerca de 75% dos R$ 17 bilhões destinados às empresas; indústria teme interrupção do crédito justamente quando o mercado começa a reagir

Valeria Bursztein

Lapa, Paraná — A velocidade com que as empresas estão utilizando os recursos do Move Brasil surpreendeu a indústria de caminhões e pode antecipar um novo desafio para o setor. Cerca de 75% dos R$ 17 bilhões reservados para pessoas jurídicas já foram comprometidos e a expectativa é que o saldo disponível seja consumido em aproximadamente dez dias, segundo Alcides Cavalcanti, diretor-executivo da divisão de caminhões da Volvo no Brasil.

“O programa foi muito bem aceito pelas empresas. Pela velocidade que estamos observando, acredito que em mais dez dias esses recursos estejam totalmente comprometidos”, afirmou o executivo.

Embora o dinheiro já esteja contratado, a utilização efetiva ocorrerá ao longo dos próximos meses, uma vez que boa parte dos caminhões ainda será produzida. As entregas deverão ocorrer entre agosto e setembro, prolongando os efeitos do programa sobre os licenciamentos até o início do quarto trimestre.

O sucesso da linha, porém, abre uma nova incerteza para fabricantes e concessionárias. Ainda não há definição sobre uma eventual terceira rodada do programa, o que pode provocar um novo desaquecimento do mercado após setembro.

“Essa é hoje a principal dúvida da indústria. Não sabemos se haverá uma renovação do programa. Isso é extremamente importante para entrarmos na Fenatran com um cenário de maior tranquilidade”, disse Cavalcanti.

Mercado reage, mas futuro continua indefinido

O programa surge em um momento delicado para o setor. Até maio, o mercado brasileiro de caminhões acumulava retração próxima de 15% nos emplacamentos em relação ao mesmo período do ano passado, reflexo principalmente do elevado custo do crédito.

Na avaliação da Volvo, o Move Brasil deverá provocar uma aceleração temporária das vendas durante o terceiro trimestre, reduzindo parte das perdas acumuladas. Ainda assim, a companhia mantém sua projeção de queda entre 10% e 15% para o mercado em 2026.

“O terceiro trimestre pode ser melhor por causa do financiamento. Mas o comportamento do quarto trimestre dependerá muito da continuidade, ou não, de um programa como esse”, afirmou.

Mesmo após a recente redução da taxa básica de juros pelo Banco Central, Cavalcanti avalia que o efeito sobre o financiamento de caminhões permanece praticamente nulo.

“Uma redução de 0,25 ponto percentual é inócua. Quando se considera o custo final do crédito bancário, as taxas continuam entre 18% e 20% ao ano.”

Autônomos ainda encontram barreiras

Enquanto os recursos destinados às empresas caminham para o esgotamento, a linha voltada aos caminhoneiros autônomos permanece pouco utilizada. Dos R$ 2 bilhões reservados para esse público, aproximadamente R$ 300 milhões haviam sido contratados até o momento, segundo informações citadas pelo executivo. Entre os principais obstáculos estão restrições cadastrais, dificuldades para obtenção de crédito e elevado nível de endividamento.

“O problema passa por documentação, cadastro positivo e uma série de fatores que dificultam o acesso ao financiamento”, explicou. Para ampliar a adesão, montadoras e governo organizam um evento em Santos voltado exclusivamente aos transportadores autônomos, reunindo todas as fabricantes de caminhões para divulgar as condições do programa.

Segundo Cavalcanti, outro fator limita a procura: parte desse público passou a concentrar suas aquisições no mercado de seminovos. Apesar do aumento da procura por caminhões usados de baixa idade, o segmento não acompanhou a recuperação observada no mercado de novos.

Segundo o executivo, a disponibilidade de crédito subsidiado tornou os veículos zero quilômetro mais competitivos, enquanto uma atualização recente da tabela Fipe aproximou os preços dos seminovos dos valores efetivamente praticados pelo mercado, reduzindo o ritmo dos negócios.

“O cliente acaba migrando para o novo quando encontra financiamento atrativo. Isso esfriou um pouco o mercado de seminovos.”

Para a Volvo, o comportamento dos próximos meses dependerá menos da demanda reprimida e mais das decisões do governo sobre a continuidade dos programas de crédito, que hoje funcionam como principal mecanismo de sustentação do mercado de caminhões em um ambiente ainda marcado por juros elevados e investimento privado cauteloso.

*A jornalista viajou a convite da Volvo

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