Recorde de contêineres no Porto de Santos expõe gargalos e reforça urgência do Tecon 10

Movimentação supera 2,4 milhões de TEUs até maio e evidencia a necessidade de ampliar a capacidade portuária; especialista alerta que os gargalos estão além dos terminais

Aline Feltrin

O Porto de Santos registrou um novo recorde na movimentação de contêineres nos primeiros cinco meses de 2026. O resultado reforça sua posição como principal hub logístico da América Latina, mas amplia a pressão por investimentos em infraestrutura para sustentar o crescimento da demanda.

Entre janeiro e maio, o complexo santista movimentou mais de 2,4 milhões de TEUs (unidade equivalente a um contêiner de 20 pés), enquanto somente em maio o volume superou 500 mil TEUs, o maior já registrado para o período. No total de cargas, o porto movimentou 75,65 milhões de toneladas nos cinco primeiros meses do ano, alta de 4,7% sobre igual período de 2025.

Os números surgem em um momento decisivo para o futuro da infraestrutura portuária brasileira. O governo federal discute os ajustes finais da modelagem do Tecon Santos 10, terminal projetado para ampliar em cerca de 50% a capacidade de movimentação de contêineres do porto e considerado estratégico para evitar um cenário de saturação operacional nos próximos anos.

“O crescimento da movimentação de contêineres tende a ser mais acelerado que o das cargas a granel”, afirmou Paulo Resende, professor e diretor do núcleo de logística e infraestrutura da Fundação Dom Cabral, em entrevista à Agência Transporte Moderno.

Segundo ele, a expansão da carga conteinerizada reflete uma transformação gradual da pauta comercial brasileira. Historicamente concentrado na exportação de commodities agrícolas e minerais, o país vem ampliando a participação de produtos industrializados e de maior valor agregado, que normalmente utilizam contêineres para transporte internacional. “O Brasil está agregando mais valor internamente antes da exportação. Ao mesmo tempo, cresce a importação de produtos industrializados e o avanço do comércio eletrônico internacional, que também impulsiona a demanda por contêineres”, afirma.

A tendência é reforçada pela expansão das importações vindas da Ásia, especialmente da China, além do aumento das operações ligadas ao comércio eletrônico e à indústria de transformação.

Leia mais

Ferrogrão pode economizar R$ 9 bilhões em fretes
Avanço das chinesas leva transportadora a investir em 300 caminhões e mirar R$ 1,4 bi em receita
Viaduto de R$ 62 milhões elimina conflito entre trens e carros

Tecon 10 ganha importância estratégica

A aceleração da demanda ajuda a explicar a importância crescente do Tecon Santos 10 para o governo federal. Recentemente, a União alterou as regras da futura concessão, liberando a participação de armadores globais na disputa, incluindo grupos já presentes em Santos, como MSC e Maersk. O projeto prevê investimentos superiores a US$ 1,2 bilhão e é visto pelo setor como fundamental para ampliar a capacidade do porto diante da expansão contínua do comércio exterior.

Para Resende, os recordes registrados neste ano demonstram que a demanda existe e tende a continuar crescendo. “Os recordes registrados neste ano são uma amostra de que as cadeias de suprimento estão gritando para que Santos tenha uma maior capacidade na movimentação de contêineres”, afirma. A avaliação do especialista é que o novo terminal terá capacidade de responder ao crescimento da demanda, mas ressalta que a expansão portuária não pode ser analisada isoladamente.

Gargalos fora do cais

Embora Santos seja o porto mais equipado do país para movimentação de contêineres, o crescimento acelerado das operações começa a expor limitações estruturais que vão além dos terminais. O principal desafio está nos acessos ao complexo portuário.

Segundo o professor da Fundação Dom Cabral, os gargalos mais urgentes envolvem a infraestrutura rodoviária, as áreas de apoio logístico e a disponibilidade de retroáreas para armazenagem e consolidação de cargas. “Santos acumula muito movimento. Os acessos rodoviários encontram gargalos tanto na descida da serra quanto na chegada ao porto. Além disso, a disponibilidade de retroáreas é limitada pela própria ocupação urbana histórica da região”, afirma. Na avaliação do professor, a ampliação da capacidade dos terminais tem ocorrido de forma consistente, mas encontra limites físicos cada vez mais evidentes.

A preocupação também envolve a concorrência entre diferentes perfis de carga. Santos concentra exportações de soja, açúcar, celulose e outras commodities, além da crescente movimentação de produtos industrializados transportados em contêineres. “O porto movimenta de tudo. Há uma disputa crescente por espaço e capacidade operacional entre cargas de menor valor agregado e a carga geral conteinerizada”, afirma.

Risco de perda de protagonismo

Resende avalia que, sem uma estratégia de expansão integrada, outros portos brasileiros poderão absorver parte do crescimento futuro da movimentação de contêineres. Segundo ele, terminais do Sul e do Sudeste aparecem como candidatos naturais a captar novos fluxos caso Santos enfrente restrições operacionais.

“À medida que Santos se aproxima de seus limites de capacidade, outros portos concorrentes tendem a buscar esse posicionamento estratégico”, afirma. O especialista destaca que a discussão não deve se restringir ao porto santista. Na sua avaliação, os gargalos logísticos brasileiros envolvem um conjunto mais amplo de limitações, incluindo acessos terrestres, baixa participação ferroviária e falta de integração entre modais.

“É preciso tratar a logística dentro do conceito de corredores logísticos e de um plano nacional de Estado, com visão de longo prazo. Sem isso, os estrangulamentos tendem a se repetir”, diz.

Estudos conduzidos pela Fundação Dom Cabral apontam que diversas infraestruturas logísticas brasileiras podem enfrentar limitações importantes por volta de 2035 caso a demanda continue crescendo acima das projeções atuais.

Embora Resende evite apontar uma data específica para Santos, ele considera que os próximos quatro ou cinco anos serão decisivos para ampliar a capacidade do porto e preservar sua liderança regional. “O Tecon Santos 10 é fundamental, mas não basta construir um novo terminal. É preciso investir nas aproximações rodoviárias e ferroviárias, nas retroáreas e na integração logística. Se isso acontecer, Santos poderá consolidar sua posição como principal centro de movimentação de carga conteinerizada da América Latina”, afirma.

Para o governo federal, a expansão da capacidade portuária tornou-se estratégica diante do crescimento do comércio exterior brasileiro. Para o mercado, os recordes de movimentação registrados em 2026 mostram que o desafio deixou de ser apenas uma projeção de longo prazo e passou a fazer parte da realidade operacional do principal porto do país.

Fique por dentro de todas as novidades do setor de transporte de carga e logística:
Siga o canal da Transporte Moderno no WhatsApp
Acompanhe nossas redes sociais: LinkedInInstagram e Facebook
Inscreva-se no canal do Videocast Transporte Moderno

Veja também

CEO
Marcelo Fontana
[email protected]
Editora
Aline Feltrin
[email protected]
/aline-feltrin
Repórter
Valéria Bursztein
[email protected]
/valeria-bursztein
Executivo de contas
Tânia Nascimento
[email protected]
Raul Urrutia
[email protected]
Financeiro
Vidal Rodrigues
[email protected]
Eventos corporativos / Marketing
Barbara Ghelen
[email protected]
Publicidade
Karoline Jones
[email protected]
Representante região Sul (PR/RS/SC)
Gilberto A. Paulin
+55 (41) 3029-0563
João Batista A. Silva
[email protected]

Newsletter O que move o mercado, primeiro para você

Receba as principais notícias, análises e tendências do transporte moderno diretamente no seu e-mail e acompanhe atualizações em tempo real pelo nosso canal oficial.