Banco Scania movimenta R$ 923 milhões com Move Brasil 2 em três semanas

Com 943 operações protocoladas, instituição afirma que programa evitou queda ainda maior do mercado de caminhões e ampliou acesso ao crédito

Valeria Bursztein

O Move Brasil 2 já provocou uma forte aceleração na operação de serviços financeiros da Scania no Brasil. Em apenas três semanas desde a disponibilização das novas condições do programa, o Scania Serviços Financeiros protocolou 943 operações, somando R$ 923 milhões em financiamentos — praticamente o mesmo volume alcançado durante todo o Move Brasil 1, quando a instituição movimentou cerca de R$ 1 bilhão ao longo de três meses.

O volume envolve 955 caminhões, 86 implementos e 33 ônibus, categoria incorporada ao programa em sua segunda fase. Segundo Oscar Jaern, presidente da Scania Serviços Financeiros Brasil, o ritmo de procura superou o registrado na primeira edição do programa.

Oscar Jaern, presidente da Scania Serviços Financeiros Brasil / Foto: Divulgação

“Quando lançamos o Move 1, tivemos um aumento de aproximadamente 60% nas solicitações de propostas. Agora, no Move 2, tivemos uma alta de 100%. O interesse dos clientes realmente é muito grande”, afirmou.

O avanço do programa também alterou o perfil da carteira de financiamentos da instituição. Antes, o CDC próprio representava a maior parte das operações. Com o Move Brasil, cerca de 80% dos novos contratos passaram a ser realizados por meio das linhas do BNDES.

Varejo lidera a demanda

Embora o programa tenha sido criado para estimular a renovação da frota nacional, a maior parte da demanda da Scania vem dos pequenos e médios transportadores. Segundo a empresa, 75% das operações realizadas no Move Brasil 2 correspondem à aquisição de apenas um caminhão.

De acordo com Fábio José D’Angelo, diretor comercial do Banco Scania, cerca de 80% a 85% das análises de crédito da instituição já são historicamente destinadas ao mercado de varejo. “O Move potencializou uma decisão que muitos clientes vinham adiando por conta dos juros elevados. Muitos transportadores estavam esperando uma condição financeira mais adequada para investir”, afirmou.

A limitação de R$ 50 milhões por CPF ou CNPJ estabelecida pelo programa também contribuiu para ampliar o acesso aos recursos, evitando, teoricamente, a concentração dos financiamentos em grandes grupos econômicos.

Mais do que impulsionar vendas

Para a Scania, apesar de a indústria de caminhões também ser beneficiada pelo aumento da demanda, o principal impacto do programa está na capacidade de acelerar a renovação da frota brasileira. “O grande beneficiado é o transportador e, eu diria, a sociedade como um todo. Com a renovação da frota, colocamos veículos mais modernos em circulação, com ganhos em sustentabilidade e segurança”, afirmou Jaern.

A companhia destaca que os veículos financiados pelo programa precisam atender ao padrão Euro 6, tecnologia que reduz emissões de poluentes e incorpora sistemas avançados de segurança e assistência à condução.

Disputa entre marcas permanece inalterada

Embora tenha provocado uma reação nas vendas de caminhões, o Move Brasil não alterou de forma significativa o equilíbrio competitivo entre as montadoras. Na avaliação da Scania, o programa influencia o volume total do mercado, mas não é o único fator capaz de determinar ganhos de participação.

Segundo dados da Fenabrave, o segmento de caminhões vinha apresentando retração em 2026 em meio ao elevado custo do crédito. Para Jaern, ainda é cedo para atribuir mudanças de market share ao efeito do programa, já que fatores como disponibilidade de produção, estratégia comercial e posicionamento de preços também influenciam o desempenho das fabricantes. A montadora continua com share inferior a 11%.

“O financiamento ajuda, mas não é a única coisa que faz a diferença. Isso também depende de disponibilidade de produção, preço e para onde você direciona o produto”, afirmou. Ainda assim, o executivo reconhece que o Move teve papel importante para evitar uma queda ainda maior no setor. Na avaliação da companhia, sem o programa, o mercado de caminhões poderia estar entre 25% e 30% abaixo dos níveis atuais.

Consórcio perde espaço

O forte apelo das condições subsidiadas do Move Brasil também alterou, temporariamente, o comportamento dos clientes em outras modalidades de aquisição. Segundo os executivos da Scania, parte dos transportadores que normalmente recorreriam ao consórcio antecipou decisões para aproveitar as condições do programa.

Ainda assim, a empresa avalia que o movimento é pontual. Nos últimos dois a três anos, o consórcio vinha registrando crescimento impulsionado pelo cenário de juros elevados, tornando-se uma alternativa para empresas que planejam a renovação da frota no médio e longo prazo.

Atualmente, a Scania administra aproximadamente R$ 15 bilhões em recursos de consórcio, volume semelhante à carteira de financiamentos do Banco Scania. “O consórcio é uma ferramenta estratégica de planejamento do negócio. Ele não substitui o financiamento tradicional, que atende o cliente que precisa do caminhão imediatamente”, afirmou Jaern.

Crédito verde e demais linhas: alternativas financeiras

Com o fim dos recursos do Move Brasil, o Banco Scania continuará oferecendo outras modalidades de crédito, como o CDC tradicional, o CDC Verde e o Finame convencional. O CDC Verde, destinado a incentivar tecnologias mais sustentáveis, como caminhões a gás, opera atualmente com taxa próxima de 1,07% ao mês, inferior ao CDC convencional, que gira em torno de 1,40% ao mês. O custo financeiro é semelhante ao praticado pelo Move Brasil, que está próximo de 1,05% ao mês.

Segundo a Scania, o objetivo não é competir com o programa governamental, mas oferecer ao cliente a modalidade mais adequada ao seu perfil e momento de investimento.

Após o Move, setor volta a olhar para os juros

Apesar da importância do programa, a Scania não trabalha com a expectativa de uma terceira rodada do Move Brasil. Para a empresa, uma recuperação estrutural do mercado dependerá principalmente da redução do custo do crédito.

Segundo os executivos, a atividade dos transportadores permanece em patamares saudáveis, com boa utilização da frota e demanda consistente por transporte. O principal desafio continua sendo o impacto dos juros elevados sobre o fluxo de caixa das empresas. “É melhor torcer para a Selic baixar”, resumiu Jaern.

Reciclagem ainda não avança

Embora o Move Brasil contemple uma modalidade específica de desmantelamento de veículos antigos, a Scania não registrou operações nessa categoria. Para Jaern, isso não significa que não exista renovação da frota, já que o caminhão substituído continua sua trajetória no mercado de usados até, gradualmente, substituir veículos mais antigos em outras etapas da cadeia.

O executivo, no entanto, defende a criação de políticas permanentes de renovação da frota brasileira, com foco em segurança, eficiência operacional e redução de emissões.

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