“Queremos combinar a engenharia sueca com a velocidade chinesa”, diz CEO da Scania

Montadora aposta em biometano, eletrificação e inovação acelerada para enfrentar a nova dinâmica global do transporte

Valeria Bursztein

Enquanto parte da indústria automotiva acompanha com preocupação o avanço das fabricantes chinesas no mercado brasileiro, a Scania decidiu adotar uma estratégia diferente: aproximar-se delas. A montadora sueca realizou o maior investimento individual de sua história na China e transformou o país em um centro de aprendizado para acelerar o desenvolvimento de produtos, processos industriais e soluções voltadas à nova mobilidade.

“Em vez de ficar olhando como vamos enfrentar os chineses, fomos aprender com eles”, afirmou Christopher Podgorski, CEO da Scania América Latina, em entrevista à Agência Transporte Moderno durante o Anfavea Vision.

A estratégia não surgiu do zero. A Scania atua no mercado chinês há mais de seis décadas, mas deu um passo decisivo em 2020 ao adquirir ativos industriais na cidade de Rugao, na província de Jiangsu. Em outubro de 2025, inaugurou ali um complexo industrial de aproximadamente € 2 bilhões, considerado o maior investimento internacional já realizado pela companhia e o terceiro hub industrial global da marca, ao lado das operações da Suécia e do Brasil.

Com capacidade projetada para produzir até 50 mil caminhões por ano em plena operação, a unidade foi concebida não apenas para fabricar veículos, mas para inserir a Scania no centro do ecossistema industrial e tecnológico chinês.

Segundo Podgorski, o objetivo é absorver a velocidade de desenvolvimento característica da indústria local sem abrir mão dos padrões de engenharia que fizeram da marca uma das referências globais em veículos comerciais.

“Normalmente levamos entre seis e sete anos para desenvolver uma nova plataforma. Na China vimos projetos sendo concluídos em aproximadamente três anos. Eles não têm medo de errar, corrigem rapidamente e seguem em frente”, afirmou.

Marcas chinesas aceleram expansão no Brasil

A avaliação ocorre em um momento de forte expansão das marcas chinesas no Brasil. Segundo o executivo, a próxima Fenatran, o maior evento do setor na América do Sul, deverá reunir número recorde de fabricantes chinesas. O movimento é impulsionado pela elevada capacidade produtiva instalada na China e pela busca de novos mercados para absorver a produção excedente.

Podgorski afirma, entretanto, que a Scania não vê a concorrência como uma ameaça inevitável. “Pode vir quem quiser. O importante é que todos joguem com as mesmas regras”, afirmou. Na avaliação do executivo, a vantagem competitiva das fabricantes estabelecidas no Brasil vai além do produto. Ela envolve décadas de investimentos em engenharia, validação, rede de concessionárias, disponibilidade de peças, assistência técnica e adaptação às condições brasileiras de operação. “Se um caminhão funciona bem no Mato Grosso, ele funciona em qualquer lugar do mundo. O contrário nem sempre acontece.”

Descarbonização deixa fase experimental

Além da concorrência internacional, a Scania vê a transição energética como a principal transformação estrutural do transporte pesado nas próximas décadas. Para Podgorski, a tecnologia já não é o principal desafio. “A tecnologia não é o problema. O desafio é construir novos ecossistemas.”

Segundo ele, a indústria dispõe hoje de soluções maduras em eletrificação, biometano, biodiesel e outras rotas energéticas. O desafio passa a ser criar infraestrutura, oferta de combustível, rede de suporte e previsibilidade regulatória capazes de competir com um sistema baseado em combustíveis fósseis que levou mais de um século para atingir o atual nível de maturidade.

Nesse cenário, o executivo acredita que o Brasil possui uma vantagem singular: a coexistência de diferentes fontes energéticas. “O crescimento do transporte vai continuar acontecendo. A diferença é que ele não estará apoiado em uma única matriz, mas em várias soluções coexistindo ao mesmo tempo.”

Biometano ganha escala comercial

Entre as apostas mais promissoras está o biometano. Desde o lançamento da linha a gás, em 2021, a Scania já comercializou cerca de 2.800 caminhões movidos a gás na América Latina. A expectativa é que as vendas continuem crescendo à medida que o combustível amplia sua oferta e a demanda por operações de menor emissão de carbono se intensifica.

Segundo Podgorski, o mercado já ultrapassou a fase de testes. “O cliente não está mais pedindo dois caminhões para experimentar. Agora ele quer operações completas descarbonizadas.” O executivo compara o momento atual do biometano ao início da expansão do etanol no Brasil. “O biometano e o biodiesel estão fazendo hoje o papel que o etanol desempenhou nos últimos cinquenta anos.”

Além do benefício ambiental, a solução também responde a uma questão estratégica para o país: a segurança energética. O Brasil ainda depende da importação de aproximadamente 30% do diesel consumido internamente. O crescimento do biometano e do biodiesel pode reduzir essa dependência ao longo dos próximos anos. “O biometano ajuda a aumentar a segurança energética do país.”

Eletrificação avança onde há infraestrutura

A eletrificação também permanece no radar da fabricante, especialmente em corredores logísticos de alta densidade econômica. Para Podgorski, regiões como os eixos Rio-São Paulo e São Paulo-Campinas reúnem as condições mais favoráveis para a adoção inicial de caminhões elétricos pesados, graças à disponibilidade de energia, infraestrutura e concentração de carga.

A Scania participa atualmente de testes operacionais com parceiros como Amazon e DHL para avaliar a viabilidade econômica da tecnologia. Segundo o executivo, os estudos mostram que o elevado investimento inicial pode ser compensado por custos menores de manutenção e operação ao longo do ciclo de vida do veículo. “O que importa para o transportador é o custo total de propriedade e operação.”

Os resultados preliminares indicam que a tecnologia se torna particularmente competitiva em operações de utilização intensiva, nas quais os veículos permanecem em atividade por grande parte do dia.

Quando questionado sobre a produção em escala de caminhões elétricos pesados no Brasil, Podgorski foi direto: “Não é se vamos produzir. É quando”. Segundo ele, a estratégia seguirá a mesma trajetória adotada no desenvolvimento dos veículos a gás, aguardando o amadurecimento da demanda e da infraestrutura necessária para sustentar a operação.

Transporte seguirá múltiplas rotas

Para a Scania, não existe uma única solução para a descarbonização do transporte. A eletrificação deve avançar em corredores específicos e operações urbanas. O biometano tende a ganhar espaço em regiões ligadas ao agronegócio. O biodiesel continuará ampliando sua participação na matriz energética. Já o hidrogênio deverá encontrar aplicações iniciais em setores industriais de difícil descarbonização antes de chegar ao transporte rodoviário em larga escala.

A estratégia da companhia é estar preparada para todas essas alternativas. Para isso, a Scania decidiu fazer algo pouco comum entre fabricantes tradicionais: transformar a ascensão chinesa em fonte de aprendizado. “Queremos combinar o melhor da engenharia que construímos ao longo de décadas com a velocidade de transformação que eles desenvolveram”, concluiu Podgorski.

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