A Bosch iniciará em 2027 a produção de motores elétricos e componentes de alta tensão para veículos comerciais em sua unidade de Campinas (SP), movimento que amplia a nacionalização da cadeia de eletrificação no Brasil e marca uma nova etapa da estratégia da companhia para o segmento.
A iniciativa integra um pacote de investimentos de R$ 1 bilhão previsto para 2026, que também contempla a expansão da produção de eletrônicos automotivos, projetos ligados a sistemas híbridos flex e iniciativas de digitalização.
Em entrevista à Agência Transporte Moderno, o CEO da Bosch América Latina, Gastón Diaz Perez, afirmou que a adoção de novas tecnologias deve estar alinhada com a capacidade de compra do mercado.
“Quanto mais tecnologia é incorporada ao veículo, maior tende a ser o custo. Se a melhor tecnologia disponível tornar o caminhão economicamente inacessível, o resultado será o prolongamento da vida útil da frota antiga. A inovação precisa caminhar junto com o poder de investimento do transportador”, afirmou.
Segundo o executivo, o avanço da eletrificação no transporte de cargas ainda ocorre de forma seletiva, apesar da disponibilidade de modelos no mercado. Para operações de longa distância e transporte pesado, fatores como autonomia, peso transportado, infraestrutura de recarga e características da malha rodoviária ainda limitam a expansão dos veículos elétricos. Por outro lado, aplicações urbanas e de última milha começam a apresentar casos de uso economicamente viáveis.
“A eletrificação já chegou ao transporte comercial, mas ainda está concentrada em segmentos específicos. As operações urbanas e de distribuição são os exemplos mais evidentes neste momento”, disse Perez.
Além da produção local, a Bosch avalia a possibilidade de construir uma rede de parceiros para atender o mercado brasileiro à medida que a demanda por veículos comerciais eletrificados ganhar escala.
“Em princípio, o projeto será conduzido pela Bosch, mas não descartamos parcerias no médio prazo. Trata-se de um mercado com poucos participantes e que ainda está em desenvolvimento”, afirmou.
Linha flexível
A nova operação da Bosch foi desenhada para atender um mercado que ainda apresenta volumes relativamente baixos quando comparado aos principais polos globais de eletrificação, avalia o executivo.
Por essa razão, a empresa optou por uma linha de produção altamente flexível, capaz de fabricar diferentes componentes e atender múltiplos clientes sem a necessidade de grandes volumes para viabilizar economicamente a operação.
“Não faz sentido desenvolver tudo do zero. Vamos utilizar plataformas já existentes e adaptá-las às necessidades locais. O importante é investir de forma inteligente e compatível com a realidade do mercado brasileiro”, explicou.
Segundo Perez, essa estratégia permite reduzir custos de desenvolvimento e acelerar a introdução de tecnologias já consolidadas em outros mercados.
A linha que será transferida para Campinas combina estações manuais e automatizadas, permitindo mudanças rápidas de configuração e produção de diferentes modelos em uma mesma estrutura industrial.
Eletrificação e digitalização
Além dos motores elétricos para veículos comerciais, o pacote de R$ 1 bilhão anunciado pela Bosch contempla a expansão da produção de unidades eletrônicas de controle (ECUs), motores elétricos de baixa tensão utilizados em sistemas automotivos e investimentos em engenharia para tecnologias híbridas flex.
A companhia também reforçará projetos ligados à digitalização industrial e ao desenvolvimento de software embarcado, áreas que vêm ganhando relevância com o avanço da conectividade e da eletrônica embarcada nos veículos comerciais.
A linha de produção deverá ser instalada em Campinas até o final de 2026. A fabricação em série dos motores elétricos e componentes de alta tensão está prevista para começar em 2027, com possibilidade de futuras parcerias locais conforme o mercado de veículos comerciais eletrificados ganhar escala.
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