A transição energética brasileira deverá seguir um caminho diferente daquele adotado por parte da Europa e de outros mercados desenvolvidos. Em vez de apostar em uma única tecnologia, o país deve construir uma estratégia baseada na coexistência de diferentes fontes de energia, combinando eletrificação, biocombustíveis, biometano e soluções híbridas para atender às necessidades de uma economia de dimensões continentais.
A avaliação foi compartilhada por Alberto Kuba, CEO da WEG; Tomás Manzano, CEO da Copersucar; e Christopher Podgorski, CEO da Scania América Latina, durante o painel “A Matriz Energética que Move o Brasil: Transição, Coexistência e Estratégia”, realizado no Anfavea Vision, evento que reuniu o setor automotivo em São Paulo.
Ao mesmo tempo em que a descarbonização do transporte ganha relevância global, o processo expõe diferenças importantes entre regiões. Enquanto parte dos países europeus concentra esforços na eletrificação, o Brasil busca aproveitar uma matriz energética considerada uma das mais limpas do mundo para desenvolver múltiplas rotas tecnológicas.
Para Alberto Kuba, a disponibilidade de energia renovável tende a se tornar um dos principais ativos geopolíticos deste século. “O século XX foi marcado pela importância estratégica do petróleo. Hoje, a grande vantagem competitiva é ter energia disponível, especialmente energia renovável”, afirmou.
Segundo o executivo, mais de 85% da geração elétrica brasileira já é proveniente de fontes renováveis, resultado da combinação entre hidrelétricas, parques eólicos e usinas solares. Kuba destacou ainda que o aumento da demanda global por eletricidade, impulsionado pela inteligência artificial, centros de dados e pela própria eletrificação da mobilidade, coloca o Brasil em posição privilegiada para atrair investimentos industriais.
A WEG, por exemplo, investiu R$ 1,3 bilhão no país em 2025 e prevê novos aportes de aproximadamente R$ 1,5 bilhão este ano para ampliar sua capacidade produtiva voltada à eletrificação e infraestrutura energética.
Carbono pode se tornar ativo estratégico
Na visão da Copersucar, a principal vantagem competitiva brasileira não está apenas na disponibilidade de energia, mas na baixa intensidade de carbono de sua produção agrícola e energética. Tomás Manzano defendeu que o país deixou para trás o modelo baseado apenas na extração de recursos naturais e passou a construir valor a partir da bioeconomia e da economia circular. “O Brasil tem um diferencial único que é o carbono. Talvez ainda não seja valorizado na velocidade que gostaríamos, mas existe um valor enorme a ser capturado”, afirmou.
Segundo o executivo, a produção de cana-de-açúcar exemplifica essa transformação ao permitir a geração simultânea de alimentos, combustíveis e energia na mesma área agrícola. Para Manzano, a combinação entre segurança alimentar e segurança energética coloca o Brasil em posição diferenciada diante dos desafios globais de crescimento populacional e descarbonização.
Biometano: alternativa ao diesel
Entre as apostas da Copersucar para os próximos anos está a expansão do biometano produzido a partir da vinhaça gerada na fabricação de etanol. O combustível tem a mesma composição química do gás natural, mas pode reduzir em até 90% as emissões de carbono em comparação às alternativas fósseis.
Segundo Manzano, o potencial brasileiro é incomparável devido à escala da indústria sucroenergética. “Para cada litro de etanol produzido são gerados cerca de 13 litros de vinhaça. É uma matéria-prima que já existe e que pode ser transformada em energia”, explicou.
O executivo destacou ainda que o biometano já apresenta competitividade econômica. Segundo ele, o combustível pode custar entre 20% e 30% menos do que o diesel, mantendo desempenho equivalente em aplicações de transporte rodoviário. A estratégia já começa a ganhar escala por meio do projeto BioRota, iniciativa que conecta produtores de biometano a operações logísticas e portuárias utilizando caminhões movidos a gás.
Soluções sustentáveis e rentáveis
Para Christopher Podgorski, a transição energética dos veículos comerciais precisa atender simultaneamente aos objetivos ambientais e financeiros. “O transporte sustentável precisa ser sustentável também do ponto de vista econômico”, afirmou.
Segundo o CEO da Scania América Latina, o maior desafio não é apenas desenvolver veículos, mas criar novos ecossistemas completos de abastecimento, recarga, manutenção e infraestrutura. Podgorski ressaltou que tecnologias como o biometano já demonstram viabilidade operacional e competitividade econômica, mas dependem de políticas públicas de longo prazo para alcançar escala.
Na avaliação do executivo, programas como Inovar-Auto, Rota 2030 e Mover contribuíram para orientar investimentos da indústria, mas o setor ainda precisa de maior previsibilidade regulatória. “Excelentes políticas públicas têm começo e fim. Talvez precisemos de uma política industrial de horizonte mais longo”, afirmou.
Brasil influencia decisões globais
Apesar de boa parte do desenvolvimento tecnológico da indústria automotiva ainda estar concentrada na Europa, os executivos destacaram que as soluções desenvolvidas no Brasil começam a ganhar relevância dentro das matrizes globais.
Podgorski afirmou que o conceito de “Global South” passou a ganhar espaço nas discussões estratégicas das montadoras, impulsionado pela necessidade de soluções adaptadas a mercados emergentes. “As dores e necessidades do transporte brasileiro são muito semelhantes às encontradas em outras regiões da América Latina, África e Índia”, afirmou.
Para Kuba, da WEG, o principal aprendizado brasileiro está justamente na capacidade de integrar diferentes tecnologias e construir soluções em parceria. “O Brasil se tornou um laboratório importante para testar modelos que combinam biocombustíveis, eletrificação e sistemas híbridos”, disse.
Coexistência deve prevalecer
Ao final do painel, os três executivos convergiram em uma mesma conclusão: a mobilidade do futuro será marcada pela coexistência de diferentes fontes energéticas. A WEG aposta na expansão da mobilidade elétrica associada à digitalização dos veículos e à integração com a rede elétrica, incluindo sistemas de recarga bidirecional que permitam utilizar a bateria do veículo como fonte de energia para residências ou empresas.
A Copersucar prevê crescimento do uso de etanol e biometano em aplicações cada vez mais diversificadas, incluindo veículos leves, caminhões, geração elétrica, aviação e transporte marítimo.
Já a Scania projeta avanço simultâneo da eletrificação, da conectividade e dos sistemas avançados de assistência ao motorista, mantendo diferentes tecnologias disponíveis para atender às particularidades de cada operação. “A sociedade exige descarbonização. Não estamos mais falando de mudança climática, mas de emergência climática. O caminho será construído com múltiplas tecnologias”, concluiu Podgorski.
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