A chegada de novos competidores globais, liderados pela indústria chinesa, e a transformação tecnológica do setor automotivo estão colocando a cadeia nacional de autopeças e sistemistas diante de um dos maiores desafios das últimas décadas: manter a competitividade necessária para continuar atraindo investimentos, desenvolvendo tecnologia e preservando sua participação na produção de veículos. A avaliação foi compartilhada por executivos da Bosch e da Moura durante debate realizado no Anfavea Vision.
O debate ocorre em um período de forte transformação da indústria automotiva global. Além da expansão dos fabricantes chineses, fornecedores e montadoras precisam lidar simultaneamente com a eletrificação, a digitalização dos veículos e a disputa internacional por investimentos, fatores que pressionam a competitividade dos polos produtivos tradicionais.
Para Gastón Diaz Perez, CEO da Bosch América Latina, o Brasil continua sendo um mercado estratégico dentro da operação global da companhia. Segundo ele, o desafio não está apenas em absorver tecnologias desenvolvidas no exterior, mas em ampliar a participação da engenharia nacional no desenvolvimento dessas soluções.
“O veículo que chega da China pode ter muito conteúdo Bosch, mas a questão é transformar esse conteúdo em Bosch Brasil. Precisamos criar condições para que o desenvolvimento tecnológico também aconteça aqui”, afirmou.
Segundo Perez, as empresas instaladas no Brasil não competem apenas com concorrentes externos, mas também disputam investimentos com operações localizadas em países como China, Índia e México. Nesse cenário, a capacidade de atrair novos projetos passa a depender não apenas da eficiência industrial, mas também de fatores como produtividade, ambiente regulatório, qualificação profissional e previsibilidade para investimentos.
A preocupação reflete a rápida expansão das montadoras chinesas no mercado brasileiro. Além de ampliarem participação nas vendas, os novos fabricantes chegam ao País com cadeias de fornecimento mais integradas e forte domínio das tecnologias ligadas à eletrificação, aumentando a pressão competitiva sobre fornecedores locais.
Perez destacou que a Bosch anunciou investimentos de R$ 1 bilhão no país em 2026, destinados à digitalização, novas linhas de produção, eletrificação, eletrônica embarcada, pesquisa e desenvolvimento, além de projetos ligados a biocombustíveis e ao avanço da tecnologia híbrida flex.
O executivo lembrou que algumas soluções desenvolvidas pela engenharia brasileira já vêm ganhando espaço em outros mercados. Como exemplo, citou componentes produzidos pela Bosch em Campinas utilizados em veículos híbridos movidos a etanol lançados recentemente na Índia.
Moura amplia investimentos em eletrificação
Representando uma das principais empresas brasileiras da cadeia automotiva, Thiago Tasso, diretor-geral da Moura Participações, afirmou que o avanço tecnológico da indústria exigirá uma coordenação mais estreita entre fabricantes, fornecedores, governo e instituições de fomento para ampliar o conteúdo local e fortalecer a cadeia produtiva brasileira.
Segundo ele, a empresa vem acelerando investimentos para acompanhar a transição tecnológica do setor. A Moura investiu aproximadamente R$ 3 bilhões nos últimos dez anos em expansão industrial e desenvolvimento tecnológico e prepara novos aportes para ampliar sua atuação em baterias de lítio, baterias avançadas de chumbo e sistemas de armazenamento de energia.
A companhia também anunciou investimentos adicionais de R$ 500 milhões neste ano. Parte relevante dos recursos está concentrada em Belo Jardim (PE), município de cerca de 70 mil habitantes onde a empresa foi fundada e mantém aproximadamente 90% de seu parque industrial.
Recentemente, a companhia concluiu uma nova planta de reciclagem, com investimento superior a R$ 800 milhões.
“Nós estamos fazendo um esforço contínuo para preparar nossa estrutura para a eletrificação. Isso exige coordenação tecnológica, proximidade com as montadoras e adaptação às mudanças regulatórias”, afirmou Tasso.
Talentos entram na estratégia industrial
Além dos investimentos industriais tradicionais, Perez afirmou que a formação de profissionais especializados passou a ser um dos principais pilares da estratégia de crescimento da Bosch.
A companhia mantém atualmente cerca de 400 jovens em programas de formação digital e industrial e já exporta serviços de engenharia e tecnologia desenvolvidos no Brasil para operações globais do grupo. Segundo o executivo, modelos de reengenharia de processos desenvolvidos por equipes brasileiras já estão sendo utilizados internacionalmente pela companhia.
O executivo revelou que um processo seletivo para 400 vagas de formação digital recebeu cerca de 22 mil currículos, evidenciando a forte demanda por capacitação tecnológica no mercado brasileiro.
“Existe muito talento na nossa região. O desafio é desenvolver esse potencial e transformá-lo em competitividade para a indústria”, afirmou.
Formação profissional começa no território
Assim como a Bosch, a Moura vê a qualificação profissional como uma questão estratégica para a competitividade industrial.
Tasso destacou que a empresa mantém há décadas parcerias com universidades federais, institutos federais, SENAI e centros de pesquisa de Pernambuco e da Paraíba, além de programas voltados à formação de jovens aprendizes, bolsistas e profissionais especializados em áreas como cibersegurança, desenvolvimento de software, mecânica, eletrônica e engenharia.
Segundo o executivo, a empresa opera dezenas de iniciativas de formação profissional voltadas tanto ao chão de fábrica quanto ao desenvolvimento de pesquisadores e engenheiros.
Cadeia local na disputa global
Ao discutir o futuro da indústria nacional, os dois executivos defenderam a necessidade de ampliar o adensamento da cadeia produtiva brasileira e construir políticas de longo prazo capazes de estimular investimentos locais.
Para Perez, a instabilidade econômica e geopolítica que passou a caracterizar o cenário global pode até representar uma vantagem para empresas latino-americanas, tradicionalmente acostumadas a operar em ambientes mais voláteis.
“O mundo passou a conviver com inflação, juros elevados, mudanças repentinas de regras, barreiras comerciais e problemas de suprimentos. De certa forma, o mundo ficou mais parecido com a América Latina. E a nossa capacidade de adaptação pode ser um diferencial importante”, afirmou.
Já Tasso defendeu maior coordenação entre empresas, governo, instituições de fomento e entidades setoriais para acelerar o desenvolvimento tecnológico e ampliar a participação da indústria local nas novas cadeias ligadas à eletrificação e à transição energética.
Na avaliação dos executivos, a disputa pelos investimentos da próxima geração da indústria automotiva já começou. O resultado dependerá não apenas da capacidade das empresas de inovar, mas também da velocidade com que o Brasil conseguirá formar talentos, desenvolver fornecedores e criar condições para competir com polos industriais como China, Índia e México.
Fique por dentro de todas as novidades do setor de transporte de carga e logística:
Siga o canal da Transporte Moderno no WhatsApp
Acompanhe nossas redes sociais: LinkedIn, Instagram e Facebook
Inscreva-se no canal do Videocast Transporte Moderno



