Freio retarder para caminhão elétrico: Driventic desenvolve solução inédita com montadora

Sistemista participa de projeto de um novo caminhão e aposta na eletrificação de componentes para ampliar negócios em meio ao avanço dos fabricantes chineses

Aline Feltrin

A eletrificação dos caminhões já começa a mudar o mercado de fornecedores de componentes. A alemã Driventic desenvolve, em parceria com uma montadora tradicional instalada no Brasil, um freio retarder para um caminhão elétrico. O projeto, que ainda não teve a fabricante nem o veículo revelados, prevê a integração do novo componente ao motor elétrico do caminhão.

O retarder é um sistema auxiliar de frenagem que ajuda a controlar a velocidade do veículo e reduz a necessidade de utilização dos freios convencionais, principalmente em descidas e operações que exigem frenagens frequentes. Nos caminhões convencionais, a Driventic trabalha principalmente com retarders hidrodinâmicos, que utilizam óleo para gerar resistência e auxiliar na desaceleração.

A novidade é que a empresa está desenvolvendo uma versão 100% elétrica, concebida para trabalhar integrada à arquitetura elétrica do veículo. Segundo Lucas Rolim,diretor comercial da Driventic, o desenvolvimento do novo retarder ocorre dentro de um projeto maior de caminhão elétrico conduzido em parceria com a montadora. O trabalho conjunto já dura cerca de três anos, enquanto o desenvolvimento específico da nova tecnologia está em andamento há aproximadamente dois anos.

A montadora não foi identificada porque o projeto ainda não está pronto para ser divulgado. Rolim também não revelou o segmento ou porte do caminhão.

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Tecnologia será lançada no Brasil e na Europa

O desenvolvimento não é apenas uma adaptação de uma tecnologia já existente no exterior. De acordo com Rolim, o retarder está sendo desenvolvido paralelamente para os mercados brasileiro e europeu, com participação das equipes de engenharia da Driventic na Alemanha e no Brasil. A empresa ainda não definiu onde o componente será produzido nem quando o caminhão chegará ao mercado. Também não existe, neste momento, uma programação de volumes, já que o lançamento do veículo ainda não foi definido pela montadora.

A estratégia, entretanto, vai além do projeto específico. A intenção da Driventic é utilizar o desenvolvimento como base para oferecer posteriormente uma solução de retarder elétrico a outros fabricantes. Inicialmente, o componente será exclusivo do projeto da montadora parceira.

A diferença em relação ao retarder convencional está justamente na integração com o trem de força elétrico. Em vez de depender de uma arquitetura hidrodinâmica, o novo sistema aproveita os componentes elétricos do veículo e pode trabalhar associado ao motor elétrico.

“Tudo que a gente puder trabalhar nesse sentido de eletrificar os componentes do veículo, você tem um ganho ainda melhor de autonomia do veículo 100% elétrico”, afirma Rolim.

Eletrificação muda negócio da sistemista

Para a Driventic, o desenvolvimento mostra uma mudança mais ampla na indústria. A eletrificação não significa apenas trocar o motor a diesel por um elétrico. Sistemas tradicionalmente utilizados nos caminhões também precisam ser adaptados para a nova arquitetura. Esse movimento já afeta os negócios da sistemista.

A empresa trabalha com duas frentes: manter e evoluir as tecnologias destinadas aos caminhões convencionais e, ao mesmo tempo, desenvolver componentes para veículos elétricos. A estratégia inclui motores elétricos e sistemas de acionamento, além do novo retarder.

A Driventic já possui soluções elétricas homologadas por fabricantes chineses e europeus e vem ampliando o uso de sua plataforma VEDS (Voith Electric Drive System) ou sistema integrado de propulsão elétrica para veículos comerciais para caminhões e ônibus elétricos. A companhia informou recentemente que a evolução do sistema passou a contemplar novas aplicações em veículos comerciais, incluindo caminhões.

No portfólio atual da empresa também estão sistemas de acionamento elétrico, motores e componentes de transmissão e frenagem. A lógica é que, à medida que os caminhões elétricos ganham espaço, novos componentes passam a ser necessários — e fornecedores tradicionais precisam acompanhar essa transformação para não perder relevância.

Retarder reduz desgaste dos freios

Nos caminhões convencionais, o retarder tem justamente a função de reduzir o trabalho dos freios de serviço. Em uma descida, por exemplo, o sistema permite controlar a velocidade do veículo sem depender continuamente do pedal de freio.

A tecnologia já é amplamente utilizada em veículos pesados. Em julho, a Driventic anunciou que continuará como fornecedora exclusiva de retarders para a Ford Trucks, com mais de 10 mil caminhões da marca equipados com seus sistemas desde 2021. Segundo a empresa, os retarders hidrodinâmicos podem realizar cerca de 90% das operações de frenagem sem desgaste dos freios de serviço. A nova geração elétrica busca levar esse conceito para os caminhões movidos a bateria.

A solução também poderá ter aplicação em veículos a diesel, segundo Rolim. Isso amplia o mercado potencial do componente e permite que a tecnologia seja utilizada durante a transição entre os diferentes sistemas de propulsão.

Chineses pressionam fornecedores

O desenvolvimento ocorre em um momento de aumento da presença de fabricantes chineses no mercado sul-americano de caminhões. Para a Driventic, a chegada desses concorrentes já teve impacto nos negócios. “Como eu cuido do mercado sul-americano como um todo, senti um pouco o impacto da entrada das chinesas”, afirma Rolim.

Apesar da pressão, a empresa afirma ter mantido seu nível de participação de mercado na região. Na avaliação do executivo, os fornecedores europeus ainda possuem uma vantagem tecnológica em determinadas aplicações, embora os fabricantes chineses estejam avançando e testando suas soluções junto aos clientes.

A estratégia da Driventic, portanto, é ampliar a oferta de tecnologia para não depender exclusivamente do mercado tradicional. “Precisamos ter soluções novas no mercado”, diz Rolim.

A pressão competitiva ajuda a explicar a expectativa de estabilidade da receita neste ano. A Driventic Global deverá encerrar 2026 com faturamento de aproximadamente € 600 milhões, segundo Rolim, praticamente em linha com o ano anterior.

Sem a entrada dos fabricantes chineses, a empresa poderia ter registrado crescimento maior, afirma o executivo. A companhia acabou acompanhando mais de perto a evolução do próprio mercado.

Para 2027, a expectativa é manter o patamar de faturamento, mas com a ampliação do portfólio como uma das estratégias para gerar novas oportunidades. O novo retarder para caminhões elétricos entra justamente nesse movimento.

Para a sistemista, a eletrificação representa uma ameaça ao modelo tradicional de fornecimento, mas também abre um novo mercado. Se antes o foco estava em melhorar os sistemas mecânicos e hidrodinâmicos dos caminhões a combustão, agora a disputa passa também pela capacidade de eletrificar componentes e integrá-los à nova arquitetura dos veículos.

É nesse espaço que a Driventic pretende crescer — sem abandonar o mercado de caminhões convencionais, que ainda responde por uma parcela importante de seus negócios.

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