Transportadoras perdem dinheiro com diesel além da bomba

Além do preço do combustível, desperdícios e falhas de gestão elevam custos e comprometem a rentabilidade do frete

Valeria Bursztein

O diesel continua sendo o principal componente de custo do transporte rodoviário de cargas no Brasil, mas especialistas alertam que uma parcela relevante das perdas financeiras das transportadoras não está relacionada ao preço do combustível, e sim à falta de controle sobre seu consumo.

Segundo a Confederação Nacional do Transporte (CNT), o diesel responde por cerca de 35% dos custos operacionais do transporte rodoviário de cargas, mantendo-se como o item de maior peso na composição do frete. Em um setor marcado por margens estreitas, aumento dos custos financeiros e necessidade crescente de eficiência operacional, falhas na gestão do combustível podem comprometer significativamente os resultados das empresas.

O tema se torna ainda mais estratégico à medida que as transportadoras investem na renovação da frota, incorporam veículos Euro 6 e buscam preservar margens em um mercado de forte concorrência. Roger Maia, fundador e CEO da Vilesoft, analisa que muitas empresas ainda operam com controles descentralizados, planilhas e baixa integração entre abastecimento, manutenção, logística e financeiro. A empresa é desenvolvedora de sistemas ERP e gestão para transportadoras, que atua em processos de controle operacional, financeiro e de frotas.

“O combustível não representa apenas o maior custo da operação. Ele também concentra um dos maiores riscos de perda financeira quando a empresa não possui controle integrado entre frota, abastecimento e gestão financeira”, afirma.

Perdas invisíveis

Embora a alta do diesel costume concentrar as atenções do mercado, parte importante dos prejuízos está associada a desperdícios operacionais, inconsistências de registros, desvios de combustível, abastecimentos fora do padrão e falhas na medição do consumo.

Para ilustrar o impacto financeiro do combustível, uma simulação hipotética considerando uma frota de 100 caminhões percorrendo cerca de 10 mil quilômetros por mês aponta consumo superior a 300 mil litros de diesel mensais. Com o litro próximo de R$ 6, o desembolso ultrapassaria R$ 1,8 milhão por mês. Uma perda operacional de apenas 2% significaria mais de R$ 430 mil ao ano.

“Em operações com margem apertada, pequenas perdas acumuladas ao longo do tempo podem comprometer significativamente o resultado financeiro da empresa”, diz Roger Maia. Além dos desvios, fatores como excesso de marcha lenta, condução inadequada, rotas ineficientes, pneus descalibrados e manutenção deficiente podem aumentar significativamente o consumo de combustível. Empresas de telemetria relatam diferenças superiores a 10% no desempenho de motoristas operando veículos semelhantes nas mesmas condições.

Frete pode estar sendo calculado com custos incorretos

Outro problema apontado é a dificuldade de muitas empresas em calcular com precisão o custo real de cada operação. Sem integração entre os dados operacionais e financeiros, transportadoras podem precificar fretes com base em estimativas e não em custos efetivamente apurados, comprometendo a rentabilidade das viagens.

“Quando os dados operacionais não conversam com as informações financeiras, o gestor perde visibilidade da operação e passa a tomar decisões com menor precisão”, afirma Flávio Henrique Fonseca de Andrade, diretor de tecnologia da Vilesoft.

Segundo ele, a automação tem se consolidado como uma das principais ferramentas para reduzir perdas. Sistemas integrados permitem registrar abastecimentos em tempo real, vincular o consumo a veículos, rotas e motoristas e identificar rapidamente desvios ou comportamentos fora do padrão.

Tecnologia a serviço da gestão do combustível

A digitalização das operações tem ampliado o uso de telemetria, monitoramento remoto e inteligência artificial para gestão do consumo. Além de acompanhar abastecimentos, as plataformas conseguem cruzar dados operacionais e financeiros, identificar tendências de desperdício e comparar o desempenho de veículos, rotas e condutores.

O tema também ganha relevância diante dos investimentos realizados pelas transportadoras na renovação de frota. Embora caminhões mais modernos ofereçam ganhos expressivos de eficiência energética, especialistas destacam que parte desse potencial pode ser perdida sem ferramentas adequadas de monitoramento e gestão.

“Hoje, eficiência no consumo influencia diretamente competitividade, precificação de frete e capacidade de expansão da operação”, afirma Flávio Henrique Fonseca de Andrade.

A capacidade de monitorar o consumo de combustível com precisão passou a influenciar diretamente a rentabilidade das operações. Em muitas transportadoras, ganhos de eficiência obtidos na gestão do diesel já têm impacto semelhante ao de investimentos em frota, tecnologia e expansão operacional.

Fique por dentro de todas as novidades do setor de transporte de carga e logística:
Siga o canal da Transporte Moderno no WhatsApp
Acompanhe nossas redes sociais: LinkedInInstagram e Facebook
Inscreva-se no canal do Videocast Transporte Moderno

Veja também

CEO
Marcelo Fontana
[email protected]
Editora
Aline Feltrin
[email protected]
/aline-feltrin
Repórter
Valéria Bursztein
[email protected]
/valeria-bursztein
Executivo de contas
Tânia Nascimento
[email protected]
Raul Urrutia
[email protected]
Publicidade
Karoline Jones
[email protected]
Financeiro
Vidal Rodrigues
[email protected]

Newsletter O que move o mercado, primeiro para você

Receba as principais notícias, análises e tendências do transporte moderno diretamente no seu e-mail e acompanhe atualizações em tempo real pelo nosso canal oficial.