As quadrilhas reduziram o número de roubos de carga em São Paulo, mas passaram a atuar de forma mais seletiva e lucrativa. Embora as ocorrências tenham caído 25% entre 2024 e 2025, o prejuízo médio por evento aumentou 19,6%, enquanto a participação de roubos envolvendo cargas acima de R$ 1 milhão mais que dobrou no período, segundo levantamento inédito do Boletim Tracker Fecap.
O estudo indica uma mudança no perfil do crime, que passou a priorizar mercadorias de maior valor agregado e alta liquidez, como alimentos, medicamentos, eletrônicos e combustíveis. O total de ocorrências caiu de 5.523 registros em 2024 para 4.142 em 2025. No primeiro trimestre de 2026, a tendência de retração se manteve, com volume 30,2% inferior à média observada no mesmo período do ano anterior.
O cenário é de forte concentração dos roubos de carga na Região Sudeste. Dados da Nstech mostram que a região respondeu por 78,2% das ocorrências registradas no Brasil no primeiro trimestre de 2026, ante 61% no mesmo período do ano anterior, reforçando a pressão sobre os principais corredores logísticos do país.
Apesar da redução dos casos, o valor total estimado das cargas roubadas recuou apenas 9,1%, passando de R$ 405,1 milhões para R$ 368,1 milhões. Com isso, o prejuízo médio por ocorrência saltou de R$ 89,9 mil para R$ 107,5 mil.
Segundo Erivaldo Vieira, pesquisador da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap) responsável pelo estudo, a mudança revela uma nova lógica econômica do crime. “Esse movimento indica uma migração para cargas de maior valor e operações mais seletivas, combinando menor frequência com maior retorno financeiro. A participação de ocorrências acima de R$ 1 milhão mais que dobrou no período”, afirma Vieira.
Alvos mudam de perfil
Os alimentos consolidaram-se como principal alvo das quadrilhas, respondendo por 38,4% dos casos registrados no primeiro trimestre de 2026, ante 27,3% em 2024. Também avançaram as ocorrências envolvendo produtos eletroeletrônicos, farmacêuticos e combustíveis.
Segundo Vieira, a preferência por alimentos está relacionada à alta liquidez e à facilidade de comercialização no mercado informal. Já o crescimento dos roubos de medicamentos acompanha a expansão da demanda por produtos de elevado valor agregado e fácil transporte. Em contrapartida, cargas historicamente visadas, como cigarros, bebidas, madeira e produtos químicos, perderam participação no período analisado.
Crime mais planejado
O estudo também aponta uma mudança na forma de atuação das quadrilhas. As interceptações de veículos em movimento passaram de 27,3% das ocorrências em 2024 para 30,5% no primeiro trimestre de 2026, enquanto as abordagens durante entregas perderam participação.
Para Vitor Corrêa, gerente de Comando e Monitoramento do Grupo Tracker, o dado demonstra um planejamento mais sofisticado por parte dos criminosos.
“Esse dado indica uma atuação mais estratégica, com foco no transporte, etapa em que há maior previsibilidade de rotas e volumes, e menor dependência de situações oportunistas”, afirma.
Outro indicador que preocupa o setor é a retenção dos motoristas. Em quase 80% dos roubos registrados em 2025 e 2026, os condutores foram mantidos sob o poder dos criminosos durante a ação.
Demanda por gestão de risco
A mudança no perfil dos roubos tende a ampliar os investimentos em gerenciamento de risco por parte de transportadores, embarcadores e seguradoras. Com cargas mais valiosas na mira das quadrilhas, cresce a importância de tecnologias de rastreamento, monitoramento em tempo real, inteligência operacional e protocolos de segurança voltados à proteção de motoristas e mercadorias.
Para Corrêa, a combinação entre tecnologia, inteligência e gestão de risco será determinante para enfrentar um crime cada vez mais adaptável e especializado. “A combinação de tecnologia, inteligência e gestão de risco passa a ser determinante para reduzir perdas, aumentar a eficiência operacional e proteger motoristas, cargas e operações”, conclui.
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