GNV avança, mas ainda não fecha a conta no transporte

West Cargo avalia que custos elevados e rede limitada de abastecimento retardam a adoção em larga escala

Valeria Bursztein

A descarbonização do transporte rodoviário de cargas ainda esbarra em obstáculos econômicos e operacionais que dificultam a adoção em larga escala de combustíveis alternativos no Brasil. A avaliação é da West Cargo, transportadora especializada em operações ligadas ao comércio exterior, que iniciou testes com caminhões movidos a gás natural veicular (GNV). Mesmo com resultados positivos, a avaliação da empresa considera que o cenário atual ainda limita a expansão dessa tecnologia.

Segundo Luigi Rosolen, diretor da West Cargo, embora o GNV apresente custo operacional inferior ao diesel em determinadas operações, fatores como o elevado investimento necessário para aquisição dos veículos e a infraestrutura restrita de abastecimento fora dos grandes centros urbanos continuam sendo entraves para a ampliação da frota.

“O custo por quilômetro rodado é inferior ao do diesel, mas a aceleração dessa transição energética depende significativamente de fatores externos”, afirma o executivo.

A posição reflete um desafio enfrentado por boa parte do setor de transporte rodoviário. Enquanto embarcadores, transportadoras e fabricantes buscam alternativas para reduzir emissões e atender metas ambientais cada vez mais rigorosas, tecnologias como GNV, biometano, eletrificação, HVO e diesel renovável ainda enfrentam barreiras relacionadas a custos, disponibilidade de infraestrutura e viabilidade operacional em rotas de longa distância.

Eficiência operacional ganha espaço na agenda ambiental

O executivo avalia que os maiores ganhos ambientais no curto prazo continuam associados à modernização da frota e ao aumento da eficiência operacional dos veículos movidos a diesel. “Hoje, o caminho mais viável para o transportador rodoviário são os programas de eficiência na condução e o uso de motores a diesel de baixa emissão”, analisa Rosolen.

A empresa opera com frota 100% própria, composta por aproximadamente 300 veículos, com idade média de quatro anos. Nos últimos anos, a companhia acelerou a renovação dos equipamentos e ampliou a utilização de caminhões equipados com motorização Euro 6, tecnologia que reduz significativamente as emissões de poluentes em comparação às gerações anteriores.

Além da renovação da frota, a estratégia de redução de emissões inclui programas de condução econômica baseados em telemetria e monitoramento do desempenho dos veículos. Os motoristas recebem remuneração variável vinculada à eficiência operacional alcançada durante as viagens. De acordo com a empresa, a iniciativa gera uma economia estimada de aproximadamente 210 mil toneladas de CO₂ por ano.

Previsibilidade das operações

A digitalização dos processos também passou a desempenhar papel relevante na estratégia operacional da transportadora. Segundo a companhia, a adoção de sistemas eletrônicos para atividades como checklists, manutenção, abastecimento e controle operacional reduziu em 95% o volume de impressões em papel entre 2023 e 2024.

A empresa também amplia investimentos em monitoramento e análise de dados gerados pelos veículos. Segundo Rosolen, essas informações permitem aumentar a previsibilidade das operações, reduzir riscos e elevar os níveis de segurança tanto para os motoristas quanto para as cargas transportadas.

O uso de telemetria e gestão baseada em dados tem ganhado espaço no transporte rodoviário à medida que as transportadoras buscam reduzir custos operacionais, aumentar disponibilidade da frota e melhorar indicadores de segurança.

Escassez de motoristas: novas estratégias

Outro desafio apontado pela empresa é a falta de motoristas profissionais, problema que vem sendo relatado por transportadoras de diferentes segmentos do mercado. Para aumentar a retenção de profissionais, a West Cargo adotou jornadas mais equilibradas, remuneração acima da média do setor e programas permanentes de capacitação. Em 2025, foram registradas mais de 10,6 mil horas de treinamento, alta de 164% em relação ao ano anterior.

A companhia também iniciou um programa voltado à formação de novos profissionais, oferecendo treinamento gratuito para filhos de colaboradores interessados em ingressar na carreira de motorista.

A iniciativa busca criar uma nova geração de profissionais em um mercado que enfrenta envelhecimento da força de trabalho e crescente dificuldade para reposição de mão de obra qualificada.

Renovação da frota

Os dados fazem parte do primeiro Relatório ESG da West Cargo, que reúne investimentos e indicadores relacionados às áreas ambiental, social e de governança desenvolvidos entre 2024 e 2025.

Para os próximos anos, a estratégia da transportadora prevê a continuidade da expansão da frota e o aumento dos investimentos em tecnologias voltadas à segurança operacional, análise de dados e redução do impacto ambiental das operações.

O diretor da West Cargo considera que a combinação entre renovação da frota, digitalização e eficiência operacional continuará sendo o principal caminho para elevar a competitividade da empresa enquanto a transição energética do transporte rodoviário avança em ritmo mais lento do que o esperado por parte do mercado.

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