A entrada em vigor das atualizações da NR-1 colocou o transporte rodoviário de cargas diante de uma transformação que tende a ir além da área trabalhista e atingir diretamente a operação logística das empresas.
Historicamente focado em gerenciar risco da carga, roubo, acidentes e segurança viária, o setor agora passa a ser pressionado a mapear também o impacto humano da operação. Pressão por prazo, excesso de jornada, fadiga, assédio, desgaste emocional, conflitos organizacionais e ambiente de trabalho passam a integrar oficialmente o gerenciamento de riscos ocupacionais das transportadoras.
A NR-1 é a norma regulamentadora que estabelece as diretrizes gerais de saúde e segurança do trabalho no Brasil. A atualização que entrou em vigor neste ano ampliou o alcance do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) e passou a exigir que empresas identifiquem, monitorem e adotem medidas preventivas também para riscos psicossociais relacionados ao trabalho, como assédio, sobrecarga, pressão excessiva, fadiga e adoecimento emocional.
O tema dominou a live “Muito além da Norma: NR-1 na prática”, promovida pelo Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região – Setcesp nesta terça-feira (27), reunindo especialistas em saúde ocupacional, jurídico, cultura organizacional e gestão de pessoas para discutir os impactos da norma sobre o transporte de cargas.
A mudança ocorre em um momento de crescimento acelerado dos afastamentos ligados à saúde mental no Brasil. Dados da Previdência Social mostram que, em 2025, foram concedidos mais de 546 mil benefícios por transtornos mentais e comportamentais no País, com alta de 15,6% em relação ao ano anterior. Os custos desses afastamentos ultrapassaram R$ 950 milhões no período.
No transporte rodoviário, especialistas avaliam que fatores historicamente associados à operação — como pressão por prazo, jornadas extensas, insegurança nas estradas, cobrança operacional constante e longas esperas em centros de distribuição — tendem a ganhar maior atenção das áreas de RH, jurídico e segurança do trabalho.
Fiscalização já pode autuar empresas
Segundo Caroline Duarte, coordenadora jurídica do Setcesp, a fiscalização relacionada às mudanças da NR-1 já pode ser aplicada integralmente. Ela explicou que os riscos psicossociais passam agora a integrar obrigatoriamente o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) e o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), exigindo identificação, avaliação, monitoramento e ações preventivas documentadas.
Entre os fatores que passam a exigir controle formal estão sobrecarga de trabalho, intensidade excessiva das atividades, ausência de autonomia, conflitos interpessoais, assédio, violência no ambiente de trabalho, exigências cognitivas elevadas e exposição a situações traumáticas.
“O gerenciamento de riscos ocupacionais não se resume à elaboração de um material formal. Não basta só ter documentos”, afirmou Caroline. Segundo a especialista, empresas que não incorporarem os riscos psicossociais ao PGR poderão sofrer autuações, especialmente quando houver ausência de critérios técnicos de avaliação, inexistência de plano de ação ou falta de evidências de monitoramento das medidas adotadas.
Ela ressaltou ainda que a adequação exigirá integração entre RH, jurídico, segurança do trabalho, lideranças operacionais e alta administração.
Pressão operacional no centro da discussão
Para especialistas que participaram da live, o principal impacto da NR-1 sobre o transporte está justamente na forma como o trabalho é organizado dentro das operações logísticas. O psicólogo organizacional Micael Vital afirmou que muitos riscos psicossociais nascem da própria estrutura operacional das empresas. “Os riscos nascem na rotina, na pressão constante, no excesso de jornada, metas incompatíveis, comunicação agressiva e ausência de escuta”, afirmou.
Segundo ele, o setor ainda convive com práticas historicamente naturalizadas, como tratamento ríspido, pressão excessiva e comunicação agressiva nas operações. “A gente escuta com frequência um colaborador novo chegando na empresa e ouvindo: ‘vai se acostumando, aqui é assim mesmo’”, disse o especialista ao abordar problemas de cultura organizacional no transporte.
Na avaliação dele, a nova NR-1 tende a forçar uma revisão mais profunda dessas práticas. “A liderança pode ser guardiã dessa cultura ou reforçar ainda mais o adoecimento”, afirmou.
A discussão também expôs um problema estrutural do transporte rodoviário: o desgaste emocional acumulado da profissão de motorista. Vital disse que o setor ainda convive com condições que ampliam o adoecimento físico e mental dos profissionais da operação, incluindo insegurança nas estradas, isolamento, pressão por entrega, trânsito estressante, esperas prolongadas em centros de distribuição e distância constante da família.
Segundo ele, o cenário ajuda inclusive a explicar a dificuldade crescente do setor em atrair novos motoristas profissionais. “Percebemos que esse sonho diminuiu, muito porque muitos cresceram vendo pais e parentes que trabalham na área sendo desrespeitados, marginalizados e sofrendo nas estradas”, afirmou.
O tema ganha relevância frente à crescente dificuldade para contratar e reter motoristas, especialmente em operações de longa distância. Fadiga, privação de sono e pressão operacional também foram relacionadas ao aumento do risco de acidentes rodoviários, tema que tende a ganhar ainda mais atenção com a ampliação do escopo da NR-1.
Espera em CDs e pressão em tempo real
A live também trouxe discussões sobre fatores operacionais frequentemente ignorados na rotina logística, como longas esperas em centros de distribuição e pressão contínua por produtividade. Os participantes destacaram que muitos motoristas passam horas aguardando carregamento e descarregamento, frequentemente sem estrutura adequada de descanso, alimentação ou suporte operacional.
Outro ponto citado foi o aumento da pressão em tempo real sobre os profissionais da operação, impulsionado pelo avanço de tecnologias de rastreamento, telemetria e monitoramento contínuo das viagens. A avaliação é que a NR-1 tende a ampliar o debate sobre o limite entre controle operacional, produtividade e desgaste psicológico dos trabalhadores.
“Não basta palestra motivacional”
Durante a live, a psicóloga Valéria Gonçalves afirmou que um dos maiores erros das empresas é tratar a adequação à NR-1 como simples preenchimento de formulários ou produção de documentos formais. Segundo ela, o processo exige observação real do ambiente de trabalho, análise da rotina operacional e diferenciação dos riscos enfrentados por áreas administrativas, operação logística e motoristas.
A especialista alertou ainda para o risco de avaliações superficiais ou diagnósticos genéricos, que podem comprometer a efetividade das ações e aumentar a exposição jurídica das empresas.
Outro ponto destacado durante o encontro foi o risco de empresas tratarem a adequação à NR-1 apenas como formalidade documental ou ação superficial de RH. Campanhas internas isoladas parecem não ter efeito positivo sobre os problemas estruturais ligados à organização do trabalho. “Fazer apenas palestras vai resolver? Precisaremos rever essa dinâmica e esse fluxo de trabalho”, afirmou Vital ao comentar situações de sobrecarga operacional e assédio.
Durante a live, os participantes defenderam que o gerenciamento dos riscos psicossociais exigirá ações permanentes de escuta, revisão operacional, treinamento de lideranças e monitoramento contínuo dos ambientes de trabalho.
A implementação da NR-1 também tende a ampliar os desafios para pequenas e médias transportadoras, que frequentemente possuem estruturas mais enxutas de RH, segurança do trabalho e apoio psicológico. Na live, o consenso foi que muitas empresas demonstram insegurança sobre como medir riscos psicossociais, estruturar indicadores e implementar ações preventivas consistentes, sem saber exatamente como cumprir as novas exigências da norma.
Da obrigação legal ao impacto operacional
A live também trouxe exemplos práticos de implementação da norma dentro das transportadoras. Alda Akemi, gestora de RH da ANR Logística, disse que a empresa alcançou cerca de 80% de adesão dos colaboradores no processo de diagnóstico psicossocial após um trabalho prévio de alinhamento com gestores e comunicação interna voltada à criação de confiança e confidencialidade no processo.
Já Caio Carelli, executivo de RH da Bros Logística, destacou durante o encontro a importância de integrar tecnologia, gestão e cultura organizacional para transformar as exigências da NR-1 em ações efetivas dentro das operações logísticas.
O debate evidenciou que o impacto da NR-1 tende a ir além do campo jurídico e trabalhista, atingindo diretamente produtividade, retenção de profissionais e eficiência operacional.
No transporte rodoviário de cargas, a avaliação é que a nova fase da NR-1 representa uma mudança importante de mentalidade. O setor, historicamente focado na gestão do risco operacional da carga e da frota, agora passa a ser pressionado a olhar também para o impacto humano da logística.
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