Crédito para caminhões fica mais seletivo, apesar de alta de 15,9% nas vendas financiadas em julho

Inadimplência de empresas acima de 7% reduz apetite dos bancos, eleva exigência de entrada e dificulta acesso de caminhoneiros autônomos; programa Move Brasil antecipou a renovação das grandes frotas

Aline Feltrin

O mercado de caminhões iniciou o segundo semestre com forte avanço nas vendas financiadas, mas o desempenho não significa uma melhora generalizada nas condições de crédito. Dados preliminares da Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (Anef) apontam crescimento de 15,9% no volume de veículos pesados novos comercializados em julho, na comparação com junho. O resultado ocorre em meio aos efeitos do programa federal Move Brasil Caminhões, mas as condições para obtenção de financiamento permanecem restritivas.

Segundo Enilson Sales, presidente da Anef, a taxa de juros para o financiamento de veículos pesados ficou em torno de 1,5% a 1,9% ao mês, podendo chegar a aproximadamente 1,96% ou 1,97%, dependendo do perfil do tomador, do veículo e do prazo da operação. Esses valores, segundo ele, representam as condições de mercado sem considerar os incentivos do Move Brasil.

Sales ressalva, porém, que os dados de julho ainda não permitem medir com precisão a evolução das concessões de crédito. As estatísticas consolidadas de crédito são divulgadas posteriormente pela B3 e pelo Banco Central. Em junho, as concessões haviam crescido cerca de 5,8% a 5,9%, ritmo inferior ao avanço das vendas de pesados registrado em julho.

“A gente ainda não tem os dados de fechamento de crédito, portanto não consegue dizer exatamente qual foi o crescimento das concessões”, afirma Sales à Agência Transporte Moderno.

Inadimplência pesa mais que Selic

Na avaliação do presidente da Anef, o principal obstáculo à expansão do crédito para caminhões hoje não é apenas o nível elevado da taxa Selic, mas a deterioração da qualidade das carteiras de crédito corporativo.

O índice de inadimplência de pessoas jurídicas no segmento de caminhões, segundo Sales, supera 7%, o que leva as instituições financeiras a adotar uma postura mais conservadora. O resultado é a combinação de maior exigência de entrada, critérios de score mais rigorosos e redução dos prazos oferecidos.

“A Selic elevada realmente restringe um pouco o crédito, mas o que restringe praticamente o crédito são os altos índices de inadimplência”, diz.

O cenário também é influenciado pelo aumento do endividamento das empresas e pelo crescimento dos pedidos de recuperação judicial. Para os bancos, uma carteira com maior nível de inadimplência reduz o apetite para novas operações, uma vez que aumenta o risco de conceder recursos a empresas com menor capacidade de pagamento.

Esse ambiente ajuda a explicar uma aparente contradição do mercado: as vendas de caminhões avançaram com força em julho, mas isso não significa que o crédito tenha se tornado mais abundante. Parte importante do movimento está relacionada aos recursos subsidiados do programa federal e à demanda de empresas com maior capacidade financeira.

Grandes frotas saem na frente

O acesso ao financiamento também está cada vez mais concentrado entre as grandes transportadoras. De acordo com Sales, essas empresas possuem maior capacidade de comprovar renda, contratos e fluxo de caixa, além de oferecerem maior lastro para as instituições financeiras.

A situação é mais difícil para o caminhoneiro autônomo. A renda desse profissional é considerada mais volátil porque depende do volume e da regularidade dos fretes. Além disso, o próprio caminhão é o principal instrumento de geração de receita — e uma quebra ou acidente pode comprometer imediatamente a capacidade de pagamento das parcelas.

“Não é um desejo de não oferta de crédito. É simplesmente um cuidado de para quem você vai ofertar o crédito e qual a capacidade de quem toma o crédito honrar os seus pagamentos”, afirma Sales.

O problema se torna ainda mais evidente na análise da documentação. Muitos autônomos têm dificuldade para apresentar histórico formal de renda, contratos regulares de prestação de serviços ou vínculos com transportadoras que permitam aos bancos avaliar a estabilidade da receita.

Move Brasil acelera renovação das frotas

O programa Move Brasil Caminhões alterou esse quadro ao criar uma fonte de financiamento com condições mais favoráveis e, segundo a Anef, ajudou a antecipar decisões de compra.

Sales afirma que os recursos destinados às grandes frotas foram integralmente consumidos tanto na primeira quanto na segunda fase do programa. O espaço remanescente estaria principalmente na parcela destinada aos caminhoneiros autônomos, justamente o segmento que encontra mais dificuldade para cumprir as exigências de crédito.

“O Move Brasil movimentou e antecipou compras e antecipou a reposição de frota dos grandes frotistas”, afirma.

A concentração dos recursos nas grandes transportadoras ajuda a explicar por que o programa teve impacto relevante sobre as vendas de caminhões mesmo em um ambiente de juros elevados e crédito bancário mais seletivo.

Alta de 15,9% ocorre em mercado ainda aquecido

O relatório preliminar da Anef mostra que o avanço dos veículos pesados faz parte de um movimento mais amplo do mercado automotivo. Entre junho e julho, as vendas de veículos novos cresceram 3,3%, enquanto as de seminovos e usados avançaram 10,7%.

No acumulado de janeiro a julho, os modelos 0 km registraram alta de 10,2%, enquanto os usados cresceram 7,7%. Nos veículos pesados novos, o crescimento de 15,9% em julho foi um dos destaques do levantamento. Entre os pesados usados, a alta foi de 12,4%, puxada especialmente pelo Nordeste, onde o crescimento chegou a 24,5%.

A leitura dos números de julho, portanto, aponta para um mercado de caminhões que segue demandante, mas com uma diferença importante em relação a ciclos anteriores: a disponibilidade de crédito passou a depender ainda mais da qualidade do tomador e da fonte de financiamento.

A Anef informa que os dados consolidados de julho, incluindo informações sobre concessões de crédito, taxas e inadimplência, serão divulgados no início de setembro. Esses números deverão permitir uma avaliação mais precisa sobre quanto do crescimento das vendas de caminhões veio efetivamente de novas concessões de crédito e quanto foi sustentado pelos recursos do Move Brasil.

Fique por dentro de todas as novidades do setor de transporte de carga e logística:
Siga o canal da Transporte Moderno no WhatsApp
Acompanhe nossas redes sociais: LinkedInInstagram e Facebook
Inscreva-se no canal do Videocast Transporte Moderno

Veja também

CEO
Marcelo Fontana
[email protected]
Editora
Aline Feltrin
[email protected]
/aline-feltrin
Repórter
Valéria Bursztein
[email protected]
/valeria-bursztein
Executivo de contas
Tânia Nascimento
[email protected]
Raul Urrutia
[email protected]
Financeiro
Vidal Rodrigues
[email protected]
Eventos corporativos / Marketing
Barbara Ghelen
[email protected]
Publicidade
Karoline Jones
[email protected]
Representante região Sul (PR/RS/SC)
Gilberto A. Paulin
+55 (41) 3029-0563
João Batista A. Silva
[email protected]

Aviso de reprodução Este conteúdo pode ser compartilhado com responsabilidade

Este conteúdo pode ser reproduzido, desde que seja citada a fonte com link: Agência Transporte Moderno. Respeitar a autoria e indicar a origem da informação contribui para fortalecer o bom jornalismo e a produção de conteúdo confiável.