Do Porto de Santos (SP)
A transição energética do transporte pesado brasileiro começa a ganhar escala. Nesse contexto, a Copersucar quer colocar o setor sucroenergético no centro dessa transformação. A companhia já opera cerca de 70 caminhões movidos a biometano no transporte de açúcar e etanol e trabalha com a meta de substituir gradualmente praticamente toda a frota rodoviária utilizada na operação logística nos próximos anos. O movimento pode impulsionar uma nova corrida entre montadoras, fabricantes de motores, operadores logísticos e trasnportadoras.
Hoje, aproximadamente 40% de todo o volume de açúcar da companhia destinado à exportação é transportado por caminhões. Os outros 60% seguem por ferrovia nas rotas de longa distância. Dentro desse universo rodoviário, os caminhões movidos a biometano já respondem por cerca de 14% da frota rodoviária da operação, estimada em aproximadamente 500 caminhões utilizados na movimentação de açúcar e etanol.
“Nosso desejo é que 100% do transporte rodoviário seja feito com caminhões movidos a biometano”, afirmou o CEO da companhia, Tomás Manzano, durante apresentação do projeto BioRota nesta quarta-feira (13), no Porto de Santos, onde a empresa mantém seu terminal de cargas. O projeto começou oficialmente em abril de 2024 e foi estruturado inicialmente em parceria com a ReiterLog, que se tornou a principal operadora da iniciativa.
Dos cerca de 70 caminhões atualmente envolvidos na operação ,65 pertencem à ReiterLog. Os demais veículos estão distribuídos entre Transvale, Rodomacro, JR e Aguetoni. Segundo a companhia, a Aguetoni já está em processo de aquisição de mais cinco caminhões movidos a biometano para ampliar a operação nos próximos dias.
Inicialmente, a estratégia foi concentrar o projeto em poucos parceiros para facilitar os testes, o monitoramento operacional e a coleta de dados. Agora, porém, o sistema foi aberto para qualquer transportadora que já opere com a companhia.
Atualmente, a Copersucar trabalha com cerca de 20 transportadoras fixas e um universo aproximado de 40 operadores logísticos. “O projeto agora está aberto para qualquer transportador que já opere conosco com caminhão a diesel fazer aquisição do caminhão a gás e operar com biometano”, afirmou o CEO.
O modelo adotado evita que a Copersucar precise investir diretamente nos caminhões. A companhia fornece a carga e o combustível, enquanto as transportadoras entram com os ativos. “Quem investe no caminhão é a transportadora. Nós temos a carga e o biometano. Contratamos o frete para o transportador colocar o ativo para mover o açúcar e o etanol.”
Diesel caro fortalece o biometano
Além da pressão ambiental, o avanço do biometano começa a ganhar força por razões econômicas. Segundo a companhia, o custo operacional dos caminhões abastecidos com biometano já é entre 20% e 25% menor do que o dos modelos movidos a diesel. “O diesel tem subido bastante de preço, e o Brasil ainda depende da importação de cerca de 20% a 25% do combustível consumido no país.”
Na avaliação de Manzano, essa diferença já é suficiente para compensar o maior custo de aquisição do caminhão a gás. “Essa diferença do combustível é suficiente para remunerar o investimento do ativo mais caro.”
O modelo também oferece mais previsibilidade às transportadoras. Como o investimento inicial do caminhão a gás é mais elevado, os contratos de frete tendem a ser mais longos do que os acordos tradicionais do mercado rodoviário. “Quando o transportador faz um investimento maior num caminhão a gás, ele pode ter contratos de dois, três ou cinco anos”, explicou o CEO da Copersucar.
Outro fator que começa a impulsionar o setor são as linhas de financiamento ligadas à transição energética. Segundo a empresa, programas do BNDES e do Fundo Clima já começam a apoiar investimentos em caminhões, infraestrutura e plantas de biometano.
Corrida entre montadoras ganha força
O avanço do projeto também começa a acelerar a disputa entre montadoras no segmento de caminhões movidos a gás. Hoje, a Scania lidera o mercado brasileiro de caminhões pesados a gás e é a única fornecedora da operação BioRota. Os modelos atuais de até 460 cavalos já atendem as operações rodoviárias de transporte de açúcar.
Mas novos concorrentes começam a entrar no jogo. A MWM tem um projeto de transformação de caminhões DAF a diesel para operação com biometano. A iniciativa envolve plataforma, motor e integração operacional desenvolvidos especificamente para a aplicação.
A chinesa JAC Motors também entrou na disputa pelo mercado brasileiro de caminhões movidos a gás, por meio da Green Cargo. A fabricante está utilizando a operação da Copersucar para validar seu caminhão a gás Q7. Segundo a montadora, um dos modelos já realizou operações de transporte de açúcar entre Paraguaçu Paulista e o Porto de Santos em parceria com a Transvali. Outro veículo iniciou testes nas operações da Cocal.

Atualmente, a JAC possui nove caminhões em testes no Brasil em operações realizadas com empresas como Suzano, Eldorado Brasil, Loga, Transvali e EcoUrbis. A montadora também confirmou a primeira venda comercial de caminhões movidos a gás no Brasil, em um lote de 25 unidades, embora ainda sem divulgar o cliente.
O gargalo agora é o biometano
Se antes o desafio era a oferta de caminhões, agora o gargalo começa a migrar para a produção de biometano e para a infraestrutura de abastecimento. Atualmente, a Cocal já opera duas plantas de biometano o interior de São Paulo — em Paraguaçu Paulista e Narandiba — que abastecem parte da operação logística da companhia.
Segundo a Copersucar, outras duas usinas do sistema já possuem projetos avançados e devem iniciar construção entre o fim de 2026 e 2027. A expectativa da companhia é desenvolver entre cinco e sete novos projetos por ano dentro do universo de 42 usinas ligadas ao sistema Copersucar. Cada planta exige investimentos entre R$ 300 milhões e R$ 350 milhões. “O biometano é uma evolução natural da indústria sucroenergética. A vinhaça já está lá. É só uma questão de tempo para as usinas passarem a produzir”, afirmou o CEO.
O combustível é produzido a partir da vinhaça e da chamada torta de filtro — dois resíduos gerados no processamento da cana-de-açúcar para produção de açúcar e etanol. A vinhaça é um resíduo líquido resultante da destilação do etanol, enquanto a torta de filtro é um material orgânico sólido obtido na etapa de filtragem e clarificação do caldo da cana. Ambos podem ser utilizados na produção de biogás e, posteriormente, transformados em biometano.”
Próxima fronteira: operação agrícola
Apesar do avanço no transporte rodoviário, a aplicação do biometano dentro das operações agrícolas ainda enfrenta limitações técnicas. Hoje, os caminhões disponíveis no mercado brasileiro possuem potência de até 460 cavalos, suficiente para o transporte rodoviário de açúcar e etanol. Mas o transporte de cana nas usinas exige veículos acima de 560 cavalos, com configuração 4×4 e capacidade para operar em estradas de terra.
Segundo a companhia, montadoras e fabricantes de motores já trabalham em soluções desse porte, que devem chegar ao mercado entre o fim deste ano e 2027. A própria Copersucar já realiza testes com veículos off-road movidos a biometano nas operações agrícolas. A Cocal, por exemplo, já substitui cerca de 15% do diesel consumido internamente por biometano em aplicações de menor potência.
Outro ponto central para a expansão do mercado será a infraestrutura de abastecimento. Hoje, os caminhões operam com autonomia média próxima de 600 quilômetros. Para rotas mais longas, será necessário ampliar a rede de postos. Segundo a companhia, os próprios polos produtores de biometano funcionarão como hubs de abastecimento. Parte da distribuição também poderá utilizar postos de GNV já existentes no país. A operação envolve ainda caminhões específicos para transporte do gás comprimido entre usinas e postos de abastecimento.
“Não enxergamos os postos como um limitador estrutural. À medida que houver mais caminhões e mais carga, os investimentos vão acontecer”, afirmou Manzano. Dentro do projeto, a ReiterLog já implantou um ponto de abastecimento em Barueri para atender os veículos da operação.
Maior operação do mundo
A companhia afirma não conhecer atualmente nenhuma operação logística de transporte de commodities com caminhões movidos a biometano em escala semelhante à do projeto BioRota. Existem iniciativas na Europa e na China, mas a avaliação da empresa é que a dimensão da operação brasileira torna o projeto único no mundo.
Em dois anos, a iniciativa de descarbonização da Copersucar realizou mais de 13 mil viagens, percorreu 11 milhões de quilômetros, transportou 600 mil toneladas de açúcar, substituiu 5 milhões de litros de diesel e evitou a emissão de 8 mil toneladas de CO₂. “Se o plano avançar no ritmo esperado, o biometano poderá deixar de ser apenas uma aposta ambiental para se transformar em uma das maiores mudanças estruturais da logística pesada brasileira nas próximas décadas”, finaliza Tomás Manzo.
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