“Nossa estratégia é gerar empregos”, diz CEO da Mercedes sobre concorrência chinesa

Denis Güven afirma que a nova fábrica na Argentina ajudará a ampliar exportações e sustentar produção regional da Daimler Truck

Aline Feltrin

De Zárate, Argentina

A Mercedes-Benz quer transformar Brasil e Argentina em uma plataforma regional de produção e exportação de veículos comerciais em meio ao avanço das montadoras chinesas na América Latina. A estratégia da Daimler Truck prevê ampliar a integração industrial entre os dois países, elevar a escala produtiva e expandir exportações para mercados como África, Oriente Médio e outros países latino-americanos. O movimento foi detalhado por Denis Güven, presidente da Mercedes-Benz do Brasil e CEO para a América Latina, durante a inauguração do novo centro industrial da companhia em Zárate, na Argentina, na última sexta-feira, 8 de maio.

Com investimento de US$ 110 milhões, a nova fábrica argentina nasce em um momento de aumento da concorrência asiática no setor de caminhões, especialmente em segmentos de entrada e em tecnologias alternativas, como eletrificação. Segundo Güven, a resposta da Daimler Truck para esse cenário passa por ampliar integração regional, aumentar exportações e fortalecer a produção local.

“Outros competidores estão tentando dividir o mercado. Nossa estratégia é diferente. Queremos criar empregos no Brasil e na Argentina aumentando exportações”, afirmou o executivo, em referência indireta ao avanço das marcas chinesas na região. A avaliação ocorre em um momento em que fabricantes chinesas ampliam presença na América Latina com preços mais agressivos, expansão de portfólio e investimentos industriais locais, pressionando as montadoras tradicionais.

Já considerando o cenário atual do mercado brasileiro em 2026 — incluindo elétricos e operações comerciais recentes — o número de fabricantes chinesas presentes ou em entrada ativa no Brasil chega a pelo menos seis: Foton, BYD, XCMG, Sany JAC, Farizon e Sinotruk.

Brasil ganha papel estratégico

Na visão da companhia, o Brasil deve assumir papel cada vez mais relevante dentro da estratégia global da Daimler Truck justamente pela capacidade de desenvolver caminhões adaptados a condições severas de operação. “Os caminhões brasileiros precisam de muita qualidade e durabilidade. São algumas das condições mais difíceis do mundo. Isso cria produtos que também podem atender outros mercados”, disse Güven.

A estratégia prevê usar a operação brasileira como fornecedora da nova planta argentina, instalada em Zárate. O modelo industrial adotado é o CKD (completely knocked down), em que componentes chegam desmontados para montagem local. Cabines, motores, transmissões e outros conjuntos serão enviados principalmente da fábrica de São Bernardo do Campo (SP).

Segundo o executivo, o objetivo da integração é aumentar eficiência industrial e sustentar volumes de produção em um momento de desaceleração do mercado brasileiro de caminhões, pressionado pelos juros elevados e pela restrição ao crédito. “O movimento ajuda a estabilizar a demanda em um período em que as taxas de juros têm grande impacto negativo”, afirmou.

Apesar da integração, Güven descartou qualquer migração de produção do Brasil para a Argentina. “Enviar peças do Brasil para a Argentina, montar o caminhão e trazer de volta não faz sentido econômico”, disse.

Inicialmente, a unidade argentina atenderá o mercado local e exportará ônibus para o México. Mas a Mercedes-Benz já enxerga potencial para ampliar embarques para África, Oriente Médio e outros mercados latino-americanos. Segundo o executivo, a flexibilidade industrial da nova operação permitirá adaptar produtos para países com exigências semelhantes às da Argentina, especialmente mercados ainda sob padrão Euro 5.

A estratégia regional ganha importância em um momento em que as montadoras tradicionais tentam preservar competitividade global diante da pressão chinesa, que combina preços mais baixos, forte presença em veículos elétricos e rápida expansão internacional.

Gás ainda não entrou no radar

Questionado sobre possíveis investimentos em caminhões e ônibus movidos a gás, Güven afirmou que a estratégia global da Daimler Truck segue concentrada em redução de emissões via eletrificação e combustíveis sustentáveis.

Segundo ele, a companhia acompanha o aumento da demanda por veículos a gás em alguns países, impulsionado também pela busca de independência energética. “Hoje não temos essa solução disponível, mas seguimos monitorando a demanda. Se houver necessidade de investir nisso para os clientes, faremos”, afirmou. A posição contrasta com movimentos de concorrentes como Scania e Volvo, que vêm ampliando ofertas de caminhões a gás e biometano no mercado brasileiro.

A jornalista viajou a convite da Mercedes-Benz

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