O Mercado Livre reduziu de 95% para menos de 5% a participação dos Correios em suas entregas desde que começou a internalizar a operação logística. O movimento, que ganhou força a partir de 2019, levou a companhia a construir uma rede própria de armazenagem e distribuição que deverá chegar a 42 centros de distribuição Full no Brasil até o fim de 2026.
A transformação da operação foi apresentada por Luiz Augusto Vergueiro, diretor sênior de logística do Mercado Livre, durante o Fórum ILOS 2026, em São Paulo. Segundo o executivo, a mudança começou antes da criação da atual estrutura física e teve como ponto de partida a necessidade de dar previsibilidade às entregas realizadas pelo marketplace.
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O movimento não significou apenas substituir fornecedores de transporte. Ao longo desse processo, o Mercado Livre passou a assumir sucessivas etapas da cadeia, da coleta e consolidação das cargas à armazenagem, separação dos pedidos e distribuição. “Entramos em um processo de internalização da logística, passando a tocar no pacote”, explicou Vergueiro.
Os Correios continuam fazendo parte da operação e o Mercado Livre permanece como um grande cliente da estatal, ressaltou o executivo. O que mudou foi a participação da companhia nas diferentes etapas da movimentação das mercadorias, desde a coleta e armazenagem até a separação dos pedidos e a distribuição ao consumidor.

De intermediário a operador da cadeia
Antes da criação do Mercado Envios, em 2012, comprador e vendedor negociavam diretamente questões como valor do frete, prazo e local de entrega. Segundo Vergueiro, a falta de padronização reduzia a previsibilidade e prejudicava a experiência de compra.
O primeiro passo para mudar esse modelo foi a geração das etiquetas de postagem pelo Mercado Livre, com os vendedores encaminhando os pacotes pelos Correios. A partir daí, a companhia passou gradativamente a assumir novas etapas da cadeia.
Vieram as operações de cross-docking, com coleta dos produtos nos vendedores, passagem por centros de sorting e consolidação das cargas; depois, o fulfillment, no qual os produtos permanecem armazenados nos CDs do Mercado Livre antes mesmo da venda.
Nesse modelo, a companhia assume armazenagem, picking, embalagem e conexão dos pedidos com a malha de transporte. A rede passou ainda a incorporar modelos como o Flex, voltado a entregas entre vendedores e compradores localizados na mesma cidade, e os service centers, dedicados à etapa de última milha.
A escala alcançada pela operação aparece nos números apresentados por Vergueiro. Quando chegou ao Mercado Livre, em 2018, o executivo encontrou uma estrutura de aproximadamente 40 mil metros quadrados e um galpão que despachou 30 mil itens durante a Black Friday daquele ano.
Atualmente, são cerca de 27 centros de distribuição sob sua responsabilidade e uma estrutura de gestão direta que reúne 47 mil pessoas. Na Black Friday de 2025, os CDs de fulfillment despacharam aproximadamente 2,5 milhões de itens.
77% das entregas chegam em até 48 horas
A expansão da infraestrutura também encurtou a distância entre os estoques e os consumidores. Segundo dados apresentados por Vergueiro, a rede do Mercado Livre atende 99% dos municípios brasileiros e 77% das entregas são realizadas em até 48 horas. Em algumas modalidades, porém, os prazos já são medidos em horas: na capital paulista, o Envios Turbo permite entregas em até três horas, enquanto Full e Flex oferecem entregas no mesmo dia em localidades elegíveis.
“Hoje, o consumidor quer e busca entrega rápida, dentro do prazo que prometemos”, disse Vergueiro.
A dimensão da operação acompanha o crescimento do comércio eletrônico da companhia. Nos 12 meses encerrados no segundo trimestre de 2026, o Mercado Livre registrou 131 milhões de compradores únicos e 2,9 bilhões de itens vendidos.
Para Vergueiro, o mercado brasileiro ainda tem espaço relevante para avançar. Durante a apresentação, ele comparou a penetração do comércio eletrônico na América Latina com mercados mais maduros, como China e Estados Unidos, e relacionou o potencial de crescimento à necessidade de ampliar a infraestrutura logística.
Mercado Livre prevê 42 CDs Full em 2026
A expansão continuará neste ano. A companhia prevê chegar a 42 centros de distribuição Full até o fim de 2026, crescimento de 50% na comparação anual.
Os CDs Full são uma das peças centrais dessa estratégia porque permitem manter os produtos dos vendedores dentro da rede antes da realização da compra. Com o estoque posicionado mais próximo da demanda, o Mercado Livre consegue reduzir etapas após a venda e acelerar o despacho.
A estrutura física é complementada por uma malha que inclui fulfillment centers, centros de sorting, service centers, pontos de coleta e diferentes modalidades de transporte. A frota associada à rede chega a cerca de 2,9 mil veículos e nove aeronaves, de acordo com os dados apresentados no evento.
Automação entra na disputa por velocidade
O avanço da rede também vem acompanhado de automação dos centros de distribuição. Vergueiro apresentou duas aplicações de robôs já incorporadas à operação.
Uma delas reúne 125 unidades destinadas à consolidação de produtos e proporcionou redução de 25% no ciclo de processamento de pedidos com múltiplos itens. Outra utiliza 340 unidades em atividades de armazenagem e movimentação, com redução de 20% no tempo da operação e ganho de 15% em armazenagem.
A infraestrutura construída para atender o consumidor final agora também abre espaço para uma nova frente de crescimento. Na apresentação, o Mercado Livre apontou o B2B como uma das próximas fronteiras de expansão, apoiado justamente na rede logística desenvolvida ao longo dos últimos anos.
Enquanto mercados como China, Estados Unidos e Europa apresentam maior penetração do comércio eletrônico entre empresas, Brasil e América Latina ainda têm participação menor nesse segmento. A aposta da companhia é que ativos desenvolvidos para o B2C — como armazenagem, processos digitais, rastreabilidade e logística de ponta — possam sustentar também o avanço das transações entre empresas.
A trajetória mostra uma mudança de papel da logística dentro do negócio. O que começou como uma solução para reduzir a imprevisibilidade das entregas do marketplace tornou-se uma rede própria que combina armazenagem, transporte, tecnologia e automação — e passou a funcionar como uma das principais ferramentas do Mercado Livre para sustentar velocidade e escala.
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