Mercado de automação logística deve dobrar até 2032

Investimentos podem chegar a US$ 64 bilhões; redução de deslocamentos e custos impulsiona adoção nos centros de distribuição

Valeria Bursztein

O mercado mundial de automação aplicada à intralogística deve praticamente dobrar nos próximos seis anos, impulsionado pela busca por maior produtividade, redução de custos e menor dependência de mão de obra nas operações dos centros de distribuição.

A projeção baseada em estudos da consultoria LogisticsIQ apresentada pela Bertolini Sistemas de Armazenagem durante o Fórum ILOS 2026 aponta que os investimentos globais em tecnologias para automação intralogística devem passar de cerca de US$ 31 bilhões em 2026 para US$ 64 bilhões em 2032, crescimento médio estimado em 12% ao ano. Para a América Latina, a expectativa é de investimentos entre US$ 8 bilhões e US$ 12 bilhões no período.

Os dados foram apresentados por Valdeci Kossar, key account manager, e Marcelo Domene, coordenador de automação da Bertolini. Segundo os executivos, AGVs e AMRs, robôs utilizados na movimentação de materiais, estão entre as tecnologias com maior ritmo de crescimento e poderão responder por aproximadamente um quarto dos investimentos globais em automação intralogística em 2032.

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Mas o avanço dos investimentos não significa necessariamente que as operações caminhem para a robotização completa. Para os executivos da Bertolini, os maiores ganhos aparecem quando a tecnologia é aplicada diretamente sobre atividades que consomem tempo e custo sem gerar produtividade.

Em uma operação manual de picking, cerca de 50% do tempo do trabalhador pode ser gasto em deslocamentos dentro do centro de distribuição e outros 20% na procura pelos produtos que precisam ser separados. É justamente essa parcela da operação que tecnologias de automação tentam reduzir. “Não existe automação ruim. Existe automação mal dimensionada ou mal aplicada para a operação”, afirmou Domene.

Marcelo Domene, coordenador de automação, e Valdeci Kossar, key account manager, da Bertolini Sistemas de Armazenagem / Foto: OTM Editora / Valeria Bursztein

Menos deslocamento, mais separação

A lógica dos projetos de automação é aumentar o tempo efetivamente dedicado à coleta dos produtos. Em uma operação manual tradicional, o trabalhador percorre os corredores em busca dos itens. A introdução de um WMS e de coletores de radiofrequência já reduz o tempo de procura e permite aumentar a quantidade de produtos separados, embora o deslocamento continue elevado.

No modelo person to goods, o operador trabalha em uma área menor e sistemas como esteiras, pick by light, voice picking e monitores reduzem a distância percorrida. Já no conceito goods to person, a movimentação passa a ser automatizada e os produtos chegam até a estação de trabalho.

“O operador fica 100% do tempo parado e o item a ser separado e os pedidos vêm até a estação dele”, explicou Domene. A eliminação do deslocamento humano aumenta significativamente a parcela do tempo destinada à coleta.

Segundo Kossar, porém, os ganhos começam antes mesmo da robotização. “Quando se aplica um WMS profissional dedicado à operação, tem-se um ganho significativo na produção. O operador anda menos e produz mais”, afirmou.

Automação redistribui custos dentro do CD

O efeito aparece também na composição dos custos da operação. De acordo com os dados apresentados pelos executivos, em uma configuração tradicional, separação e reposição podem concentrar cerca de 70% dos custos de movimentação dos materiais. Em uma operação mais automatizada, essa participação pode cair para 18%, à medida que equipamentos assumem parte do transporte interno e do reabastecimento.

Nos sistemas goods to person, o investimento inicial é maior, mas o custo por unidade processada tende a diminuir. “O investimento é alto, mas o custo da unidade separada diminui”, afirmou Domene.

Além da produtividade e do custo, diz Kossar, a automação pode trazer ganhos em acuracidade, redução de erros e avarias, rastreabilidade, ergonomia, segurança e aproveitamento do espaço de armazenagem.

Case: de 35 mil para 85 mil unidades

Um projeto realizado pela Bertolini para um distribuidor farmacêutico no Rio Grande do Sul mostrou que ganhos expressivos de produtividade não dependem necessariamente da adoção de robôs.

A operação utilizava processos praticamente manuais, com listas impressas para picking e conferência de 100% dos pedidos. A empresa precisava decidir entre ampliar fisicamente o centro de distribuição, mantendo o mesmo modelo operacional, ou investir em automação.

A solução escolhida seguiu o conceito person to goods. A capacidade de separação, que era de aproximadamente 35 mil unidades fracionadas, passou a atingir picos de 85 mil unidades, com oito pessoas na operação. A produtividade média ficou entre 1,4 mil e 1,5 mil unidades por hora em cada estação, chegando a picos de 1,8 mil.

O aumento da capacidade permitiu à empresa, que atendia Rio Grande do Sul e Santa Catarina, ampliar sua atuação para o sul do Paraná. O projeto tinha retorno do investimento estimado em três anos, mas o payback ocorreu antes desse prazo.

Embora fosse tecnicamente possível incorporar robôs à operação, a análise mostrou que o investimento não era necessário naquele estágio. “Poderia colocar uma operação com robôs aqui? Poderia. Existe a necessidade? Depende”, afirmou Kossar.

Segundo ele, uma solução de menor investimento foi suficiente para praticamente triplicar a capacidade produtiva. A robotização poderá ser acrescentada futuramente caso o aumento da demanda justifique uma nova etapa de automação.

Para os executivos, a expansão do mercado tende a ampliar o número de tecnologias disponíveis, mas também aumenta a necessidade de avaliar com precisão cada operação. “É preciso ter um estudo muito bem definido da operação, e não só da operação atual, mas da projeção que ela vai ter”, finalizou Kossar.

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