Etanol leva Santos à disputa do bunker verde

Primeiro abastecimento de porta-contêineres com biocombustível reforça ambição brasileira na transição energética marítima

Valeria Bursztein

O Porto de Santos (SP) realizou o primeiro abastecimento com etanol de um navio porta-contêineres transoceânico no Brasil, em uma operação que posiciona o país na corrida global pelos combustíveis marítimos de baixo carbono e reforça o potencial do complexo santista para se transformar em um hub regional de bunker verde.

Segundo informações divulgadas pelas empresas envolvidas, a operação ocorreu no último dia 12 com o CMA CGM IRON, embarcação de 13 mil TEU equipada com motor tricombustível certificado para operar com etanol, metanol e combustíveis convencionais. O abastecimento envolveu a atuação conjunta da CMA CGM, Copersucar, Bunker One, Santos Brasil, AGEO Terminais e da fabricante de motores marítimos Everllence.

Mais do que uma demonstração tecnológica, a iniciativa ocorre em um momento em que armadores e operadores portuários aceleram a busca por alternativas ao óleo combustível tradicional diante das metas de descarbonização estabelecidas pela Organização Marítima Internacional (IMO), que prevê a neutralidade climática do setor em meados do século.

A pressão regulatória aumentou a partir da entrada em vigor do regulamento europeu FuelEU Maritime, que passou a exigir a redução gradual da intensidade de carbono dos combustíveis utilizados pelos navios que operam em portos europeus, criando incentivos econômicos para a adoção de energias renováveis na navegação. O mecanismo prevê uma redução inicial de 2% na intensidade de emissões em 2025, percentual que deverá atingir 80% até 2050.

Responsável por aproximadamente 3% das emissões globais de gases de efeito estufa, o transporte marítimo vive atualmente uma disputa tecnológica entre diferentes rotas energéticas, incluindo metanol, amônia, hidrogênio, biometano e biocombustíveis líquidos.

Corrida global pelos novos combustíveis

A dinamarquesa Maersk tornou-se a principal defensora do metanol verde e já opera embarcações preparadas para esse combustível, enquanto grupos como a CMA CGM adotam uma estratégia multienergética, combinando investimentos em gás natural liquefeito (GNL), metanol, biometano e biocombustíveis líquidos para reduzir o risco tecnológico associado à escolha de uma única solução.

A transformação da frota global ocorre em ritmo acelerado. Dados da consultoria Clarksons Research mostram que 590 embarcações capazes de operar com combustíveis alternativos foram encomendadas em 2025, elevando para quase 2 mil navios a carteira global de encomendas desse tipo de tecnologia. Desse total, 385 embarcações estão preparadas para operar com metanol, atualmente uma das principais apostas da indústria para a descarbonização da navegação. Além disso, aproximadamente mil embarcações atualmente em carteira poderão operar com esse combustível nos próximos anos.

Nesse cenário, o Brasil surge como um dos poucos países capazes de combinar produção em larga escala, disponibilidade de biomassa e infraestrutura logística para fornecer combustíveis renováveis ao transporte marítimo internacional.

Vantagem competitiva brasileira

O etanol aparece como uma das alternativas mais competitivas por utilizar uma cadeia produtiva já consolidada e possuir oferta em escala comercial, reduzindo a necessidade de investimentos bilionários em novas rotas produtivas ainda em estágio inicial de desenvolvimento.

Além disso, especialistas apontam que a compatibilidade tecnológica entre metanol e etanol poderá facilitar a adoção do biocombustível brasileiro pela nova geração de embarcações preparadas para combustíveis alternativos, ampliando o mercado potencial para produtores nacionais.

O abastecimento em Santos exigiu coordenação logística envolvendo transporte do combustível, armazenagem em infraestrutura dedicada e transferência ao navio por meio de barcaça especializada, seguindo protocolos internacionais de segurança operacional.

A operação também fortalece o posicionamento do Porto de Santos como potencial centro de abastecimento de combustíveis marítimos renováveis para o Atlântico Sul, aproveitando a proximidade com a principal região produtora de etanol do país e a infraestrutura do maior porto da América Latina.

A aquisição da Santos Brasil pela CMA CGM em 2025 reforçou a estratégia do grupo francês de ampliar sua presença na infraestrutura logística brasileira e investir no desenvolvimento de soluções ligadas à transição energética marítima.

Entregue em 2025, o CMA CGM IRON é o primeiro de uma série de doze navios de 13 mil TEU equipados com motores tricombustíveis desenvolvidos para operar com etanol. A companhia prevê operar aproximadamente 200 embarcações movidas a energias de baixo carbono até 2031.

Caso a demanda por combustíveis marítimos renováveis avance ao longo da próxima década, o país poderá ampliar para a navegação o protagonismo já conquistado nos biocombustíveis rodoviários, agregando uma nova função logística e energética aos portos brasileiros.

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