O agravamento das tensões entre Estados Unidos e Irã voltou a comprometer a navegação no Estreito de Ormuz, principal corredor marítimo para exportação de petróleo e gás do Oriente Médio. O fluxo de petroleiros e navios gaseiros atingiu o menor nível em quase dois meses, enquanto operadores passaram a adotar estratégias para reduzir a exposição das embarcações, incluindo o desligamento dos sistemas de identificação automática (AIS) durante a travessia da região.
A deterioração do cenário ocorre após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar o restabelecimento do bloqueio naval à região a partir da terça-feira (14), acompanhado da intenção de cobrar valor equivalente a 20% sobre as cargas transportadas pelo estreito, sob a justificativa de custear operações de segurança marítima conduzidas pela Marinha norte-americana. A medida representa uma nova escalada no conflito e foi imediatamente contestada pela comunidade marítima internacional.
A Organização Marítima Internacional (OMI) reiterou que o direito de passagem por estreitos utilizados para navegação internacional não pode ser restringido, suspenso ou condicionado ao pagamento de tarifas obrigatórias, conforme previsto pelo direito marítimo internacional.
Durante a 137ª sessão do Conselho da entidade, realizada na última semana, o organismo também condenou ataques contra embarcações civis e defendeu esforços diplomáticos para restabelecer a segurança na região.
Petroleiros reduzem travessias
Dados da consultoria Kpler apontam que o volume de petroleiros e navios de gás natural liquefeito (GNL) transitando por Ormuz caiu ao menor patamar desde 25 de maio, traduzindo a cautela crescente dos armadores diante da deterioração das condições de segurança e dos recentes incidentes registrados na região próxima à península omanense de Musandam.
Paralelamente, aumentou o número de travessias realizadas sem transmissão do sistema AIS, equipamento utilizado para identificação e monitoramento das embarcações. Segundo informações divulgadas pela Bloomberg e pelo Centro Conjunto de Informação Marítima (JMIC), os chamados trânsitos “na sombra” passaram a ganhar relevância nos últimos dias, dificultando o acompanhamento preciso do fluxo marítimo na região.
Imagens de satélite também indicam aumento das operações de transferência de petróleo entre navios em alto-mar, conhecidas como ship-to-ship transfer (STS), ao largo da costa de Omã. A estratégia permite movimentar cargas sem a necessidade de atravessar integralmente o estreito e vem sendo utilizada desde o início da crise para reduzir riscos operacionais.
Impactos para energia e logística
Responsável historicamente pela passagem de cerca de 20% do petróleo comercializado por via marítima no mundo e de aproximadamente um quinto do comércio global de gás natural liquefeito, o Estreito de Ormuz é considerado um dos principais gargalos logísticos do planeta. Restrições à navegação na região costumam provocar efeitos imediatos sobre custos de energia, fretes marítimos e cadeias globais de suprimentos.
Os mercados reagiram rapidamente ao novo aumento das tensões. Na segunda-feira (13), o barril do Brent encerrou o dia cotado a US$ 83,30, alta de 9,6%, enquanto o WTI avançou 9,4%, para US$ 78,14, registrando os maiores ganhos diários em meses.
Para o setor de transporte e logística, a escalada do conflito aumenta o risco de pressão sobre os custos do bunker marítimo, os prêmios de seguro para embarcações que operam na região e as tarifas de frete internacional, especialmente nos fluxos entre Ásia, Europa e Oriente Médio. O impacto potencial também alcança mercados de fertilizantes, petroquímicos e combustíveis, segmentos fortemente dependentes das exportações que atravessam Ormuz.
Combustíveis e fretes entram no radar no Brasil
Embora o Brasil seja produtor relevante de petróleo, a alta das cotações internacionais amplia os riscos para a cadeia logística nacional, especialmente em relação ao diesel e ao bunker utilizado pela navegação de cabotagem e longo curso. Caso o Brent permaneça acima de US$ 80 por barril por um período prolongado, aumenta a pressão sobre os preços dos combustíveis e sobre o transporte rodoviário de cargas, segmento no qual o diesel responde por cerca de 35% dos custos operacionais, segundo a CNT.
Os efeitos podem se espalhar pela economia por meio do aumento das despesas de transporte, distribuição e armazenagem, pressionando preços ao consumidor e alimentando expectativas inflacionárias.
No comércio exterior, petróleo mais caro, seguros marítimos elevados e eventuais desvios de rotas podem aumentar os custos de importação de fertilizantes, combustíveis e produtos petroquímicos, insumos estratégicos para o agronegócio e a indústria brasileira.
Para operadores logísticos e embarcadores, o cenário reforça a necessidade de acompanhar a evolução dos fretes internacionais e das cadeias de suprimento dependentes das rotas entre Ásia, Oriente Médio e Europa, que podem enfrentar novos reajustes tarifários e aumento dos tempos de trânsito caso as restrições em Ormuz se aprofundem.
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