O mercado brasileiro de caminhões elétricos perdeu ritmo no primeiro semestre de 2026. As vendas de caminhões de zero emissão recuaram 23%, de 219 unidades nos primeiros seis meses de 2025 para 168 neste ano, segundo levantamento do International Council on Clean Transportation (ICCT), Conselho Internacional do Transporte Limpo, com dados da JATO Dynamics. O resultado ocorre em sentido contrário ao mercado de veículos pesados de zero emissão como um todo, que cresceu 42% no período, puxado principalmente pelos ônibus.
A retração deixa os caminhões elétricos com uma participação ainda pequena no mercado brasileiro. As 168 unidades vendidas entre janeiro e junho representaram apenas 0,4% das vendas totais de caminhões no país. Entre os veículos pesados, acima de 15 toneladas, a participação foi ainda menor, de 0,07%.
O estudo mostra que a eletrificação da frota de carga continua concentrada nos segmentos mais leves e em operações nas quais a autonomia e a infraestrutura de recarga impõem menos restrições. Dos 168 caminhões de zero emissão comercializados no semestre, 142 eram leves ou médios, entre 3,5 e 15 toneladas. Os 26 restantes eram caminhões pesados, acima de 15 toneladas.
Chinesas dominam caminhões elétricos leves e médios
A presença das fabricantes chinesas é um dos principais destaques do levantamento. No segmento de caminhões leves e médios de zero emissão, JAC e Foton concentraram 86% das vendas no primeiro semestre. A JAC respondeu por 69% do mercado e a Foton por outros 17%. A Volkswagen Caminhões e Ônibus apareceu na terceira posição, com nove unidades de seus modelos e-Delivery produzidos no Brasil.
Ao todo, foram vendidos 142 caminhões elétricos leves e médios, queda de 31% em relação às 206 unidades comercializadas no primeiro semestre de 2025. Mesmo com a retração, essa faixa continua sendo o principal mercado para a tecnologia elétrica no transporte de cargas.
A concentração regional também é elevada. Segundo o ICCT, 94% das vendas acumuladas de caminhões leves e médios de zero emissão desde 2021 ocorreram nas regiões Sul e Sudeste. São Paulo responde sozinho por 69% dos registros no primeiro semestre de 2026, seguido por Paraná, com 12%, e Rio Grande do Sul, com 4%.
O perfil das operações ajuda a explicar essa concentração. Os caminhões elétricos encontram maior espaço em distribuição urbana, entregas de curta distância e operações com retorno frequente à base, nas quais o veículo pode ser recarregado durante períodos de parada.
Pesados crescem, mas ainda são exceção
O comportamento dos caminhões acima de 15 toneladas é diferente. Apesar do mercado ainda ser muito pequeno, as vendas de modelos de zero emissão dobraram no primeiro semestre, passando de 13 unidades em 2025 para 26 em 2026.
A Sany concentrou 85% desse mercado, com seus caminhões-tratores elétricos 6×4. O levantamento do ICCT destaca que essa configuração é a primeira entre os caminhões pesados de zero emissão a entrar no escopo das metas de redução de emissões de CO₂ relacionadas ao programa MOVER.
O crescimento, entretanto, ocorre sobre uma base muito baixa. As 26 unidades elétricas representam apenas uma fração das mais de 37 mil unidades convencionais acima de 15 toneladas comercializadas no primeiro semestre.
É justamente nos pesados que estão alguns dos principais obstáculos à eletrificação do transporte rodoviário de cargas. Operações de longa distância exigem maior autonomia, baterias de maior capacidade e infraestrutura de recarga compatível com veículos de alta potência. O peso adicional dos conjuntos de baterias também precisa ser considerado na equação de capacidade de transporte.
Produção nacional é um dos obstáculos
O ICCT aponta ainda uma barreira específica para a expansão dos caminhões de zero emissão no Brasil: a exigência de produção local para acesso a determinadas linhas de financiamento do Move Brasil, programa criado para estimular a renovação da frota.
A restrição ganha importância porque uma parcela relevante dos caminhões elétricos comercializados no país ainda é importada. Dessa forma, o acesso ao crédito subsidiado pode não acompanhar a oferta de modelos disponíveis no mercado.
A tributação também mudou em relação aos primeiros anos de expansão dos veículos elétricos. O estudo destaca que as vendas de caminhões elétricos leves e médios ainda não retornaram ao nível observado em 2022, quando os veículos importados contavam com condições tributárias mais favoráveis.
Para os fabricantes, a localização da produção passa a ter peso crescente na estratégia de eletrificação. No caso dos caminhões pesados, a nacionalização também pode ser determinante para ampliar o acesso das transportadoras a financiamento e reduzir o custo de aquisição.
Mercado brasileiro ainda é pequeno
O resultado dos caminhões contrasta com o crescimento registrado no conjunto dos veículos pesados de zero emissão. Considerando caminhões, ônibus e coaches, o Brasil comercializou 751 unidades no primeiro semestre, ante 529 no mesmo período de 2025.
Mas praticamente todo o avanço veio dos ônibus. As vendas dessa categoria cresceram 87,5%, para 583 unidades, enquanto os caminhões recuaram.
A diferença evidencia que a eletrificação do transporte pesado brasileiro segue trajetórias distintas de acordo com a aplicação. No transporte urbano de passageiros, a concentração de operações, a existência de políticas públicas específicas e a possibilidade de recarga nas garagens favorecem a adoção dos veículos elétricos.
Na carga, a conta é mais complexa. O transportador precisa considerar autonomia, tempo de recarga, infraestrutura, peso das baterias, disponibilidade do veículo e custo total da operação antes de substituir um caminhão a diesel por um modelo elétrico.
Ônibus puxam mercado de zero emissão
Segundo ICCT, os ônibus responderam por 78% das vendas de veículos pesados de zero emissão no primeiro semestre. Foram 583 unidades, equivalentes a 5,7% de todas as vendas de ônibus no país. No transporte urbano, a participação dos modelos de zero emissão chegou a 10,7%, segundo o ICCT. São Paulo concentrou 78,9% das vendas nacionais de ônibus de zero emissão no período.
O resultado reforça a diferença de velocidade entre os dois segmentos. Enquanto a eletrificação já começa a alcançar uma parcela relevante das novas compras de ônibus urbanos, nos caminhões a tecnologia permanece restrita a nichos específicos e representa menos de 1% do mercado.
De acordo com o levantamento do instituto, para o transporte rodoviário de cargas, portanto, o primeiro semestre de 2026 mostra que a oferta de caminhões elétricos está crescendo mais rapidamente do que a demanda em algumas categorias, enquanto os pesados ainda enfrentam barreiras econômicas e operacionais para ganhar escala.
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