Diesel sobe 20%: o que esperar após as eleições?

Combustível segue caro apesar dos subsídios; revisão dos benefícios federais pode afetar os custos do transporte nos próximos meses

Valeria Bursztein

O diesel chega à reta final das eleições 20,1% mais caro do que em janeiro na rede acompanhada pela TruckPag, enquanto os subsídios federais têm prazos de revisão após o segundo turno. A estabilidade do S10 na primeira quinzena de outubro não reverteu a pressão sobre os custos das transportadoras, que enfrentam dificuldades para recompor os fretes e incerteza sobre a continuidade dos benefícios.

O preço médio foi de R$ 6,94 por litro nos primeiros 15 dias de outubro, ante R$ 5,78 em janeiro, segundo a TruckPag. A diferença de R$ 1,16 por litro representa um gasto adicional de R$ 11,6 mil a cada 10 mil litros consumidos.

O impacto ultrapassa a conta dos postos. Em comunicado divulgado em março, a Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística) informou que o diesel representa, em média, 35% do custo operacional do transporte, podendo superar 50% em determinadas operações de longa distância. Como exercício ilustrativo, uma alta de 20% no combustível elevaria em aproximadamente 7% o custo total de uma operação com participação inicial de 35%, mantidos os demais componentes constantes.

“A estabilidade dos preços na primeira quinzena não significa alívio para as transportadoras. O diesel segue cerca de 20% mais caro do que no início do ano, pressionando os custos de uma operação que já trabalha com margens apertadas”, afirma Kassio Seefeld, CEO e cofundador da TruckPag.

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Queda interrompida em setembro

Na série da TruckPag, o diesel registrou quatro meses consecutivos de queda, entre maio e agosto, antes de voltar a subir em setembro, quando a média mensal alcançou R$ 6,76. Na primeira quinzena de outubro, o valor de R$ 6,94 ficou 2,7% acima dessa média.

A estabilidade na primeira quinzena ocorreu em um patamar superior à média de setembro. No mês anterior, o diesel começou a R$ 6,43 por litro e alcançou os valores atuais na segunda metade do período. Outubro começou a R$ 6,94 e encerrou a quinzena a R$ 6,93.

Embora elevado em relação a janeiro, o preço está abaixo da média de abril, de R$ 7,13, e do pico diário de R$ 7,43 registrado em 5 de abril. A primeira referência representa a média mensal; a segunda, o maior preço diário observado na série.

O levantamento da TruckPag considera transações em 4.940 postos credenciados, aproximadamente 90% deles localizados em rodovias. Os resultados refletem os abastecimentos realizados nessa rede.

Frete já apresentava defasagem

A retomada da alta do diesel encontra um setor que já relatava dificuldades para recompor receitas. Em comunicado divulgado em agosto, a NTC&Logística apontou defasagem média de 10,5% entre os fretes praticados e os custos efetivos do transporte, conforme apuração de seu Departamento de Custos Operacionais e Pesquisas Técnicas e Econômicas (Decope).

A defasagem indica que a estabilidade recente do diesel encontra transportadoras com dificuldades para recuperar os custos da operação. Sem a recomposição das tarifas, as empresas absorvem parte das despesas, o que comprime as margens e reduz os recursos para manutenção, renovação da frota e capital de giro.

Brent explica apenas parte da conta

Segundo os dados apresentados pela TruckPag, o Brent passou de US$ 102,52 para US$ 105,45 entre as cotações utilizadas para 1º e 15 de outubro, alta de 2,9%. No mesmo intervalo, o diesel da rede recuou um centavo por litro.

O Brent é uma referência de petróleo bruto, enquanto o diesel é um derivado, cujo custo também reflete as condições do refino e a disponibilidade do produto. O Ministério da Fazenda citou a elevação dos custos internacionais de refino entre os fatores que pressionam o abastecimento doméstico.

Na formação do preço brasileiro também entram câmbio, transporte, estoques, tributos, mistura de biodiesel e margens de comercialização. A transmissão das oscilações internacionais ao consumidor depende desses componentes e das condições de comercialização ao longo da cadeia. Os dados da quinzena não permitem medir isoladamente a contribuição dos subsídios para a estabilidade observada.

Apoio tem valores e prazos distintos

O governo modificou o mecanismo de apoio ao diesel ao longo do ano. A Medida Provisória nº 1.340 autorizou subvenção de R$ 0,32 por litro em março. Posteriormente, a MP nº 1.363 estabeleceu R$ 1,12 por litro a partir de junho. Em setembro, a MP nº 1.391 passou a permitir que a Fazenda definisse valores em períodos de até 30 dias, prorrogáveis.

A Portaria MF nº 2.946 manteve o benefício geral em R$ 2,12 por litro por 30 dias a partir de 27 de setembro. Já a Portaria MF nº 3.082, publicada em 13 de outubro, acrescentou R$ 1,40 exclusivamente ao diesel A rodoviário importado, também por 30 dias, contados da publicação. Ambos admitem prorrogação.

Assim, os importadores podem receber R$ 3,52 por litro enquanto os dois benefícios estiverem vigentes. O valor se refere ao diesel A importado, antes da mistura com biodiesel, e não corresponde a um desconto uniforme de R$ 3,52 em cada litro vendido ao consumidor.

Segundo o governo, o adicional procura compensar parte da diferença entre os custos de importação e os preços internos. A estimativa oficial é de gasto de R$ 1,6 bilhão em 30 dias. Na comunicação sobre a medida, o governo informou que cerca de 33% do diesel consumido no Brasil é importado.

Revisões atravessam as eleições

O reforço às importações foi anunciado em 9 de outubro, 16 dias antes do segundo turno, marcado para 25 de outubro. Na ocasião, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou relação com o calendário eleitoral. A justificativa oficial foi preservar o abastecimento diante das pressões internacionais.

O período de vigência do benefício geral de R$ 2,12 por litro termina no fim de outubro, após o segundo turno, caso não seja prorrogado. O adicional aos importadores tem prazo próprio, que avança por novembro. A continuidade dos valores depende de novas decisões do governo, observadas as condições legais e orçamentárias do programa.

Para as transportadoras, a retirada ou redução dos subsídios pode trazer nova pressão sobre o abastecimento, caso os custos de importação permaneçam elevados. A evolução dos preços após as eleições dependerá tanto do mercado internacional quanto das decisões do governo sobre a continuidade dos benefícios.

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