Lucro da Volvo cresce 26%, mas Brasil preocupa

Grupo registra avanço nas encomendas globais e prevê retração do mercado brasileiro de caminhões pesados em 2027

Valeria Bursztein

O Grupo Volvo encerrou o terceiro trimestre de 2026 com crescimento de 26% no lucro operacional ajustado, impulsionado pela recuperação das encomendas de caminhões, pelo aumento das entregas e pela expansão dos serviços. Apesar do desempenho global positivo, a companhia prevê que o mercado brasileiro de caminhões pesados continuará em retração em 2027, com vendas estimadas em 75 mil unidades, ante 80 mil projetadas para este ano.

A previsão descrita no relatório de resultados divulgado esta semana representa uma queda de 6,3% e indica a continuidade das dificuldades enfrentadas pelo transporte rodoviário brasileiro, em um cenário de juros elevados e pressão sobre os custos operacionais. Em 2025, o mercado de pesados havia registrado 86.654 emplacamentos, segundo os números apresentados pela companhia.

No acumulado de janeiro a setembro de 2026, foram registrados 61.202 caminhões pesados no Brasil, redução de 4% em relação às 63.883 unidades do mesmo período de 2025.

No relatório, a Volvo atribui o enfraquecimento do mercado brasileiro aos juros elevados, às tarifas comerciais dos Estados Unidos e ao aumento dos custos de energia. A companhia também destaca que os subsídios de juros do programa Move Brasil contribuíram para sustentar a demanda ao longo do ano, mas os recursos disponibilizados já haviam sido consumidos, sem anúncio de novas verbas até o período analisado.

Lucro cresce acima da receita

No terceiro trimestre, a receita líquida global do Grupo Volvo alcançou 119,5 bilhões de coroas suecas (SEK), crescimento de 8% em relação aos 110,7 bilhões registrados entre julho e setembro de 2025. Desconsiderando os efeitos cambiais e mudanças na estrutura dos negócios, a expansão orgânica foi de 7%.

O lucro operacional ajustado avançou de 11,7 bilhões para 14,7 bilhões de coroas suecas, aumento de aproximadamente 26%. Com isso, a margem operacional ajustada passou de 10,6% para 12,3%.

O lucro líquido do período atingiu 10,8 bilhões de coroas suecas, ante 7,6 bilhões no terceiro trimestre do ano anterior, crescimento de aproximadamente 42%.

A melhora da rentabilidade foi favorecida pelo desempenho dos serviços, pelo aumento dos volumes e pelos reajustes de preços. O resultado também recebeu contribuição positiva de efeitos cambiais e de reembolsos de tarifas nos Estados Unidos.

No trimestre, o impacto líquido das tarifas norte-americanas foi positivo em 200 milhões de coroas suecas, uma vez que os reembolsos de 1,2 bilhão superaram os custos tarifários. A companhia, porém, enfrentou pressões relacionadas ao aumento dos gastos com materiais e fretes.

O fluxo de caixa operacional das atividades industriais também apresentou recuperação, passando de um resultado negativo de 1,7 bilhão de coroas suecas no terceiro trimestre de 2025 para um saldo positivo de 7,2 bilhões no mesmo período de 2026.

Encomendas de caminhões avançam 26%

A divisão de caminhões foi um dos principais motores do desempenho do grupo. A receita líquida do segmento cresceu 10%, para 81,6 bilhões de coroas suecas, enquanto o lucro operacional ajustado avançou 34%, alcançando 9,05 bilhões.

A margem operacional ajustada da divisão passou de 9,1% para 11,1%.

Entre julho e setembro, as marcas do grupo receberam encomendas líquidas de 46.918 caminhões, aumento de 26% em relação ao mesmo período de 2025. As entregas cresceram 11%, para 49.611 unidades.

O avanço foi especialmente expressivo na América do Sul, onde as encomendas aumentaram 92%, para 4.286 caminhões. As entregas na região cresceram 9%, alcançando 7.408 veículos.

A Volvo relaciona a expansão das encomendas sul-americanas ao apoio proporcionado pelo programa Move Brasil. No mercado brasileiro de caminhões pesados, a fabricante manteve participação de 23,1% no acumulado até setembro, mesmo percentual registrado no período equivalente do ano anterior.

O aumento dos pedidos no terceiro trimestre, portanto, não altera a avaliação da companhia de que o mercado brasileiro deverá permanecer pressionado em 2027.

América do Norte impulsiona recuperação

Na América do Norte, as encomendas de caminhões aumentaram 18% no terceiro trimestre, para 11.150 unidades, enquanto as entregas avançaram 42%, alcançando 13.683 veículos.

O desempenho ocorre após um início de ano mais fraco. No acumulado até setembro, as vendas de caminhões pesados no varejo norte-americano ainda apresentavam queda de 6%.

Mesmo assim, a Volvo projeta uma recuperação mais consistente para 2027. A estimativa é de 300 mil caminhões pesados comercializados na América do Norte, ante 265 mil previstos para 2026, crescimento de aproximadamente 13,2%.

Na Europa, a expectativa também é positiva, embora em ritmo mais moderado. O grupo projeta um mercado de 320 mil caminhões pesados em 2027, ante 315 mil neste ano, considerando os 30 mercados europeus acompanhados pela companhia.

A diferença entre as projeções reforça o contraste entre a perspectiva de recuperação dos mercados desenvolvidos e o cenário de retração esperado para o Brasil.

Equipamentos de construção ampliam rentabilidade

A divisão Volvo Construction Equipment também apresentou melhora dos resultados. A receita líquida aumentou 5%, para 19,9 bilhões de coroas suecas, enquanto o lucro operacional ajustado avançou 18%, para 3,2 bilhões.

A margem operacional ajustada atingiu 16,1%, ante 14,4% no terceiro trimestre de 2025.

O desempenho foi sustentado pela demanda por máquinas destinadas a projetos de infraestrutura, mineração e construção de centros de dados, especialmente na América do Norte.

Na América do Sul, a Volvo identificou crescimento da demanda por equipamentos, embora em ritmo inferior ao observado anteriormente, em razão de uma postura mais cautelosa de parte dos clientes brasileiros no período eleitoral.

A companhia também informou que as encomendas de equipamentos da marca Volvo cresceram 16% no trimestre. No consolidado da divisão, entretanto, o volume total de pedidos caiu 31%, refletindo principalmente a venda da participação na SDLG, concluída em setembro de 2025, que afeta a comparação anual.

Caminhões elétricos registram alta nas encomendas

No segmento de veículos elétricos, o grupo recebeu 1.928 encomendas de caminhões totalmente elétricos no terceiro trimestre, aumento de 163% em relação às 733 unidades registradas um ano antes.

As entregas, porém, recuaram 17%, passando de 1.061 para 878 caminhões.

O movimento mostra uma diferença entre o crescimento da carteira de pedidos e o volume efetivamente entregue no período. No acumulado dos nove primeiros meses de 2026, as encomendas de elétricos aumentaram 55%, enquanto as entregas diminuíram 3%.

A Volvo também registrou maior concorrência no mercado europeu de caminhões pesados elétricos. A participação da marca nesse segmento caiu de 27,6% para 14,1% no acumulado até setembro, segundo o relatório.

Grupo mantém foco em rentabilidade

Martin Lundstedt, presidente e CEO do Grupo Volvo, destacou que a recuperação gradual dos mercados de caminhões e equipamentos de construção continuou no terceiro trimestre, sustentada pela necessidade de substituição de veículos e máquinas mais antigos.

O executivo também apontou a importância dos serviços para o desempenho financeiro da companhia. As vendas desse segmento cresceram organicamente 5% no trimestre, beneficiadas pela utilização dos veículos e equipamentos pelos clientes.

“Embora as condições de mercado sejam diferentes entre regiões e segmentos, nosso foco permanece naquilo que podemos influenciar”, afirmou Lundstedt no relatório trimestral.

Segundo o executivo, a prioridade é manter a proximidade com os clientes, atender à carteira de pedidos, controlar custos e preservar os investimentos em produtos e tecnologias.

Nos nove primeiros meses de 2026, o Grupo Volvo acumulou receita líquida de 356,6 bilhões de coroas suecas, praticamente estável em relação ao mesmo período do ano anterior. O lucro operacional ajustado, por sua vez, cresceu 8%, para 41,6 bilhões.

Os números mostram que a companhia conseguiu ampliar a rentabilidade mesmo em um ambiente de crescimento limitado da receita acumulada. Para o Brasil, entretanto, a previsão de um novo recuo nas vendas de caminhões pesados em 2027 indica que a recuperação do mercado ainda dependerá de condições mais favoráveis de financiamento e de investimento por parte dos transportadores.

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