Iveco aposta no pós-venda para ir além do preço

Novo CD em Pouso ALegre (MG) amplia em 40% capacidade de armazenagem e reforça estratégia para elevar disponibilidade dos veículos

Valeria Bursztein

Para fazer frente a uma concorrência cada vez mais agressiva em preços, a Iveco quer levar a disputa por caminhões para além do valor de aquisição do veículo. Disponibilidade, custo de operação e qualidade do pós-venda ganham peso nessa estratégia — e ajudam a explicar o investimento de R$ 93 milhões no novo centro de distribuição de peças de Pouso Alegre (MG).

A lógica passa pelo uptime, indicador do tempo em que o veículo permanece disponível para trabalhar. Quanto maior a disponibilidade, menor o impacto das paradas sobre a produtividade do transportador. A nova estrutura tem capacidade de armazenagem 40% superior à da operação anterior, em Sorocaba (SP), e reduziu de quatro para dois dias o processamento de saída das peças.

Com cerca de 20 mil m², 17 docas e movimentação de aproximadamente 5,8 milhões de peças por ano, o CD atende IVECO, IVECO BUS e FPT.

“Um dos elementos que levam o uptime em direção a 100% é a proximidade das peças de reposição”, afirmou Domenico Nucera, chief Quality & Operations Officer do Iveco Group. Segundo ele, quando um veículo para, ter o componente disponível e capacidade para entregá-lo rapidamente interfere diretamente no tempo em que o caminhão permanece produzindo.

A discussão desloca parte da competição do preço de compra para o custo de utilização do veículo ao longo de sua vida útil. Nucera cita custo por quilômetro, manutenção e disponibilidade entre os fatores considerados pelo transportador. Quanto mais tempo o veículo permanece rodando, melhor a equação para o cliente.

Concorrência mais agressiva

A chegada de novos fabricantes à América Latina elevou a pressão competitiva — sobretudo sobre preços —, mas, na avaliação da Iveco, também aumenta a importância de disputar o cliente em outras frentes.

“Estamos jogando em uma arena muito agressiva”, afirmou Nucera. O executivo compara o momento ao que a Iveco já enfrenta na Europa, onde a companhia passou a conviver com um número maior de marcas concorrentes.

Parte dos novos competidores, acrescentou, chega disposta a disputar mercado de forma agressiva em preço. Nucera chama atenção ainda para uma vantagem estrutural de alguns fabricantes chineses, associada ao controle sobre matérias-primas e diferentes etapas da cadeia de valor.

Para Marcio Querichelli, presidente da IVECO para a América Latina, o reforço do pós-venda integra uma estratégia mais ampla de relacionamento com o transportador. “Este centro representa muito mais do que uma operação logística”, afirmou. Segundo ele, a estrutura é parte da infraestrutura necessária para acompanhar as ambições da companhia na região e ampliar a capacidade de atender o cliente durante todo o ciclo de vida do produto.

É aí que a logística de peças ganha relevância. Fernanda Melo, head de Operações de Peças do Iveco Group para a América Latina, resumiu a relação: “Uma peça nunca é apenas uma peça”. Para quem opera um caminhão ou ônibus, afirmou, ela representa “continuidade, produtividade e resultado”, porque um veículo parado gera impacto para a operação.

Prazos menores

Os ganhos apresentados pela companhia aparecem em diferentes etapas da operação. O tempo do processo de recebimento, o inbound, caiu de seis para quatro dias, enquanto o outbound foi reduzido de quatro para dois dias. A densidade de armazenamento aumentou 37% e a disponibilidade em estoque de peças de médio e alto giro avançou 66%.

O desenho interno também procura reduzir deslocamentos. A organização das peças busca melhorar o aproveitamento do espaço, diminuir movimentações e acelerar a localização dos componentes e a separação dos pedidos.

O centro conta ainda com Quality Lab, quatro pontos de controle e áreas segregadas para prevenção, monitoramento e contenção de eventuais problemas antes que as peças sigam para o cliente.

A mudança de Sorocaba para Pouso Alegre altera também o modelo da operação. O antigo CD funcionava de forma compartilhada; a nova estrutura é dedicada ao Iveco Group. Com Pouso Alegre, a rede global chega a 18 depósitos de peças em 16 países.

Juntos, esses centros somam aproximadamente 400 mil m² e processam cerca de 9,3 milhões de linhas de pedidos de saída por ano. A operação global trabalha com mais de 1.600 fornecedores.

Cadeia mais curta

O novo CD se encaixa ainda na estratégia que o Iveco Group chama de “local for local”: aproximar produção, fornecedores e mercados para reduzir distâncias e exposição a rupturas externas.

Nucera descreveu o ambiente internacional como uma “policrise”. Se três anos atrás a preocupação era a pandemia e depois vieram as disputas tarifárias, afirmou, agora a instabilidade geopolítica entrou definitivamente no vocabulário da cadeia de suprimentos.

A resposta tem sido encurtar a cadeia e ampliar o fornecimento local sempre que possível. Na América do Sul, a companhia mantém uma base regional de fornecedores, embora continue importando componentes da Europa e de outras partes do mundo.

“Diversificação é o nome do jogo”, resumiu Nucera.

Pouso Alegre foi escolhida justamente pela posição logística. Localizada entre importantes mercados de Minas Gerais e São Paulo, a cidade oferece conexão com corredores rodoviários, aeroportos e portos e aproxima o estoque dos principais destinos atendidos pela operação.

Espaço para expansão

O CD começa a operar com espaço disponível para crescer. O projeto prevê 3.500 m² para expansão e capacidade adicional de aproximadamente 35%.

Essa folga poderá ganhar novas funções no futuro. Questionado sobre eventuais reflexos da operação envolvendo Iveco Group e Tata Motors, Nucera afirmou que qualquer discussão sobre sinergias dependerá primeiro da conclusão da transação entre os grupos.

“Esse é um centro que aceita grandes expansões. Pode ser um centro exclusivo da Iveco, pode ser um centro que também venha a trazer produtos da Tata”, afirmou. Mas fez a ressalva: “Ainda não temos estabelecido uma estratégia, um plano, pois o acordo não está plenamente formalizado.”

A capacidade disponível, portanto, não está vinculada neste momento a um projeto com a Tata. Segundo Nucera, poderá servir à própria Iveco ou, futuramente, a eventuais sinergias que venham a ser definidas após a conclusão da transação.

Fique por dentro de todas as novidades do setor de transporte de carga e logística:
Siga o canal da Transporte Moderno no WhatsApp
Acompanhe nossas redes sociais: LinkedInInstagram e Facebook
Inscreva-se no canal do Videocast Transporte Moderno

Veja também

CEO
Marcelo Fontana
[email protected]
Editora
Aline Feltrin
[email protected]
/aline-feltrin
Repórter
Valéria Bursztein
[email protected]
/valeria-bursztein
Executivo de contas
Tânia Nascimento
[email protected]
Raul Urrutia
[email protected]
Financeiro
Vidal Rodrigues
[email protected]
Eventos corporativos / Marketing
Barbara Ghelen
[email protected]
Publicidade
Karoline Jones
[email protected]
Representante região Sul (PR/RS/SC)
Gilberto A. Paulin
+55 (41) 3029-0563
João Batista A. Silva
[email protected]

Aviso de reprodução Este conteúdo pode ser compartilhado com responsabilidade

Este conteúdo pode ser reproduzido, desde que seja citada a fonte com link: Agência Transporte Moderno. Respeitar a autoria e indicar a origem da informação contribui para fortalecer o bom jornalismo e a produção de conteúdo confiável.