O imediatismo que transformou o consumo já começa a redesenhar a logística industrial. Acostumados a acompanhar uma compra em tempo real e recebê-la em poucas horas, os profissionais passaram a exigir a mesma previsibilidade nas operações B2B. A mudança coloca em xeque estoques elevados de matérias-primas, capital imobilizado e cadeias estruturadas para conviver com atrasos.
Nesse novo cenário, a logística bem-sucedida não será necessariamente a mais rápida ou a mais barata, mas aquela capaz de fazer a carga chegar exatamente quando o cliente precisa. Para Marcelo Zeferino, chief commercial officer da Prestex, essa transformação provocará uma “seleção natural” entre operadores: empresas presas a rotas e processos padronizados perderão espaço para aquelas capazes de entender a criticidade de cada entrega e combinar custo, prazo e disponibilidade.
O transporte ultraexpresso, portanto, deixa de ser apenas uma solução para emergências. Trata-se de uma operação desenhada conforme a urgência de cada carga, com coleta, definição de rota e acompanhamento praticamente imediatos. Pode combinar diferentes modais e não está necessariamente associado ao transporte aéreo. Ao garantir a reposição de uma peça ou insumo crítico antes que a produção pare, o serviço pode permitir a redução dos estoques de segurança, liberar recursos financeiros e proteger o resultado da indústria.
“Dois, três ou cinco dias com uma linha parada podem consumir o resultado de um mês. Nessa situação, a logística muda o jogo”, afirmou Zeferino à Agência Transporte Moderno durante o Logística do Futuro 2026.
Estoque deixa de ser a única proteção
O impacto mais concreto dessa transformação aparece na forma como a indústria aloca seus recursos. Quando não existe confiança sobre a chegada de peças e matérias-primas, o estoque de segurança funciona como proteção contra interrupções. O custo dessa precaução, porém, é manter capital imobilizado em produtos que podem permanecer armazenados por longos períodos.
Uma reposição rápida e previsível não elimina a necessidade de estoques, mas cria uma alternativa. A empresa pode definir em quais pontos precisa manter materiais disponíveis e onde é mais eficiente contar com um serviço capaz de responder a uma ruptura.
“Se eu já não estoco arroz em casa porque sei que, se comprar, chega em duas horas, por que preciso estocar tanta matéria-prima? Com um planejamento e um braço logístico eficientes, posso ter no B2B a mesma capacidade de resposta que tenho no B2C”, afirmou Zeferino.
A equação varia conforme a carga. Commodities agrícolas, por exemplo, trabalham com grandes volumes, preços pressionados e janelas mais extensas. Em uma linha industrial de alta produtividade, por outro lado, a falta de um componente pode provocar prejuízos muito superiores ao custo de uma entrega dedicada.
Quanto maior o valor agregado do insumo e o impacto de uma paralisação, maior tende a ser o peso do prazo na decisão logística.
Modal depende do tamanho da urgência
A logística ultraexpressa não está necessariamente associada ao transporte aéreo. Uma peça destinada a uma fábrica no interior de Mato Grosso, por exemplo, pode estar distante de um aeroporto e exigir uma operação rodoviária dedicada.
A escolha depende da origem, do destino, da infraestrutura disponível, do valor da carga e do prejuízo que um eventual atraso pode causar. O desafio é ter informações e capilaridade para mobilizar o recurso adequado no momento necessário.
A Prestex possui mais de 220 pontos operacionais no Brasil. A torre de controle da companhia recebe cada demanda, avalia seu grau de criticidade e define a combinação de transporte mais apropriada.
A avaliação permite buscar menor custo quando o prazo admite uma operação programada e priorizar o tempo quando há risco de paralisação, perda de produção ou descumprimento de um compromisso comercial.
Verticalização busca margem e informação
A necessidade de controlar essa experiência ajuda a explicar a verticalização dos serviços logísticos. De acordo com Zeferino, as empresas costumam internalizar uma etapa por dois motivos: capturar uma margem antes destinada a terceiros ou conhecer melhor o comportamento do cliente.
No primeiro caso, a companhia identifica uma atividade rentável e decide executá-la diretamente. No segundo, internaliza o serviço porque não conhece suficientemente o consumidor ou não dispõe dos dados necessários para compreender suas decisões.
O movimento de armadores, varejistas e outros grandes grupos em direção a operações mais integradas não é visto pelo executivo como uma ameaça direta aos operadores logísticos. “O que vejo como ameaça é olhar apenas para dentro de casa e considerar somente aquilo que a empresa possui hoje. É preciso observar o que o mercado está dizendo”, afirmou.
Na avaliação de Zeferino, a verticalização pode representar um retrocesso quando fragmenta competências que seriam mais eficientes se combinadas. A alternativa seria integrar empresas especializadas e aproveitar o potencial de cada participante da cadeia.
Fase de consolidação
Com 23 anos de atuação, a Prestex registra crescimento de dois dígitos há 14 anos consecutivos, segundo o executivo. A companhia trabalha com um modelo 4PL de poucos ativos próprios, coordenando prestadores e recursos para construir uma solução específica para cada cliente. A estrutura permite direcionar veículos e serviços conforme a demanda, sem manter grandes centros de distribuição próprios. Os recursos são concentrados principalmente em tecnologia e pessoas.
Após o ciclo de expansão, a empresa entra agora em uma fase de consolidação. Zeferino não antecipou valores de investimentos e afirmou que as próximas decisões dependerão da evolução do cenário econômico e do desempenho dos setores atendidos.
A qualificação profissional será um dos fatores da seleção prevista por Zeferino. Além da necessidade de especialistas em tecnologia, dados e planejamento, a logística brasileira enfrenta dificuldade crescente para encontrar motoristas. “O Brasil corre o risco de parar no médio prazo por falta de mão de obra nessa área”, alertou.
O problema, acrescentou, não se limita à condução dos veículos. A velocidade das mudanças tecnológicas reduziu o prazo de validade do conhecimento e passou a exigir atualização contínua dos profissionais.
Uma solução considerada avançada hoje pode ser rapidamente superada por uma ferramenta desenvolvida fora das estruturas tradicionais do setor. Por isso, empresas e profissionais não deveriam se apegar a um sistema ou serviço específico, mas ao problema que precisam solucionar.
“As pessoas muitas vezes se apaixonam pela tecnologia ou pelo serviço, e não pelo problema. É preciso se apaixonar pelo problema”, afirmou.
Na avaliação do executivo, inteligência artificial, terceirização e modelos 4PL já fazem parte da realidade. A discussão precisa avançar para a preparação do setor diante de comportamentos de consumo e tecnologias que ainda estão surgindo.
“Há uma avalanche de mudanças chegando e muitas empresas ainda não perceberam. Quem não tiver informação na mão, não trabalhar com melhoria contínua e não entender essa nova geração estará fora do jogo.”
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