Transporte aquaviário passa de 2% para 25% dos investimentos em logística

Rodovias ainda lideram, mas participação cai de 57% para 47%; volume total de investimentos equivaleu a 0,42% do PIB em 2025

Aline Feltrin

O perfil dos investimentos em infraestrutura logística no Brasil mudou de forma significativa entre 2017 e 2025. O principal movimento foi o avanço do modal aquaviário, cuja participação no total investido passou de 2% para 25% no período. Enquanto isso, o transporte rodoviário, ainda responsável pela maior fatia dos recursos, recuou de 57% para 47%. A mudança indica uma distribuição mais diversificada dos investimentos entre os modais, embora as rodovias continuem concentrando quase metade dos recursos destinados à infraestrutura logística.

Os dados fazem parte de um levantamento do Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS), que acompanha a evolução dos investimentos públicos e privados em infraestrutura logística no país. A mudança fica ainda mais evidente na comparação com 2021. Naquele ano, o aquaviário respondia por 10% dos investimentos, enquanto o rodoviário concentrava 50%. Em 2025, as participações chegaram a 25% e 47%, respectivamente.

Aquaviário ganha espaço

O transporte aquaviário foi o modal que mais ganhou participação nos investimentos ao longo do período analisado. Em 2017, respondia por apenas 2% dos recursos destinados à infraestrutura logística. Quatro anos depois, a participação havia chegado a 10% e, em 2025, alcançou 25%. O avanço de 23 pontos percentuais fez com que o segmento passasse de uma posição marginal na carteira de investimentos para responder por um quarto de todos os recursos destinados à infraestrutura logística.

O avanço do aquaviário acompanha o aumento dos investimentos em hidrovias e infraestrutura portuária e reduz, na composição dos aportes, a concentração histórica nas rodovias. Para um país com grande extensão territorial e forte produção de commodities, a utilização de modais capazes de movimentar grandes volumes em longas distâncias pode contribuir para reduzir custos e aumentar a eficiência logística. A expansão, porém, depende também da integração dos corredores aquaviários com ferrovias, rodovias, portos e terminais de carga.

Rodovias continuam na liderança

Apesar da perda de participação, o transporte rodoviário permanece como o principal destino dos investimentos em infraestrutura logística. O modal concentrava 57% dos recursos em 2017, passou para 50% em 2021 e chegou a 47% em 2025. A redução da participação relativa, entretanto, não significa necessariamente uma queda equivalente no volume de recursos destinados às estradas, já que o total investido em infraestrutura também aumentou como proporção do PIB.

Considerando os dados do levantamento, os investimentos rodoviários em 2025 correspondiam a aproximadamente 0,20% do PIB, percentual próximo ao registrado em 2017. A permanência das rodovias na liderança também reflete a estrutura da matriz brasileira de transporte de cargas, ainda fortemente dependente desse modal. O desafio, portanto, não está apenas em reduzir sua participação, mas em ampliar a capacidade dos demais modais para que cada tipo de carga possa utilizar a alternativa mais eficiente de acordo com distância, volume e características da operação.

Ferrovias perdem participação

Na fotografia apresentada pelo ILOS, o transporte ferroviário aparece em uma situação diferente. O modal representava 24% dos investimentos em 2017 e manteve a mesma participação em 2021, mas recuou para 16% em 2025. A queda de oito pontos percentuais chama atenção porque ocorre justamente em um período marcado por projetos de expansão, renovação de concessões e investimentos privados destinados à modernização da malha ferroviária brasileira. A redução da participação no total, portanto, não significa ausência de uma agenda relevante de aportes no setor.

Nos últimos anos, governo federal e concessionárias estruturaram novos ciclos de investimentos ferroviários a partir principalmente das renovações antecipadas de contratos. O Novo PAC, lançado em 2023, previa R$ 94,2 bilhões para ferrovias, sendo R$ 6 bilhões em recursos públicos e R$ 88,2 bilhões em investimentos privados. O programa foi apresentado pelo Ministério dos Transportes como um dos maiores ciclos de investimentos ferroviários das últimas décadas.

A agenda ganhou novos contornos em 2024, quando o Ministério dos Transportes anunciou um Plano Nacional de Ferrovias com mais de R$ 20 bilhões, formado a partir de recursos provenientes de repactuações de contratos de concessões renovadas antecipadamente. O plano envolvia negociações com grandes operadores, como Vale, Rumo e MRS, além do processo de renovação da Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), operada pela VLI.

A renovação das concessões também abriu espaço para projetos de grande porte. No caso da FCA, uma proposta apresentada em 2024 previa aproximadamente R$ 24 bilhões para modernização da ferrovia e aquisição de locomotivas e vagões, além de recursos para obras de infraestrutura e resolução de conflitos urbanos. O pacote poderia movimentar cerca de R$ 30 bilhões e aumentar em 46% a movimentação de cargas da ferrovia.

Os investimentos já vêm ocorrendo mesmo antes da conclusão de algumas dessas renovações. A VLI, por exemplo, captou R$ 1 bilhão em 2025 para novos investimentos na FCA, destinados à modernização da via permanente, construção e ampliação de pátios e atualização do material rodante. A companhia informou ainda que já havia investido mais de R$ 14 bilhões na ferrovia desde sua criação, em valores corrigidos.

Rumo e MRS também avançaram em programas de expansão e modernização. A Rumo investiu R$ 5,5 bilhões em 2024 na infraestrutura ferroviária, com recursos destinados, entre outros projetos, à expansão da Ferrovia de Mato Grosso e à modernização da Malha Paulista. Já a MRS investiu R$ 1,8 bilhão em 2023 e, em 2025, elevou os aportes para R$ 3,4 bilhões, direcionados à modernização da malha, ampliação de pátios e aquisição de equipamentos.

A necessidade de investimentos, contudo, permanece elevada. Em agosto de 2026, levantamento da Confederação Nacional do Transporte (CNT) mostrou que as ferrovias concentram cerca de R$ 1,1 trilhão dos R$ 2 trilhões em investimentos considerados prioritários para a infraestrutura de transporte brasileira. O Plano CNT de Transporte e Logística 2026 reúne 2.837 projetos, e mais da metade dos recursos previstos está direcionada ao setor ferroviário.

Aeroviário também recua

O transporte aéreo também perdeu espaço na composição dos investimentos em infraestrutura logística. A participação do modal caiu de 18% em 2017 para 15% em 2021, chegando a 11% em 2025. Com isso, o aeroviário perdeu sete pontos percentuais ao longo do período e passou a representar pouco mais de um décimo dos investimentos.

A redução deve ser observada considerando as características próprias do modal, que atende principalmente cargas de maior valor agregado, produtos urgentes e operações nas quais o tempo de transporte é determinante. Por isso, a evolução dos investimentos não pode ser analisada apenas pelo percentual destinado a cada segmento, mas também pela função que cada modal exerce dentro da cadeia logística.

Investimento total ainda é baixo

Apesar da recuperação registrada em 2025, o volume total de investimentos em infraestrutura logística continua baixo em relação às necessidades do país. Os recursos passaram de 0,37% do PIB em 2017 para 0,42% em 2025, depois de atingirem apenas 0,27% em 2021. O aumento mostra uma melhora em relação ao período anterior, mas ainda deixa os investimentos em um patamar limitado diante da dimensão da infraestrutura necessária para atender à produção brasileira e reduzir os gargalos existentes.

Segundo análise do ILOS, a mudança revela uma carteira de investimentos mais diversificada, mas não significa que o Brasil tenha resolvido seus principais problemas de infraestrutura. A expansão dos diferentes modais exige recursos para novos projetos, mas também para manutenção, modernização e aumento de capacidade da infraestrutura existente.

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