A eletrificação das entregas começa a superar uma das principais barreiras para ganhar escala na logística: o custo. O Mercado Livre afirma que 2026 é o primeiro ano em que já encontra veículos elétricos economicamente mais competitivos do que modelos equivalentes a combustão em determinadas operações.
“Hoje já temos uma condição de mercado e de competitividade que era projetada para 2030. Para o Mercado Livre, 2026 é o primeiro ano em que temos elétricos mais competitivos do que combustão”, afirmou Rodrigo de Mello Brito, head de Sustentabilidade Ambiental para a América Latina do Mercado Livre, durante o Fórum ILOS 2026, em São Paulo.
A companhia opera atualmente com 17,5 mil veículos de baixas emissões na América Latina, considerando elétricos, etanol e biometano. Desse total, 4,5 mil são elétricos e realizam entregas pelo menos semanalmente.
A escala já se reflete na operação. Segundo dados apresentados pelo executivo, 15,9% das entregas da companhia são realizadas com veículos de baixas emissões, o equivalente a 218 milhões de pacotes e 2,3 milhões de rotas.
Sustentabilidade precisa fechar a conta
A mudança de estágio da eletrificação veio depois de anos de testes com diferentes fabricantes, modelos e fornecedores. Segundo Brito, a experiência mostrou que não é possível generalizar o desempenho dos veículos elétricos: alguns já apresentam performance e custos equivalentes ou melhores que os modelos a combustão, enquanto outros ainda não atendem às necessidades da operação.
A estratégia passou, portanto, a olhar cada aplicação individualmente, considerando veículo, rota, transportador e modelo operacional.
Para o Mercado Livre, sustentabilidade também não pode significar aumento permanente do custo logístico. “A sustentabilidade para a gente não é o critério número um. A gente tem que ter preço igual ou menor, o mesmo serviço de operação e qualidade e, aí, prioriza o que é mais sustentável. Não é pagar o premium, porque, senão, não é escalável”, afirmou Brito.
A análise econômica também deixou de considerar apenas o preço de aquisição ou aluguel do veículo. O cálculo passou a levar em conta o custo total da operação, o TCO (Total Cost of Ownership), que inclui energia ou combustível, manutenção e utilização do ativo.
Parceria avança da locação para solução completa
A expansão dos elétricos no Mercado Livre também passa pela parceria com a EVMOB, empresa especializada em soluções de eletrificação de frotas e responsável por parte dos veículos utilizados pelos operadores logísticos da companhia. Além da locação, a empresa atua no dimensionamento da operação, manutenção, gestão da frota e infraestrutura de recarga.
A relação começou em 2024, quando a EVMOB fechou seu primeiro contrato com o Mercado Livre, inicialmente com 264 veículos elétricos. Na primeira fase, o projeto estava concentrado no fornecimento dos veículos, manutenção e gestão da frota e alcançou disponibilidade média de 96%.
Em 2026, a parceria entrou em uma nova etapa, com a incorporação de mais 250 unidades, elevando para 514 o número de veículos elétricos atendidos pelo projeto. O escopo também foi ampliado e passou a incluir infraestrutura de recarga e gestão completa da frota, com disponibilidade garantida acima de 95%.
A mudança é relevante porque mostra que a expansão da eletrificação depende de uma estrutura que vai além do próprio veículo. Para ganhar escala, é necessário garantir recarga, manutenção, peças, treinamento dos motoristas e disponibilidade suficiente para que a tecnologia não comprometa a produtividade da operação.
Lucas Zanon Arantes, CEO da EVMOB, afirmou que a ampliação do contrato ocorreu depois que a solução passou a entregar não apenas disponibilidade operacional, mas também vantagem econômica ao Mercado Livre.
“Construímos uma solução reconhecida pelo Mercado Livre como mais econômica. O que determina essa vantagem não é apenas o valor do aluguel, mas o custo total da operação”, afirmou.
A infraestrutura de recarga é instalada de forma regionalizada junto aos operadores logísticos. A proposta é que caminhões e vans retornem das rotas, sejam carregados durante o período de parada e estejam novamente disponíveis no dia seguinte.
A gestão do veículo também entra na equação. Segundo Arantes, a forma de condução pode provocar uma diferença de 30% a 40% no consumo de energia de um elétrico, o que torna o treinamento dos motoristas parte relevante da eficiência da operação.
Elétrico na primeira e última milhas
A estratégia do Mercado Livre, no entanto, não prevê uma migração integral da frota para a eletricidade. A companhia trabalha com diferentes tecnologias de acordo com distância, perfil da rota e disponibilidade de infraestrutura. Na América Latina, a principal aposta para as operações de first mile e last mile são os elétricos, enquanto o biometano ganha espaço principalmente no middle mile.
No Brasil, o Mercado Livre também vem acelerando o uso de biometano em veículos pesados. Os caminhões elétricos começam a ganhar espaço principalmente em operações com trajetos conhecidos e previsíveis. Rotas fechadas entre centros de distribuição, operações intralogísticas, portuárias ou industriais permitem dimensionar previamente a infraestrutura de recarga.
Arantes cita como exemplo uma transferência entre Cajamar e Campinas, na Grande São Paulo e interior paulista, na qual seria possível instalar pontos de recarga nas duas extremidades e garantir a continuidade da operação.
O cenário é diferente no transporte rodoviário de longa distância, principalmente em trajetos variáveis. Nesse caso, a ausência de uma rede de recarga com capilaridade suficiente ainda restringe a utilização dos elétricos.
Escala substitui projetos-piloto
Para o Mercado Livre, a nova etapa da descarbonização logística passa justamente pela ampliação de escala. “Não queremos fazer um piloto de 20 veículos para tirar foto e colocar no relatório. Queremos usar essa escala para acelerar essas mudanças e viabilizar aquilo que seja de menor emissão”, afirmou Brito.
A estratégia também vai além da motorização. A empresa afirma que 100% da frota fixa já utiliza telemetria e otimização de rotas, enquanto 21,4% dos produtos são enviados na embalagem original, dispensando uma embalagem adicional.
A lógica é reduzir quilômetros improdutivos, aumentar a ocupação dos veículos e evitar transportar volume desnecessário.
Com a combinação entre escala, eficiência operacional e redução do custo total, a eletrificação começa, assim, a assumir outro papel na logística do Mercado Livre: deixa de ser apenas uma alternativa para reduzir emissões e passa a disputar espaço com a combustão também pela eficiência econômica.
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