A Scania está reforçando sua estrutura de pós-venda no Brasil em um momento de transformação do mercado de caminhões. Conforme revelou anteriormente à Exame, a montadora investirá R$ 78,4 milhões na ampliação do Logistics Parts Center (LPC), em Vinhedo (SP). O valor final ficou acima dos R$ 65 milhões anunciados pela empresa em 2023. Segundo a Scania, a diferença se deve a ajustes no projeto, à inclusão de equipamentos e porta-pallets e à atualização dos preços dos materiais ao longo da execução da obra.
Em entrevista à Agência Transporte Moderno, Christopher Podgorski, CEO da Scania América Latina, detalhou os efeitos do aporte. A expansão aumentará em 62% a área de armazenagem do centro, de 15 mil para 24,4 mil metros quadrados, e permitirá concentrar no mesmo espaço as operações de recebimento e preparação de peças.
O centro passará a ter mais de 40 mil itens em estoque e abastecerá mais de 250 pontos de atendimento no Brasil, além de operações na Bélgica, na África do Sul, quatro unidades de negócio da Scania na América do Sul e outros 14 mercados independentes.
Ao todo, o LPC dá suporte a uma frota de aproximadamente 200 mil veículos em circulação no Brasil, Chile, Colômbia, Peru e Argentina. A operação movimenta mais de mil toneladas de peças por mês — cerca de 560 toneladas destinadas ao mercado brasileiro e 440 toneladas para exportação.
É nesse contexto que a estrutura de pós-venda ganha importância estratégica para a Scania. Em um mercado que recebe novas marcas e amplia a competição pelo transportador, a capacidade de manter o caminhão em operação pode se transformar em uma vantagem competitiva.
Segundo o executivo, a chegada de novos concorrentes reforça a importância de diferenciais como disponibilidade de peças, estrutura de serviços e capilaridade da rede. “Esses fatores somados são decisivos para o cliente, que busca segurança, confiabilidade e menor tempo de caminhão parado”, diz.
Pós-venda entra na disputa
A avaliação do CEO da Scania encontra respaldo na análise do consultor e sócio-fundador da Boschi Inteligência de Mercado (BIM³), Gregori Boschi. Segundo ele, as fabricantes tradicionais vêm fortalecendo suas posições por meio de serviços conectados. “As plataformas reduzem o custo operacional e fidelizam o transportador. É uma proteção importante contra o avanço das chinesas”, afirmou.
Em análise publicada pela Transporte Moderno em abril, Boschi havia apontado que o desafio das novas entrantes não seria apenas oferecer caminhões com preços competitivos. Para ganhar participação de forma sustentável, as marcas precisariam construir redes de concessionárias, estruturar o pós-venda e oferecer serviços capazes de reduzir o custo operacional dos clientes.
O movimento já pode ser observado no setor. À medida que novas fabricantes ampliam sua presença no Brasil, a disputa passa a envolver também disponibilidade de peças, suporte técnico, conectividade e capacidade de atendimento.
Menos tempo de caminhão parado
Para o transportador, o valor de uma estrutura como a de Vinhedo está na velocidade com que uma peça chega quando um veículo precisa de manutenção. A Scania afirma que já consegue entregar peças urgentes em até 24 horas. Com a expansão, pretende reforçar esse fluxo e ampliar a disponibilidade de itens estratégicos no estoque do LPC.
“Nosso objetivo é reduzir ao máximo o tempo de caminhão parado”, afirma Podgorski. A expansão também fortalece o papel do Brasil como fornecedor regional. Segundo o executivo, o LPC terá maior capacidade para disponibilizar peças que hoje, em alguns casos, precisam ser importadas da Europa para abastecer unidades de negócio da Scania na América Latina.
Com mais estoque regional, a empresa reduz etapas da cadeia logística e aumenta a capacidade de resposta às demandas da rede.
Investimento de R$ 110 milhões na rede
O investimento em Vinhedo faz parte de uma estratégia mais ampla de reforço dos serviços. Segundo Podgorski, a Scania investirá R$ 110 milhões na rede de concessionárias entre 2025 e 2026. Somente em 2026, serão 26 novos pontos de atendimento no país. A marca já conta com mais de 250 pontos e afirma ter cobertura de 100% do território nacional.
A expansão da rede complementa o investimento em peças ao aproximar a estrutura de serviços dos clientes. “Não basta entregarmos um produto premium ao cliente”, afirma Podgorski. “Em um cenário de acirrada concorrência como estamos acompanhando, é fundamental ampliarmos e fortalecermos a nossa rede de concessionárias visando um atendimento de qualidade em serviços.”
O movimento está inserido em um ciclo mais amplo de investimentos da Scania no Brasil. Entre 2016 e 2028, serão R$ 2 bilhões destinados à modernização do polo industrial e à introdução de novas tecnologias, como gás, biometano e eletrificação.
A expansão do pós-venda acontece enquanto BYD, Foton, JAC Motors, Sany, XCMG, Higer e Sinotruk ampliam sua presença ou preparam novos movimentos no mercado brasileiro. A Scania não afirma que o investimento de R$ 78 milhões em Vinhedo tenha sido provocado pela chegada desses concorrentes. Mas Podgorski reconhece que o novo ambiente competitivo aumenta a importância de serviços, peças e rede.
“Acreditamos que a entrada dos concorrentes pressionará todas as montadoras a investir mais em serviços”, afirma. Para a Scania, a resposta passa por uma combinação de disponibilidade de peças, capilaridade da rede, tecnologia, estrutura industrial e conhecimento acumulado no mercado brasileiro.
A empresa também aposta na experiência construída em quase 70 anos no país, na estrutura de pesquisa e desenvolvimento e na capacidade de adaptar suas soluções às características da operação brasileira. “Esses fatores somados são decisivos para o cliente, que busca segurança, confiabilidade e menor tempo de caminhão parado”, afirma o executivo.
Na prática, a disputa pode ganhar uma dimensão além do preço do caminhão. Para o transportador, a disponibilidade do veículo ao longo de sua vida útil pode pesar na decisão de compra e na escolha da marca.
Pós-venda ganha peso com novas tecnologias
A transformação tecnológica dos caminhões também aumenta a importância dessa estrutura. A Scania já trabalha com veículos a diesel e movidos a gás e biometano e se prepara para ampliar sua atuação em eletrificação. Nesse cenário, a estrutura de peças e serviços precisa acompanhar a mudança tecnológica.
“O serviço é cada vez mais estratégico em um cenário de transformação tecnológica”, afirma Podgorski. Segundo ele, a Scania precisa de uma estrutura de peças e serviços “mais ágil, digital e integrada”. A empresa também prepara sua rede para atender aos veículos elétricos.
Além de garantir a disponibilidade de peças para a frota já instalada, a estrutura de pós-venda terá de acompanhar a chegada de novas tecnologias e as diferentes necessidades de atendimento.
O investimento em Vinhedo faz parte de um plano maior da Scania no Brasil. Entre 2016 e 2028, a montadora prevê R$ 6 bilhões para a modernização do polo industrial brasileiro e a introdução de novas tecnologias, incluindo gás, biometano e eletrificação.
Segundo Podgorski, a empresa também vem investindo em logística, digitalização e economia circular e continuará ampliando sua estrutura no país.
A expansão do LPC, portanto, reforça uma operação que atende uma frota de aproximadamente 200 mil veículos em cinco mercados da América Latina, mantém mais de 40 mil itens em estoque e abastece mais de 250 pontos de atendimento no Brasil.
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