O uso do hidrogênio como alternativa para descarbonizar o transporte aquaviário começa a ganhar espaço no Brasil, mas ainda enfrenta um obstáculo decisivo para sua expansão: a infraestrutura de produção e abastecimento do combustível.
A avaliação é dos responsáveis pelo Projeto JAQ Hidrogênio Verde, desenvolvido pelo Grupo Náutica em parceria com a GWM Hydrogen-FTXT, cuja embarcação experimental JAQ H1 iniciou em Itajaí (SC) a fase de comissionamento. A etapa inclui o primeiro abastecimento com hidrogênio, a ativação das células a combustível e a validação integrada dos sistemas de propulsão e segurança antes do início das navegações experimentais.
O comissionamento deverá durar cerca de 15 dias e mobilizar aproximadamente 20 profissionais, entre engenheiros brasileiros e chineses da GWM Hydrogen-FTXT, responsáveis pelo abastecimento dos tanques, calibração das células a combustível, integração dos sistemas e validação dos protocolos de segurança.
Com 36 metros de comprimento, o JAQ H1 integra o Projeto JAQ Hidrogênio Verde, idealizado por Ernani Paciornik, presidente do Grupo Náutica. Concebida como uma plataforma flutuante de pesquisa, inovação e educação ambiental, a embarcação foi desenvolvida para demonstrar, em condições reais de navegação, diferentes aplicações do hidrogênio no transporte marítimo. Diferentemente de iniciativas voltadas ao transporte comercial, o projeto busca acelerar o desenvolvimento de tecnologias de descarbonização e apoiar pesquisas sobre combustíveis de baixa emissão.
Segundo os desenvolvedores, o JAQ H1 está entre as primeiras embarcações brasileiras concebidas exclusivamente para pesquisa e desenvolvimento de tecnologias baseadas em hidrogênio. Além do sistema de propulsão, o combustível será utilizado para alimentar toda a chamada carga de hotelaria da embarcação, incluindo ar-condicionado, iluminação, geladeiras e demais sistemas de apoio e conforto a bordo. O projeto também incorpora um auditório destinado à realização de palestras, encontros técnicos, apresentação de pesquisas e atividades de formação, aproximando universidades, pesquisadores, empresas e instituições interessadas no desenvolvimento de soluções de baixo carbono.
Após a conclusão dos testes, o JAQ H1 não realizará operações comerciais. A embarcação permanecerá dedicada a pesquisas, demonstrações tecnológicas e iniciativas voltadas ao desenvolvimento de aplicações do hidrogênio na navegação.

Principal desafio
Se os primeiros esforços estavam concentrados na validação dos sistemas embarcados, agora o principal desafio passa a ser a criação de uma infraestrutura capaz de produzir, distribuir e abastecer hidrogênio em escala para atender futuras aplicações na navegação.
Segundo os desenvolvedores, hoje, o maior obstáculo é a implantação de novos pontos de produção e abastecimento de hidrogênio. Alguns portos brasileiros já contam com iniciativas de produção de hidrogênio, enquanto novos projetos estão em desenvolvimento. Ainda assim, o abastecimento permanece restrito e, na maioria dos casos, precisa ser estruturado especificamente para cada operação.
O custo também continua sendo um fator limitante. O hidrogênio de baixo carbono ainda apresenta preço superior ao dos combustíveis convencionais, reflexo da oferta reduzida e da infraestrutura incipiente. A expectativa, entretanto, é de que esse cenário mude à medida que novas plantas de produção entrem em operação e ampliem a disponibilidade do combustível.
Apesar do custo elevado, o hidrogênio apresenta elevada densidade energética por unidade de massa — superior à do diesel e da gasolina — característica que o torna uma alternativa promissora para aplicações de transporte. Por outro lado, sua baixa densidade por volume exige sistemas específicos de compressão ou liquefação para armazenamento, um dos principais desafios tecnológicos para a expansão dessa fonte de energia.
Busca por combustíveis alternativos
A Organização Marítima Internacional (IMO) vem endurecendo as metas de redução das emissões de gases de efeito estufa, levando armadores, estaleiros e fabricantes a acelerar o desenvolvimento de embarcações movidas por combustíveis alternativos, como hidrogênio, metanol, amônia e biocombustíveis.
Nesse cenário, o hidrogênio é apontado como uma das rotas tecnológicas mais promissoras para a descarbonização do transporte marítimo, especialmente quando produzido a partir de fontes renováveis. No entanto, especialistas avaliam que sua adoção em larga escala dependerá da expansão da infraestrutura logística, da redução dos custos de produção e da consolidação de uma cadeia de abastecimento capaz de atender às demandas do setor.
A iniciativa já tem desdobramentos previstos. Os responsáveis pelo projeto confirmam o desenvolvimento do JAQ H2, embarcação de aproximadamente 50 metros que deverá representar uma nova etapa da pesquisa brasileira em hidrogênio.
O projeto prevê a instalação de um eletrolisador e de um sistema de dessalinização capazes de utilizar a água do mar para produzir hidrogênio a bordo. Na prática, a embarcação passaria a funcionar não apenas como meio de transporte, mas também como plataforma de geração, armazenamento e utilização de energia limpa. A tecnologia poderá reduzir a dependência da infraestrutura terrestre de abastecimento, hoje considerada o principal entrave para ampliar o uso do hidrogênio na navegação brasileira.
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