Tarifaço dos EUA ameaça reduzir cargas nos portos brasileiros

CNT estima impacto de US$ 11 bilhões e prevê menor fluxo de manufaturados, pressão sobre fretes e mudança de rotas; entenda

Valeria Bursztein

A tarifa adicional de 25% aplicada pelos Estados Unidos sobre parte das importações brasileiras deve produzir efeitos que vão além da queda nas vendas externas. A medida poderá atingir aproximadamente US$ 11 bilhões em exportações, o equivalente a 26,2% de tudo o que o Brasil comercializa com o mercado norte-americano, com possíveis reflexos sobre o transporte rodoviário, a armazenagem, os terminais portuários e a navegação de longo curso.

A estimativa consta do Boletim de Conjuntura Econômica de julho da Confederação Nacional do Transporte (CNT). Segundo a entidade, a sobretaxa concentra seus efeitos sobre produtos manufaturados e semimanufaturados, justamente as cargas que mobilizam cadeias logísticas mais extensas e operações com maior participação de contêineres e carga geral.

Entre os segmentos mais expostos estão madeira, minerais não metálicos, produtos químicos, alimentos industrializados, veículos automotores, celulose, papel, máquinas e equipamentos. Antes de chegar aos navios, essas mercadorias percorrem diferentes etapas, envolvendo o transporte entre fábricas e centros de consolidação, recintos alfandegados, terminais retroportuários e portos.

A redução das encomendas dos Estados Unidos, portanto, tende a diminuir não apenas o valor exportado, mas também a demanda por fretes terrestres, armazenagem, despacho aduaneiro e movimentação portuária.

Carga industrial fica mais exposta

O impacto não deverá ser distribuído de maneira uniforme entre os diferentes fluxos de exportação. Café, suco de laranja, carnes, petróleo, minérios, fertilizantes, aeronaves e diversos produtos da cadeia aeronáutica permanecem isentos, o que limita os efeitos imediatos sobre parte do agronegócio e sobre algumas cargas de grande volume.

A maior pressão deve se concentrar nos corredores utilizados pela indústria de transformação, especialmente nas regiões Sudeste e Sul. Estudos sobre a relação comercial com os Estados Unidos já apontavam São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio Grande do Sul entre os estados brasileiros com maior exposição àquele mercado.

Portos no radar

Esse perfil coloca no radar portos que operam volumes relevantes de contêineres, celulose, produtos siderúrgicos, veículos, máquinas e carga geral. O Porto de Santos, principal complexo portuário do país, conecta mais de 600 destinos e movimenta mercadorias provenientes de todas as regiões brasileiras. Os Estados Unidos figuram entre os seus principais parceiros comerciais.

Terminais de Santa Catarina também mantêm serviços regulares com portos norte-americanos. Em janeiro, por exemplo, a Portonave anunciou uma nova linha semanal entre as Américas, com escalas nos Estados Unidos, México, Caribe, Brasil, Argentina e Uruguai, ampliando as opções para exportadores da Região Sul. Uma retração das cargas brasileiras poderá afetar a ocupação desses serviços ou exigir ajustes na composição dos embarques.

Isso não significa necessariamente que todos os volumes deixarão de ser transportados. Parte das empresas poderá redirecionar produtos para outros compradores, mas essa substituição não ocorre de forma automática. Novos mercados exigem negociação comercial, adequação de produtos, certificações, contratos de transporte e disponibilidade de rotas marítimas.

Menos carga ou mudança de destino

A primeira consequência esperada é a redução do fluxo bilateral. Com a sobretaxa, os produtos brasileiros ficam mais caros para o importador norte-americano, perdem competitividade diante de fornecedores de outros países e podem sofrer cancelamentos ou redução de pedidos.

Para o transporte rodoviário, isso pode representar menor quantidade de viagens entre fábricas, armazéns e terminais de embarque. Nos portos, a retração pode aparecer na forma de menos contêineres exportados, menor utilização de pátios e redução da procura por serviços de armazenagem e apoio aduaneiro.

Em um segundo momento, entretanto, a logística poderá enfrentar um movimento de reorganização. Exportadores que conseguirem deslocar parte das vendas para a Europa, Ásia, América Latina ou Oriente Médio terão de rever rotas, escalas marítimas, prazos e custos.

Essa mudança também pode alterar a distribuição das cargas entre os portos. A escolha do terminal depende da disponibilidade de serviços marítimos para o novo destino, da frequência dos navios, dos custos terrestres e da distância entre a unidade produtiva e o ponto de embarque. Assim, uma carga antes transportada por determinado corredor poderá migrar para outra instalação com conexão mais adequada ao novo mercado. Trata-se de uma consequência provável da mudança dos destinos comerciais, e não de uma projeção quantitativa apresentada pela CNT.

Pressão sobre fretes e capacidade

Mesmo quando os produtos encontram outros compradores, a mudança de mercado pode elevar os custos logísticos. Rotas mais longas, transbordos adicionais, menor frequência de navios e necessidade de armazenar cargas por mais tempo tendem a encarecer a operação.

A redução do volume destinado aos Estados Unidos também pode afetar o equilíbrio entre importações e exportações de contêineres. Caso diminua a oferta de carga de saída em determinadas rotas, armadores e operadores poderão revisar escalas, capacidade e condições comerciais. O efeito dependerá da duração da tarifa e da capacidade dos exportadores de substituir o mercado norte-americano.

O sistema oficial Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, mostra que os Estados Unidos ocupam posição central no comércio exterior brasileiro e que a pauta bilateral possui participação relevante de bens industrializados. Historicamente, cerca de três quartos das exportações brasileiras ao país são compostas por produtos industrializados, incluindo manufaturados e semimanufaturados.

Sobretaxa a 37,5%

O cenário para os exportadores brasileiros tornou-se ainda mais desafiador após o fechamento do boletim da CNT. Além da tarifa adicional de 25% aplicada a parte das exportações brasileiras, o governo dos Estados Unidos concluiu uma segunda investigação comercial sob a Seção 301 e passou a aplicar uma tarifa adicional de 12,5% ao Brasil no âmbito de sua política de combate ao trabalho forçado. Dependendo da classificação do produto e do enquadramento nas regras do USTR, as duas medidas podem resultar em uma carga tarifária de até 37,5% para parte das mercadorias exportadas.

Para transportadoras, operadores logísticos e terminais portuários, o impacto dependerá da reação dos exportadores e da capacidade de redirecionar cargas para novos mercados. Caso parte das vendas aos Estados Unidos seja cancelada ou substituída por fornecedores de outros países, a tendência é de redução na movimentação de contêineres destinados àquele mercado e de reorganização dos fluxos logísticos brasileiros. Esse processo pode alterar a demanda por transporte rodoviário, armazenagem, serviços retroportuários e escalas marítimas, especialmente nos corredores voltados às cargas industrializadas.

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