A venda da CS Porto Aratu pela Simpar para a ICTSI Americas, subsidiária do grupo filipino International Container Terminal Services Inc. (ICTSI), por R$ 1,8 bilhão, é mais do que uma operação societária. A aquisição reforça o interesse de operadores globais por ativos logísticos ligados ao escoamento da produção agrícola do Matopiba, uma das regiões de maior expansão do agronegócio brasileiro e que demanda novas alternativas para ampliar a capacidade de exportação. O negócio ainda depende de aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e do poder concedente.
Do valor total da transação, R$ 750 milhões correspondem ao patrimônio líquido (equity value) da operação. Desse montante, R$ 650 milhões serão pagos no fechamento do negócio e R$ 100 milhões ficarão condicionados ao cumprimento de metas (earn-out) nos 18 meses seguintes. O restante corresponde à dívida líquida da companhia.
Por que Aratu ganhou valor
Embora o Porto de Santos continue concentrando a maior parte das exportações brasileiras, operadores internacionais vêm ampliando investimentos em ativos localizados próximos às novas fronteiras agrícolas.
Nesse contexto, a Baía de Aratu consolidou-se como uma alternativa logística para o escoamento da produção do oeste baiano e de parte do Matopiba, ampliando as opções de exportação de grãos, fertilizantes e outros granéis e reduzindo a dependência dos corredores tradicionais.
Com operações em dezenas de terminais distribuídos pela Ásia, Europa, Américas, África e Oceania, a ICTSI é um dos maiores operadores independentes de infraestrutura portuária do mundo. A aquisição amplia sua presença no Brasil e reforça a estratégia de expansão na América Latina, região em que o grupo vem priorizando ativos voltados ao comércio exterior e à movimentação de granéis.
Terminal multiplicou capacidade
Parte da valorização do ativo decorre da transformação promovida pela Simpar desde que assumiu a operação. Segundo a companhia, foram investidos cerca de R$ 900 milhões na modernização da infraestrutura, incluindo a construção do terminal ATU-18, a modernização do ATU-12, dragagem, instalação de novos silos e aquisição de equipamentos de movimentação.
Com os investimentos, a capacidade operacional foi ampliada em cinco vezes em quatro anos, atingindo potencial para movimentar 9,5 milhões de toneladas por ano. A estrutura passou a operar navios Panamax e foi preparada para receber embarcações Post-Panamax, ampliando sua competitividade para cargas do agronegócio e granéis minerais.
A venda também evidencia uma estratégia adotada pela Simpar de desenvolver ativos de infraestrutura, elevar sua capacidade operacional e, posteriormente, monetizá-los para reciclar capital. Segundo a empresa, a operação integra um portfólio que inclui ainda a Ciclus Rio e a Ciclus Amazônia, cujo valor combinado alcança R$ 3,9 bilhões.
De acordo com a companhia, os aportes de capital próprio na CS Porto Aratu somaram R$ 128 milhões, resultando em um múltiplo de 5,8 vezes sobre o capital investido (MOIC) em aproximadamente 3,6 anos. O Bradesco BBI assessorou financeiramente a operação.
Por que a venda importa
A compra da CS Porto Aratu ocorre em um momento de expansão da produção agrícola brasileira, que amplia a demanda por novos corredores logísticos de exportação. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima uma safra recorde de 360,1 milhões de toneladas de grãos em 2025/26, alta de 2,2% sobre o ciclo anterior, impulsionada principalmente pelo crescimento da soja e do milho.
Parte desse avanço vem justamente das novas fronteiras agrícolas do Matopiba e do oeste baiano, regiões que ampliam sua participação na produção nacional e exigem alternativas aos tradicionais corredores de exportação do Sul e Sudeste. Na Bahia, por exemplo, a safra de grãos alcançou o recorde de 12,8 milhões de toneladas em 2025, e a Conab projeta novo crescimento para 14,5 milhões de toneladas no ciclo 2025/26.
Nesse cenário, terminais como a CS Porto Aratu tornam-se ativos estratégicos para a logística do agronegócio. Além de ampliar as alternativas para o escoamento da produção agrícola, contribuem para diversificar as rotas de exportação e fortalecer corredores logísticos que ganham importância à medida que a fronteira agrícola avança.
Para operadores globais, o valor do ativo está menos no terminal em si do que na posição que ocupa dentro da nova geografia das exportações brasileiras. À medida que a produção agrícola cresce em regiões antes consideradas periféricas, a infraestrutura portuária deixa de ser apenas um elo operacional da cadeia logística e passa a representar um diferencial competitivo para empresas interessadas em participar da expansão do comércio exterior brasileiro.
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