IA passa a validar entregas e liberar pagamentos no transporte

Pesquisa mostra que empresas já exigem inteligência artificial de parceiros logísticos e operações mais eficientes

Valeria Bursztein

A inteligência artificial começa a avançar sobre uma das etapas mais manuais e críticas da logística: a validação da execução operacional. Depois de ganhar espaço em atividades como roteirização, previsão de demanda e atendimento ao cliente, a tecnologia passa a ser utilizada para conferir entregas, validar comprovantes e até autorizar pagamentos automaticamente, aproximando-se do núcleo das operações de transporte e distribuição.

O movimento ocorre no ritmo da aceitação da tecnologia pelo mercado. Levantamento “Na Rota do E-commerce”, realizado pela empresa brasileira de tecnologia logística Loggi em parceria com a Opinion Box, mostra que 93% dos empreendedores brasileiros confiam no uso da inteligência artificial para tornar as operações logísticas mais eficientes.

Mais do que isso, a tecnologia começa a influenciar a própria escolha dos fornecedores. Segundo a pesquisa, 33% dos empreendedores consideram muito importante que seus parceiros logísticos utilizem inteligência artificial, enquanto cerca de 50% classificam esse fator como moderadamente relevante, transformando a digitalização em um novo diferencial competitivo no setor.

“A logística tem um papel cada vez mais estratégico para o crescimento do e-commerce, e a inteligência artificial é um dos principais impulsionadores dessa transformação. O diferencial está em integrar a IA de forma inteligente à jornada logística, gerando impacto real no negócio”, afirma Juliana Fracchia, diretora-executiva de Receitas e Clientes da Loggi.

Supervisão humana permanece

Apesar do avanço da tecnologia, a substituição completa da supervisão humana ainda parece distante. A pesquisa mostra que apenas 13% dos empreendedores afirmam confiar plenamente na inteligência artificial, enquanto 47% defendem a validação humana das decisões e outros 33% enxergam a tecnologia principalmente como ferramenta de apoio à operação.

Os números sugerem que a logística caminha para um modelo híbrido, no qual algoritmos assumem tarefas repetitivas e de alto volume, enquanto profissionais permanecem responsáveis pela análise de exceções, supervisão e tomada de decisão.

A pesquisa também revela uma mudança importante no perfil de utilização da inteligência artificial pelas empresas. A redução de erros aparece como principal aplicação potencial da tecnologia para 50% dos empreendedores, seguida pelo atendimento pós-venda (38%), organização de pedidos (35%), controle de estoque (33%) e previsão de demanda (33%).

Ao mesmo tempo, o comércio eletrônico ainda utiliza a IA predominantemente em funções ligadas a marketing e relacionamento com clientes. Entre os entrevistados, 44% afirmam utilizar a tecnologia para criar ou melhorar descrições de produtos, 32% para geração de títulos e anúncios e 27% para automatizar o atendimento.

A diferença sugere que, enquanto o e-commerce ainda explora a inteligência artificial de forma mais tática, a logística começa a direcionar a tecnologia para atividades diretamente relacionadas à produtividade, rastreabilidade e eficiência operacional.

Da auditoria à execução

A Alfa Transportes oferece um exemplo dessa transição. A companhia, que opera cerca de 2 mil veículos e realiza aproximadamente 400 mil entregas mensais em todo o país, substituiu a auditoria manual dos comprovantes de entrega por um sistema baseado em inteligência artificial desenvolvido pela uMov.me.

Antes da implantação, cada comprovante precisava ser fotografado, enviado e analisado manualmente por equipes administrativas. “Chegamos a verificar cerca de 400 mil comprovantes por mês, todos manualmente”, afirma Renan Carlos de Oliveira Moraes, gerente de TI da Alfa Transportes.

A solução passou a validar automaticamente informações como assinatura, identificação do recebedor e data da entrega ainda durante a operação em campo. Caso a imagem esteja ilegível ou incompleta, o sistema solicita imediatamente uma nova captura ao motorista, eliminando erros antes que eles avancem para as etapas administrativas e financeiras. Segundo a empresa, apenas cerca de 1% dos comprovantes ainda exigem revisão manual.

Pagamento condicionado

Os impactos ultrapassaram a redução de tarefas administrativas. De acordo com Gilson Santin, gerente de Faturamento e Cobrança da Alfa Transportes, parte das operações da companhia é realizada por parceiros remunerados conforme a execução das entregas.

“Agora, a comissão do entregador só é gerada depois que a inteligência artificial valida o comprovante. Assim temos certeza de que estamos pagando pelo que realmente foi entregue”, afirma.

Segundo a uMov.me, empresa gaúcha especializada em gestão de serviços de campo com inteligência artificial, a automatização permitiu eliminar aproximadamente 4 mil horas mensais de atividades relacionadas à conferência documental, além de reduzir retrabalho e aumentar a confiabilidade dos registros operacionais.

A experiência da Alfa também ajuda a ilustrar como a inteligência artificial está alterando a natureza das atividades administrativas na logística. Embora a validação automatizada tenha eliminado milhares de horas de conferência manual, a supervisão humana continua necessária para tratar exceções, inconsistências e situações fora do padrão operacional.

Na prática, a tecnologia deixa de substituir profissionais e passa a assumir tarefas repetitivas e de baixo valor agregado, liberando equipes para atividades analíticas e de gestão. O próprio fato de cerca de 1% dos comprovantes ainda exigirem revisão humana demonstra que, ao menos no estágio atual de maturidade da tecnologia, a inteligência artificial funciona mais como complemento do que como substituta da tomada de decisão.

IA deixa de ser promessa

Para Alexandre Trevisan, CEO da uMov.me, o principal avanço não está apenas na automação, mas na capacidade de transformar evidências operacionais em dados estruturados e utilizáveis pela gestão.

“Quando falamos de operações com centenas de milhares de registros por mês, pequenos ganhos de eficiência geram impactos enormes. A inteligência artificial deixa de ser uma promessa e passa a ser uma ferramenta concreta de transformação operacional”, afirma.

O caso da Alfa ajuda a ilustrar uma mudança mais ampla em curso no setor. Em vez de apenas automatizar tarefas, a inteligência artificial começa a ser utilizada para eliminar erros, validar processos e aumentar a confiabilidade da execução operacional — justamente a principal demanda identificada pelos empreendedores brasileiros na pesquisa da Loggi.

Para uma atividade historicamente dependente de controles manuais e auditorias posteriores, a tecnologia começa a migrar do discurso corporativo para o centro das operações logísticas.

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