O avanço do consumo digital nas periferias brasileiras está criando uma nova fronteira para a logística urbana. Pesquisas do Instituto Data Favela mostram que seis em cada dez moradores de comunidades já realizam compras online, indicando que o desafio deixou de ser o acesso ao ambiente digital e passou a ser o acesso à entrega.
Com cerca de 17 milhões de moradores e um mercado que movimenta aproximadamente R$ 300 bilhões por ano — valor superior ao Produto Interno Bruto (PIB) de diversos países da América Latina —, favelas e comunidades passaram a exigir soluções específicas para um dos principais gargalos do comércio eletrônico: a entrega da última milha.
Levantamento do Instituto Locomotiva mostra que sete em cada dez moradores desses territórios já desistiram de uma compra online devido a dificuldades relacionadas à entrega, como restrições de cobertura, prazos elevados ou impossibilidade de atendimento em determinados endereços.
O dado ajuda a dimensionar um dos principais entraves à expansão do comércio eletrônico no país e explica o surgimento de um novo nicho dentro da logística urbana: a distribuição em regiões historicamente pouco atendidas pelas redes tradicionais.
Quando o CEP deixa de funcionar
Apesar da relevância econômica, a distribuição nessas regiões ainda enfrenta obstáculos operacionais importantes, como endereçamento incompleto, baixa precisão de CEPs, restrições de acesso e elevados índices de insucesso na primeira tentativa de entrega. Na prática, isso se traduz em custos logísticos superiores aos observados em áreas urbanas convencionais e menor cobertura das redes tradicionais de distribuição.
Para superar essas limitações, operadores especializados vêm adotando tecnologias de georreferenciamento, endereçamento digital e inteligência territorial, criando uma espécie de infraestrutura logística complementar baseada em dados, localização e conhecimento do território.
Em vez de depender exclusivamente dos sistemas tradicionais de endereçamento, essas operações utilizam coordenadas geográficas, pontos de referência locais, aplicativos próprios e conhecimento territorial para aumentar a precisão das entregas.
Outro modelo que vem ganhando espaço é a utilização de entregadores residentes nas próprias comunidades, capazes de navegar por vielas, acessos e mudanças frequentes na configuração urbana que muitas vezes não aparecem nos sistemas convencionais de roteirização.
Nova infraestrutura logística
De olho nesse mercado, a logtech carioca naPorta abriu sua terceira rodada de investimentos para acelerar a expansão da operação. A empresa é especialista na chamada “logística periférica” e conecta marketplaces, varejistas e operadores logísticos a consumidores localizados em favelas, comunidades e regiões com restrições de entrega.
Nos últimos quatro anos, a naPorta afirma ter multiplicado sua operação em mais de 50 vezes, ultrapassando 7 milhões de entregas e expandindo sua presença para mais de 6 mil localidades em todo o país.
O modelo da empresa utiliza sistemas próprios integrados em uma plataforma de Logistics as a Service (LaaS), incluindo torre de controle, aplicativos para entregadores, central de atendimento e ferramentas de gestão de coletas e distribuição. Atualmente, mais de 300 entregadores atuam diariamente na operação. Desde a criação da companhia, mais de R$ 9 milhões já foram repassados a parceiros logísticos.
Segundo a empresa, os recursos captados na nova rodada serão destinados principalmente à expansão territorial da operação e ao desenvolvimento de novas ferramentas tecnológicas para gestão da última milha.
O segmento também vem impulsionando o desenvolvimento de soluções específicas para a logística periférica, como torres de controle dedicadas, aplicativos de gestão da última milha, georreferenciamento de endereços e sistemas de acompanhamento em tempo real.
Na prática, operadores especializados começam a construir uma nova camada de infraestrutura logística baseada em dados, tecnologia e inteligência territorial.
A próxima fronteira da logística urbana
A demanda crescente desse contingente de consumidores tem levado marketplaces, varejistas e operadores logísticos a buscar alternativas capazes de ampliar a cobertura das entregas e reduzir índices de devolução e insucesso operacional.
Embora ainda representem uma parcela relativamente pequena do mercado total de encomendas, operadores especializados começam a ocupar uma posição estratégica ao transformar territórios antes considerados de difícil atendimento em novos mercados para o comércio eletrônico brasileiro.
Se na última década o desafio do varejo digital foi democratizar os meios de pagamento e ampliar o acesso ao comércio eletrônico, o próximo passo parece ser a democratização do acesso à entrega. Nesse contexto, a capacidade de entregar onde o CEP não chega tende a se transformar em uma das principais vantagens competitivas da logística urbana nos próximos anos.
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