Carga aérea ganha novo motor: os chips da IA

Semicondutores e equipamentos para data centers compensam a desaceleração do comércio eletrônico, sustentam a demanda global e reposicionam as principais rotas internacionais

Valeria Bursztein

A inteligência artificial assumiu o posto de principal motor de crescimento da carga aérea global. Em junho, a demanda mundial avançou 7% na comparação com o mesmo mês do ano passado, impulsionada sobretudo pelos embarques de semicondutores e equipamentos utilizados em data centers e infraestrutura computacional voltada à IA. Os dados são da consultoria Xeneta e foram divulgados originalmente pelo portal chileno Mundo Marítimo.

O movimento marca uma mudança importante no perfil da carga aérea internacional. Depois de dois anos em que o comércio eletrônico sustentou grande parte da expansão do setor, os chips e equipamentos de alto valor agregado passaram a liderar a demanda global por espaço nos porões das aeronaves.

As tarifas spot globais — utilizadas em contratos com duração de até um mês — atingiram média de US$ 3,40 por quilo em junho, alta de 38% sobre o mesmo período de 2025. Apesar disso, o ritmo de crescimento começou a perder força, após expansão de 41% registrada em maio, indicando o início de uma acomodação dos preços.

A redução das tensões no Oriente Médio, a retomada da capacidade nos grandes hubs do Golfo e a queda dos preços do querosene de aviação contribuíram para aliviar parte da pressão sobre os fretes internacionais.

Efeito IA sobre a logística global

Para a Xeneta, o principal elemento por trás da resiliência da carga aérea em 2026 é a explosão da demanda por semicondutores. As vendas globais de chips cresceram 106% em abril na comparação anual, o maior avanço desde o início da série histórica da World Semiconductor Trade Statistics, em 1986. O desempenho transformou a rota transpacífica no principal corredor de carga aérea do mundo neste ano, mesmo diante da desaceleração do comércio entre China e Estados Unidos em função das tarifas comerciais.

Embora os embarques relacionados à IA representem menos de 10% do volume total movimentado por via aérea, eles já respondem pela maior parte do crescimento do mercado. Os reflexos começam a aparecer inclusive nos indicadores macroeconômicos dos principais polos produtores de semicondutores.

Taiwan, responsável pela maior parte da produção mundial de chips avançados, registrou crescimento real de 15% no primeiro trimestre de 2026, o maior em quase cinco décadas, impulsionado pelas exportações ligadas à inteligência artificial.

Na Coreia do Sul, as duas maiores fabricantes de semicondutores passaram a representar mais da metade do valor de mercado da bolsa de Seul após praticamente dobrarem ou triplicarem de valor ao longo do ano.

E-commerce em segundo plano

Enquanto a IA ganha espaço, o comércio eletrônico começa a perder relevância como vetor de crescimento da carga aérea internacional. Segundo a Xeneta, as exportações chinesas de produtos de baixo valor e mercadorias associadas ao e-commerce recuaram 7% em maio, registrando o sexto mês consecutivo de queda.

A mudança indica uma inversão importante em relação ao período pós-pandemia, quando plataformas de comércio eletrônico impulsionaram a ocupação das aeronaves cargueiras e sustentaram os elevados níveis tarifários observados entre 2023 e 2025.

Contratos mais curtos

Outra mudança observada em 2026 é o encurtamento dos contratos no transporte aéreo internacional. No segundo trimestre, 58% dos novos contratos assinados tiveram validade inferior a três meses, ante 22% registrados um ano antes. Paralelamente, quase metade da carga mundial já está sendo negociada no mercado spot, percentual que alcançou 49% do peso tarifável global transportado.

O comportamento reflete a dificuldade de embarcadores, operadores logísticos e companhias aéreas em prever o comportamento do mercado diante da combinação entre tensões geopolíticas, mudanças tarifárias e oscilações na demanda por tecnologia.

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Apesar dos primeiros sinais de acomodação, os fretes permanecem em níveis historicamente elevados nas rotas mais ligadas à cadeia da inteligência artificial. No fim de junho, as tarifas entre Nordeste Asiático e América do Norte estavam 41% acima dos níveis observados no final de fevereiro. Já os embarques do Sudeste Asiático para a América do Norte acumulavam alta de 42% no mesmo intervalo.

Em sentido oposto, o aumento da oferta de capacidade de passageiros durante o verão no hemisfério norte ampliou o espaço disponível nos porões das aeronaves e reduziu em aproximadamente 25% as tarifas entre Europa e América do Norte em relação ao inverno boreal.

Demanda cresce acima da oferta

Enquanto os volumes transportados avançaram 7% em junho, a capacidade global cresceu apenas 3%, impulsionada principalmente pela retomada de voos anteriormente suspensos durante a crise no Oriente Médio. Como consequência, o fator dinâmico de ocupação das aeronaves subiu três pontos percentuais e alcançou 62%.

No acumulado do primeiro semestre, a demanda mundial por carga aérea registra crescimento de 4%, desempenho superior às projeções feitas pelo mercado no início do ano, quando a expectativa predominante era de desaceleração econômica e menor dinamismo do comércio internacional. A principal dúvida agora é quanto tempo durará esse novo ciclo de expansão puxado pela inteligência artificial.

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