China coloca fabricantes europeus de caminhões sob pressão com modelos elétricos

Veículos mais baratos e o domínio da tecnologia de baterias colocam fabricantes tradicionais diante de um novo cenário competitivo

Aline Feltrin

A indústria global de caminhões entrou em uma nova fase de competição. Depois de conquistarem espaço no mercado de automóveis elétricos, fabricantes chineses começam a acelerar a entrada no segmento de veículos comerciais pesados na Europa, pressionando marcas tradicionais como Volvo Trucks, Scania, Mercedes-Benz Trucks e MAN.

A movimentação é impulsionada principalmente pelos caminhões elétricos, segmento em que as empresas chinesas buscam repetir a estratégia que ajudou o país a se tornar líder mundial em veículos elétricos: escala de produção, domínio da cadeia de baterias e custos mais competitivos.

“Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a China consolidou uma posição dominante na cadeia de veículos elétricos, concentrando grande parte da produção mundial de baterias e ampliando rapidamente a adoção de caminhões elétricos.”

Seja como for, a reportagem da Reuters mostra que mais de seis fabricantes chineses de caminhões elétricos planejam ampliar suas vendas na Europa em 2026. Entre elas estão BYD, Farizon (do grupo Geely), Sany, Sinotruk e as startups Windrose e SuperPanther. A agência destaca que essas empresas chegam ao mercado europeu com modelos que podem ter preços até 30% inferiores aos equivalentes produzidos por fabricantes locais, graças à escala da indústria chinesa e à cadeia de fornecimento de baterias.

A disputa acontece em um momento em que a eletrificação dos caminhões começa a ganhar espaço no continente. Embora ainda represente uma fatia pequena do mercado total, a demanda por veículos comerciais de emissão zero cresce impulsionada por metas ambientais, incentivos e pela pressão de grandes operadores logísticos para reduzir emissões.

IAA Transportation 2026 será vitrine da nova disputa

A expansão chinesa estará refletida na próxima edição da IAA Transportation 2026, em Hannover, na Alemanha, um dos principais eventos mundiais de veículos comerciais.

Até agora, a organização da feira confirmou a participação de BYD, Dongfeng e MAXUS entre os fabricantes chineses presentes no evento. As marcas estarão ao lado de fabricantes tradicionais como Daimler Truck, Volvo Trucks, Scania, MAN, DAF e Volkswagen, em uma edição que terá como temas centrais eletrificação, conectividade, automação e novas soluções para transporte.

A presença dessas empresas chinesas em Hannover reforça uma mudança no equilíbrio competitivo do setor. A IAA, historicamente dominada pelas fabricantes europeias, passa a ser também uma vitrine para empresas asiáticas que buscam conquistar operadores de transporte e frotistas no continente.

Entre as chinesas confirmadas, a BYD é a que possui maior projeção internacional. A fabricante construiu sua liderança global em veículos elétricos apoiada em uma cadeia própria de baterias e agora amplia sua atuação para o transporte comercial.

A empresa já atua em ônibus elétricos em diversos mercados e vem avançando também em caminhões elétricos para aplicações urbanas e regionais. Na Europa, a estratégia é ampliar a presença em segmentos onde a eletrificação apresenta maior viabilidade econômica, como distribuição urbana, operações logísticas e transporte de curta distância.

A Dongfeng, um dos maiores grupos automotivos da China, também estará na IAA Transportation 2026. A empresa possui uma ampla atuação em veículos comerciais no mercado chinês e vem desenvolvendo modelos de novas energias, incluindo caminhões elétricos e soluções voltadas à redução de emissões.

A participação em Hannover coloca a marca diante dos principais operadores europeus justamente em um momento em que o continente busca alternativas para acelerar a transição energética no transporte de cargas.

A MAXUS, marca de veículos comerciais do grupo chinês SAIC Motor, completa a presença chinesa confirmada até agora na IAA 2026. A fabricante tem foco principalmente em veículos comerciais leves e médios, especialmente vans elétricas utilizadas em entregas urbanas e operações de última milha.

Embora não dispute diretamente o mercado de caminhões pesados como outras marcas chinesas, sua presença mostra que a ofensiva chinesa envolve diferentes segmentos do transporte comercial.

Velocidade chinesa desafia vantagem histórica das europeias

O avanço das marcas chinesas aumenta a pressão sobre fabricantes tradicionais, que há décadas dominam o mercado europeu de caminhões. Volvo, Scania, Mercedes-Benz e MAN investem bilhões no desenvolvimento de caminhões elétricos, mas enfrentam um novo cenário competitivo: empresas chinesas que chegam com experiência acumulada em baterias, eletrônica embarcada e produção em larga escala.

Segundo Antonio Jorge Martins, coordenador acadêmico com especialização na área automotiva da Fundação Getulio Vargas (FGV), a principal vantagem das chinesas está na capacidade de acelerar ciclos tecnológicos. “A diferença da China é a evolução tecnológica contínua. Eles transformam essa evolução em um diferencial de atuação”, afirma.

Para o professor, a verticalização da cadeia de baterias é um fator estratégico. Empresas chinesas que dominam a produção desses componentes conseguem reduzir custos e acelerar o desenvolvimento de novas soluções. “As marcas chinesas que possuem verticalização na fabricação de baterias tendem a ter, no médio e longo prazo, uma vantagem competitiva muito grande. Isso vale tanto para o mercado brasileiro quanto europeu”, diz.

Martins cita ainda o avanço das baterias como um elemento que pode ampliar essa vantagem. Segundo ele, a evolução tecnológica, incluindo novas gerações de baterias com maior durabilidade e menor necessidade de recarga, pode favorecer fabricantes que já possuem domínio dessa cadeia.

TCO ainda é a principal defesa das marcas tradicionais

Apesar da vantagem tecnológica das chinesas, as fabricantes tradicionais ainda possuem um importante diferencial: o relacionamento construído com os clientes ao longo de décadas. Segundo Martins, o argumento das marcas instaladas não está necessariamente no preço de aquisição, mas no TCO (Total Cost of Ownership, ou custo total de propriedade).

“As marcas tradicionais não entram muitas vezes em preço, mas entram em TCO. Elas avaliam o custo durante um período de dois ou três anos e acabam oferecendo um resultado mais adequado para o cliente”, explica. Esse histórico envolve rede de assistência, disponibilidade de peças, conhecimento da operação do cliente e confiabilidade da marca. Mas o professor avalia que essa vantagem não é permanente. “Nos instantes iniciais isso favorece a marca instalada. Mas, com o passar do tempo, as chinesas também vão desenvolver esse valor de TCO, porque têm velocidade maior para incorporar tecnologia e transformar inovação em produção.”

Para ele, a situação lembra o que ocorreu anteriormente com os automóveis chineses, quando havia dúvidas sobre qualidade e tecnologia. “Durante muito tempo se dizia que o produto chinês não tinha engenharia suficiente. Hoje isso se mostrou diferente. Essa mesma percepção pode mudar em relação ao TCO dos caminhões.”

Apesar das vantagens tecnológicas, as chinesas ainda enfrentam um desafio: construir relacionamento de longo prazo. Segundo Martins, uma das dificuldades está na necessidade de criar uma conexão com o cliente semelhante à construída pelas marcas tradicionais. “Em veículos pesados, ter veículos de uma mesma marca gera aprendizado, relacionamento e redução de custos. Esse elo ocorre ao longo do tempo. As marcas chinesas vão precisar criar essa relação”, diz. Outro ponto importante é a permanência no mercado. “Aquelas que vêm apenas para fazer uma venda pontual não terão sucesso. É preciso uma mentalidade de longo prazo, tanto na Europa quanto no Brasil.”

O reflexo para o mercado brasileiro

O movimento europeu encontra paralelo no Brasil. Assim como ocorre na Europa, fabricantes chineses começam a ampliar presença no segmento de veículos comerciais, principalmente em modelos elétricos e novas tecnologias de propulsão.

Na Fenatran 2026, a presença chinesa será um dos temas de atenção do setor. O evento terá marcas chinesas entre os expositores, em um mercado historicamente concentrado entre Mercedes-Benz, Volkswagen Caminhões e Ônibus, Volvo e Scania.

Para Martins, a dinâmica tende a ser semelhante à observada na Europa. “Eu vejo o mesmo quadro comparativo na União Europeia e no Brasil: de um lado, o conhecimento maior do cliente pelas marcas tradicionais; de outro, uma tecnologia mais avançada que tende a gerar vantagens no médio e longo prazo.”

A diferença é que o Brasil ainda está em uma etapa anterior da eletrificação. Enquanto a Europa acelera a adoção de caminhões elétricos por políticas ambientais e restrições de emissões, o transporte rodoviário brasileiro continua fortemente dependente do diesel.

Por isso, a disputa chinesa deve avançar primeiro em aplicações específicas, como distribuição urbana, operações industriais, mineração, portos e logística de curta distância.

A entrada das chinesas no mercado europeu mostra que a disputa global de caminhões deixou de ser apenas entre fabricantes tradicionais. O futuro do setor será definido pela combinação de tecnologia, custo, baterias, capacidade industrial e confiança do cliente.

A IAA Transportation 2026 será um dos primeiros grandes palcos onde essa nova configuração ficará evidente: fabricantes chineses e europeus lado a lado disputando o futuro do transporte comercial.

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