O programa de renovação de frota Move Brasil foi decisivo para evitar uma retração mais acentuada na movimentação de caminhões novos no país durante o primeiro semestre. A avaliação é de Danilo Guedes, presidente da ABC Cargas, uma das principais transportadoras especializadas no transporte de veículos pesados. Segundo ele, sem a linha de financiamento subsidiada, o volume transportado pela empresa poderia ter caído até 30% neste ano.
A empresa, que opera uma frota de 35 caminhões dedicada ao transporte de veículos produzidos por montadoras como Scania, Volvo e DAF, começou o ano sentindo os efeitos da combinação entre juros elevados e a paralisação temporária das fábricas. “No começo do ano tivemos uma queda muito expressiva. Janeiro e fevereiro foram meses fracos porque as montadoras estavam fechadas e os investimentos ficaram represados”, afirma.
A partir de março, porém, o cenário começou a mudar. Guedes atribui a recuperação tanto ao lançamento do Move Brasil quanto à adaptação das empresas ao ambiente de juros elevados. “Os empresários perceberam que a taxa de juros não mudaria tão cedo e que os investimentos precisavam ser feitos. O Move Brasil, com uma taxa mais atrativa, incentivou ainda mais essas compras.”
O resultado foi suficiente para compensar o desempenho fraco do início do ano. Segundo ele, a transportadora encerrou o primeiro semestre com volume equivalente ao registrado no mesmo período de 2025. “Se não fosse o Move Brasil, acredito que nosso volume teria caído cerca de 30%. No fim, conseguimos fechar o semestre praticamente igual ao ano passado.”
Juros ainda limitam investimentos
Apesar da recuperação observada neste ano, Guedes afirma que o ambiente de crédito continua sendo um dos principais entraves para novos investimentos. Segundo ele, em 2025 a empresa registrou queda de aproximadamente 10% no faturamento a partir de setembro, quando os juros elevados passaram a afetar de forma mais intensa as decisões de compra de caminhões.
Mesmo com crédito aprovado para renovar parte da frota, a transportadora decidiu adiar o investimento. “Não era o momento de comprar. Tínhamos o financiamento aprovado, mas preferimos esperar.”
Na avaliação do empresário, o país precisa oferecer condições mais competitivas para estimular a renovação da frota. “O Brasil precisa de condições melhores de financiamento. Seja um financiamento verde ou convencional, é necessário oferecer uma taxa que realmente estimule os investimentos.”
Com os recursos do Move Brasil já esgotados, a preocupação agora recai sobre o comportamento da demanda na segunda metade do ano. Ainda assim, Guedes acredita que as entregas dos caminhões já comercializados devem manter a atividade aquecida até a Fenatran, em novembro. “Os caminhões comprados agora ainda serão entregues ao longo dos próximos meses. Acho que agosto, setembro e outubro continuarão relativamente aquecidos.”
Para ele, no entanto, programas temporários não resolvem o problema estrutural do setor. O empresário defende a criação de uma política permanente de renovação de frota, que ofereça previsibilidade para transportadores e fabricantes. “Fala-se em renovação de frota há pelo menos 30 anos. O setor precisa de uma política de Estado, contínua, que dê previsibilidade para quem precisa investir. Não podemos viver apenas de programas pontuais.”
Diesel elevou custos e exigiu reajustes rápidos
Além dos desafios relacionados ao crédito, a empresa também enfrentou forte pressão sobre os custos operacionais durante o conflito entre Irã e Estados Unidos, período em que a volatilidade do preço do diesel obrigou a transportadora a revisar constantemente suas tabelas de frete. “Tinha dia em que a tabela de frete mudava da manhã para a tarde. Precisamos entender rapidamente o cenário para conseguir fazer os repasses”, relata Guedes.
Embora os preços tenham recuado parcialmente após a estabilização do mercado internacional, o combustível continua em um patamar elevado. Segundo o empresário, a suspensão temporária da cobrança de PIS/Cofins também gerou um efeito inesperado para empresas enquadradas no regime de lucro real. “Como aproveitamos créditos tributários, a isenção acabou aumentando nosso custo efetivo. Quando o imposto voltou, essa distorção foi corrigida.”
Caminhões a gás dependem de adaptação técnica
Mesmo diante desse cenário, a ABC Cargas já planeja os próximos investimentos. A intenção é iniciar a renovação da frota com caminhões movidos a gás natural, mas ainda há obstáculos técnicos que impedem a adoção imediata da tecnologia. Hoje, os 35 veículos da empresa utilizam diesel e atendem ao padrão Euro 6. Segundo Guedes, as operações internacionais realizadas pela transportadora, especialmente entre Brasil e Peru, exigem uma autonomia superior à oferecida pelas atuais configurações dos caminhões a gás. “Precisamos de um caminhão 6×2 com entre-eixos específico para transportar veículos. Essa configuração reduz a capacidade dos tanques e limita muito a autonomia.”
A empresa mantém conversas com a Scania para desenvolver uma solução adaptada à operação. Caso o projeto avance, a intenção é adquirir inicialmente cerca de seis caminhões movidos a gás. “O custo total de operação é competitivo. O desafio hoje não é econômico, mas operacional. Não podemos fazer uma viagem de milhares de quilômetros tendo que abastecer várias vezes no percurso.”
Apesar das incertezas em relação ao mercado, Guedes projeta um segundo semestre mais favorável e estima encerrar 2026 com crescimento de aproximadamente 25% no faturamento em relação ao ano anterior, impulsionado pela recuperação das entregas de caminhões ao longo dos próximos meses.
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