A América Latina tornou-se a terceira principal rota do transporte marítimo mundial em capacidade ofertada pelos armadores globais. Segundo levantamento da consultoria marítima Alphaliner, a região já responde por 14% da capacidade total implantada pelas companhias de navegação, ficando atrás apenas das rotas Extremo Oriente-Europa, que concentram quase um quarto da capacidade global, e Ásia-América do Norte, com participação de 16%.
O dado reforça a crescente relevância da região nas cadeias globais de suprimentos, impulsionada pelo aumento das exportações de commodities agrícolas, minerais e produtos energéticos, além do avanço das relações comerciais com a Ásia, especialmente a China.
Redes globais
A participação latino-americana vem crescendo em ritmo superior à média mundial nos últimos anos. Levantamentos anteriores da própria Alphaliner já indicavam forte expansão da capacidade destinada aos serviços com origem ou destino na região, reflexo do interesse crescente dos armadores pelas rotas Norte-Sul.
Na prática, esse movimento tem levado à incorporação de navios cada vez maiores nas escalas latino-americanas e acelerado investimentos em infraestrutura portuária, dragagem, ampliação de terminais e aquisição de equipamentos para movimentação de contêineres em diversos países da região.
No Brasil, portos como o de Santos, Paranaguá, Itapoá, Navegantes, Pecém e Itajaí vêm ampliando capacidade operacional para receber embarcações de maior porte e atender ao crescimento das correntes comerciais com a Ásia.
Armadores asiáticos
O estudo mostra ainda que as companhias marítimas asiáticas vêm registrando margens operacionais superiores às de seus concorrentes europeus. Uma das principais razões é a configuração de suas redes de serviços.
Enquanto os armadores europeus mantêm maior exposição às rotas com origem ou destino na Europa — impactadas pela desaceleração das exportações do continente —, os operadores asiáticos concentram capacidade em mercados ligados ao dinamismo exportador do Extremo Oriente.
A análise revela diferenças relevantes na estratégia comercial das principais transportadoras marítimas. A Ocean Network Express (ONE) e a ZIM Integrated Shipping Services são as únicas companhias entre as dez maiores do mundo cuja principal aposta está na rota transpacífica. No caso da ZIM, essa exposição representa 52% de toda a sua capacidade operacional.
Já a HMM e a Hapag-Lloyd apresentam forte concentração na rota Extremo Oriente-Europa. A HMM destina 53% de sua capacidade total a esse corredor, tornando-se uma das poucas empresas com perfil claramente predominante nessa rota.
Crise no Mar Vermelho redesenha a alocação de frota
Segundo a Alphaliner, a importância do corredor Ásia-Europa foi ampliada nos últimos anos em função da crise no Mar Vermelho. Os ataques a navios comerciais na região levaram grande parte das companhias a abandonar temporariamente o Canal de Suez e redirecionar suas embarcações pelo Cabo da Boa Esperança, no sul da África. Como consequência, as viagens tornaram-se mais longas e passaram a exigir um número maior de navios para transportar o mesmo volume de carga.
Esse fenômeno transformou a rota Extremo Oriente-Europa no principal “absorvedor” de capacidade da indústria mundial de contêineres. A própria UNCTAD estima que o redirecionamento das embarcações elevou significativamente as distâncias médias percorridas pela frota global, pressionando custos, emissões e a confiabilidade das cadeias logísticas.
O estudo também aponta um avanço da presença dos armadores na América Latina e na África. Tanto a MSC Mediterranean Shipping Company quanto a Maersk destinam aproximadamente 31% de suas frotas a essas duas regiões, percentual superior, inclusive, à capacidade alocada por ambas no comércio transpacífico.
Na direção oposta, a Yang Ming Marine Transport Corporation mantém uma estratégia fortemente concentrada na Ásia. Apenas 2% de sua capacidade está vinculada à América Latina, enquanto 91% da frota permanece dedicada às rotas Extremo Oriente-Europa, Ásia-América do Norte e ao mercado intra-asiático.
Oportunidade e desafio para os portos brasileiros
A crescente importância da América Latina representa uma oportunidade para os portos da região ampliarem participação no comércio internacional. Ao mesmo tempo, impõe desafios relacionados à capacidade de infraestrutura, conectividade terrestre, produtividade operacional e previsibilidade regulatória.
A tendência é que o fortalecimento das relações comerciais entre América Latina e Ásia continue estimulando novos serviços marítimos e maiores escalas de navios na região nos próximos anos, consolidando os portos latino-americanos como peças cada vez mais estratégicas na reorganização das cadeias globais de suprimentos.
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