Acidentes no transporte de produtos perigosos caem 4,69%, mas mortes ainda desafiam setor

Relatório da SEMIL aponta 467 ocorrências em 2025; transportadoras atribuem melhora a tecnologia e treinamento, mas registram 30 vítimas fatais no período

Aline Feltrin

A Comissão de Estudos e Prevenção de Acidentes no Transporte Rodoviário de Produtos Perigosos, vinculada à Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (SEMIL), divulgou o Relatório Anual de Ocorrências de 2025 com um sinal de melhora no desempenho da segurança viária, mas também com alertas importantes para o setor. O levantamento aponta 467 sinistros no transporte rodoviário de produtos perigosos no ano, uma queda de 4,69% em relação a 2024, quando foram registradas 490 ocorrências.

Apesar da redução, o relatório contabiliza 30 ocorrências com vítimas fatais, mantendo aceso o debate sobre o custo humano das operações que envolvem cargas de alto risco. O movimento de queda é interpretado pelo setor como resultado direto de uma transformação estrutural no modelo de operação das transportadoras especializadas. Para o presidente da Associação Brasileira de Transporte e Logística de Produtos Perigosos (ABTLP), Oswaldo Caixeta, os números refletem uma evolução consistente da cultura de segurança nas empresas, embora ainda não sejam suficientes do ponto de vista humano.

Em entrevista ao Videocast Transporte Moderno (assista aqui), Caixeta afirmou que a redução dos acidentes está diretamente ligada ao investimento contínuo das transportadoras em capacitação, tecnologia e gestão de risco, mas reforçou que “qualquer número diferente de zero é inaceitável, porque são vidas humanas e famílias impactadas.”

A leitura da ABTLP indica que a melhora dos indicadores não é casual. O setor, que reúne grandes operadores responsáveis pela maior parte do transporte de combustíveis e produtos químicos no país, passou a incorporar de forma mais intensa sistemas de monitoramento, câmeras embarcadas, videotelemetria e ferramentas de gestão de risco em tempo real. Segundo a ABTLP, cerca de 90% da frota associada já opera com câmeras internas e externas, o que não apenas contribui para a segurança operacional como também reduziu significativamente a incidência de roubos de carga em comparação aos anos anteriores.

A associação estima ainda que aproximadamente 60% dos veículos que operam no transporte de produtos perigosos no país estejam sob sua base de associados, o que permite um recorte mais preciso da evolução do setor. O relatório da comissão estadual detalha ainda a mudança no perfil das ocorrências.

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Colisões traseiras lideram registros

Em 2025, as colisões traseiras passaram a liderar os registros, respondendo por 36% dos casos. Na sequência aparecem os choques, com 15%, as colisões laterais, com 12%, e os tombamentos, com 11%. A concentração dos acidentes também apresentou variação ao longo do ano, com maior incidência entre maio e julho, período que concentrou os maiores índices de sinistros, sendo julho o mês mais crítico, com 49 ocorrências registradas.

Para a ABTLP, esse recorte reforça que parte relevante dos riscos não está exclusivamente associada à operação do caminhão ou à natureza da carga, mas também ao comportamento dos demais usuários das rodovias. “Isso chama a atenção porque demonstra que muitos dos riscos enfrentados pelas nossas operações não estão necessariamente ligados apenas ao veículo transportador ou à carga, mas também ao comportamento dos demais usuários das rodovias”, afirmou Caixeta.

A entidade avalia que essa mudança de padrão exige uma abordagem mais ampla de segurança viária, que inclua não apenas treinamento de motoristas profissionais, mas também ações de conscientização voltadas ao tráfego geral.

Outro fator considerado decisivo para a redução dos acidentes é o avanço dos programas de capacitação. A ABTLP destaca a criação e disseminação do curso de Combinação de Veículos de Carga (CVC), desenvolvido em parceria com o SEST SENAT, como um marco importante na formação de motoristas que operam veículos articulados. A iniciativa surgiu a partir da análise dos dados de ocorrências, que identificaram um número relevante de tombamentos envolvendo esse tipo de veículo. Isso mostra a necessidade de reforço técnico na condução e no entendimento dinâmico das composições maiores.

Formação de motoristas é o principal gargalo

A formação de motoristas, no entanto, segue como um dos principais gargalos do setor. No transporte de produtos perigosos, o processo de capacitação é ainda mais rigoroso, podendo levar de 60 a 90 dias mesmo para profissionais já experientes. Além de cursos obrigatórios, como o de Movimentação e Operação de Produtos Perigosos, (MOPP), as empresas exigem treinamentos adicionais, reciclagens e períodos de acompanhamento com motoristas mais experientes antes da liberação para operação solo.

Caixeta destacou que esse nível de exigência, embora essencial para a segurança, contribui para a dificuldade de reposição de mão de obra. A escassez de motoristas é, segundo ele, um problema estrutural do transporte rodoviário no Brasil, mas que se agrava no segmento de produtos perigosos pela complexidade operacional e pelo nível de responsabilidade envolvido.

O setor enfrenta ainda o envelhecimento da força de trabalho, com idade média acima de 50 anos em diferentes recortes da categoria, o que pressiona a necessidade de renovação geracional em um ambiente no qual o interesse dos jovens pela profissão vem diminuindo.

Além da formação, a ABTLP também chama atenção para o debate regulatório envolvendo a atualização de cursos obrigatórios. A discussão sobre a dispensa de reciclagem periódica do MOP é vista com cautela pela entidade, que defende a manutenção da atualização contínua dos profissionais. No entendimento do setor, mudanças constantes na legislação, nas normas técnicas e nas condições operacionais tornam a reciclagem um elemento central para evitar lacunas de conhecimento. “Quem é treinado precisa continuar sendo treinado. O conhecimento muda, as regras mudam, os riscos mudam”, disse o presidente da ABTLP.

Fortalecimento da fiscalização e da tecnologia

Do ponto de vista estrutural, a redução dos acidentes também é atribuída ao fortalecimento da fiscalização e à maior padronização das operações entre grandes transportadoras. O Brasil possui hoje cerca de 160 mil empresas registradas no transporte de produtos perigosos, segundo dados citados pela ABTLP, sendo que aproximadamente 50 mil atuam de forma mais direta nesse segmento. A entidade representa uma parcela relevante desse universo e concentra operadores de grande porte, o que contribui para índices de segurança superiores aos registrados em levantamentos oficiais mais amplos.

A diferença entre os indicadores da associação e os números gerais do país é justamente um dos pontos destacados pela ABTLP. Enquanto os dados oficiais ainda mostram oscilações e níveis elevados de ocorrências em diferentes períodos, o recorte das empresas associadas apresenta trajetória consistente de queda, o que reforça a tese de que a profissionalização e o investimento em tecnologia fazem diferença direta no desempenho de segurança.

Nesse contexto, a tecnologia aparece como eixo central da transformação do setor. A adoção de videotelemetria, monitoramento em tempo real, análise de comportamento do motorista e integração de dados operacionais tem permitido não apenas reduzir acidentes, mas também melhorar a eficiência logística e reduzir consumo de combustível e emissões. Para o setor, o avanço tecnológico é irreversível e tende a se tornar requisito mínimo de operação nos próximos anos.

A própria ABTLP avalia que o mercado caminha para um cenário em que empresas que não adotarem sistemas robustos de gestão de risco e monitoramento terão dificuldade de permanecer competitivas. Ao mesmo tempo, a entidade ressalta que a segurança no transporte de produtos perigosos não depende apenas das transportadoras, mas também de fatores externos como infraestrutura rodoviária, áreas de parada seguras e estrutura adequada para atendimento emergencial.

Embora o saldo de 2025 seja de queda no número de acidentes, o setor ainda convive com um dilema central: a evolução tecnológica e operacional tem sido capaz de reduzir riscos, mas não elimina completamente a exposição a acidentes graves, especialmente em um ambiente rodoviário heterogêneo como o brasileiro.

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