Preço do combutível de aviação leva companhias aéreas a rever rotas; entenda

Mesmo após acordo de paz no Oriente Médio, setor avalia que combustível continuará caro nos próximos meses, mantendo pressão sobre fretes e operações

Colaborou, João Mathias

O aumento dos preços do querosene de aviação (QAV), provocado pela escalada dos conflitos no Oriente Médio ao longo do primeiro semestre, continua gerando efeitos relevantes sobre o transporte aéreo de cargas no Brasil. Além do reajuste dos fretes, companhias aéreas têm recorrido à redução de frequências e ao redesenho de rotas para conter o avanço dos custos operacionais.

Segundo Marcus Quintella, diretor da FGV Transportes, a estratégia é comum em momentos de forte elevação dos combustíveis e busca elevar a ocupação das aeronaves.

“A tendência é reduzir frequências e suspender rotas menos rentáveis, concentrando as operações em mercados com maior demanda. Isso ocorre tanto no transporte de passageiros quanto no de cargas”, afirma.

O especialista destaca que o QAV representa entre 31% e 35% dos custos operacionais das companhias aéreas brasileiras, percentual superior ao observado em mercados como Europa e Estados Unidos, onde a participação varia entre 22% e 25%.

Embora o Brasil produza a maior parte do combustível consumido internamente, o preço do QAV segue a cotação internacional do petróleo e é impactado pela variação cambial. Custos logísticos de distribuição e tributos estaduais também contribuem para encarecer o produto.

As cargas mais afetadas pelo aumento dos custos são aquelas tradicionalmente transportadas por via aérea, como encomendas expressas, produtos farmacêuticos, eletrônicos, mercadorias de alto valor agregado e itens ligados ao comércio eletrônico.

Com o encarecimento do modal aéreo, parte dos embarcadores tem buscado alternativas em outros meios de transporte. O rodoviário continua sendo a principal opção, embora setores mais sensíveis a riscos de roubo de carga também considerem a cabotagem em determinadas operações.

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Efeitos devem persistir

Apesar da queda recente das cotações internacionais do petróleo após o anúncio do acordo de paz entre os países envolvidos no conflito, a expectativa do mercado é que os efeitos sobre o setor aéreo permaneçam ao longo dos próximos meses.

Em nota, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) ressalta que as empresas costumam utilizar mecanismos de proteção financeira para a compra de combustível, o que faz com que oscilações de preço sejam absorvidas gradualmente.

Além disso, a volatilidade cambial continua sendo um fator de pressão sobre os custos das companhias.

Relatórios apresentados durante a reunião anual da Associação Internacional do Transporte Aéreo (IATA), realizada no Rio de Janeiro, indicam que eventuais restrições ao fluxo de petróleo na região do Estreito de Ormuz ainda representam um risco para a cadeia global de abastecimento de combustíveis.

A avaliação é que a normalização completa dos mercados energéticos pode levar meses, mantendo os custos do setor aéreo em patamares elevados.

Setor acumula gastos extras com combustível

Dados da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) mostram que, nos primeiros cem dias da crise geopolítica, as companhias brasileiras desembolsaram cerca de R$ 3,8 bilhões adicionais com QAV em relação às projeções realizadas antes do conflito.

Somente em maio, o impacto extra foi estimado em R$ 1,6 bilhão, valor equivalente a mais da metade do gasto anual do setor com leasing da atual frota comercial brasileira.

Segundo a entidade, medidas adotadas pelo governo federal, como a isenção temporária de PIS/Cofins sobre o combustível de aviação e a ampliação de linhas de crédito para as empresas, ajudaram a reduzir parte da pressão financeira.

Apesar do cenário desafiador, a IATA projeta crescimento da receita global do transporte aéreo de cargas em 2026. A expectativa é que o faturamento do segmento avance de US$ 151 bilhões em 2025 para US$ 162 bilhões neste ano.

O aumento, contudo, não deverá ser acompanhado pelo mesmo ritmo na movimentação física. A entidade estima expansão de apenas 0,7% no volume mundial transportado, medido em toneladas-quilômetro de carga (CTK).

Segundo a associação, o avanço das receitas reflete principalmente o repasse dos custos mais elevados de combustível para os preços cobrados dos clientes, em um contexto de margens cada vez mais pressionadas para as companhias aéreas.

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