A chegada e a expansão das montadoras chinesas no mercado brasileiro de caminhões e ônibus devem intensificar a competição no curto prazo, mas não necessariamente ampliar o número de players relevantes no país. Na avaliação da Mercedes-Benz do Brasil, o setor tende, nos próximos cinco anos, a um movimento de maior concentração entre grupos com estrutura consolidada de rede, serviços e financiamento.
“A leitura é que a competição aumenta, mas a sustentabilidade do negócio no Brasil depende de escala, rede e presença nacional. Não é um mercado para entrada superficial”, afirmou Jefferson Ferrarez, vice-presidente de vendas, marketing e peças & serviços caminhões da Mercedes-Benz do Brasil, à reportagem da Agência Transporte Moderno.
Segundo o executivo, a complexidade do mercado brasileiro segue como principal barreira de entrada — especialmente pela diversidade regional e pela necessidade de capilaridade em serviços. “O Brasil tem vários ‘Brasis’. Não dá para atuar com visão limitada ou regionalizada.”
Com 70 anos de operação no país e 180 pontos de atendimento em todos os estados, a Mercedes sustenta que a rede de concessionários continua sendo o principal diferencial competitivo diante de novos entrantes, sobretudo em segmentos de maior dispersão operacional, como leves e semipesados.
“No semipesado, o caminhão roda em operações de ‘pinga-pinga’, e isso exige suporte de peças e serviços em várias localidades, não só nos grandes eixos”, afirma.
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Pressão chinesa e disputa por margens
A entrada de fabricantes chinesas pode pressionar preços e margens no setor, mas a estratégia da Mercedes é evitar uma disputa baseada exclusivamente em preço. O foco, segundo Ferrarez, está na expansão de serviços e soluções de ciclo completo. “O que sustenta competitividade é serviço. Estamos ampliando conectividade, portfólio de peças e planos de manutenção para diferentes perfis de cliente”, diz.
A montadora avalia que, em momentos de juros altos e crédito restrito, o preço de aquisição ganha peso na decisão de compra. Em ciclos mais estáveis, porém, o custo total de operação (TCO) volta a ser determinante, especialmente entre frotistas mais profissionalizados.
A rede de concessionários é tratada pela empresa como barreira estrutural de entrada. Mais do que expansão, a prioridade é posicionamento estratégico e modernização da base existente.
“Não basta ser uma rede ampla. Ela precisa estar nos pontos certos e operar com eficiência”, afirmou Ferrarez. A companhia também destaca a integração com implementadores locais como diferencial no mercado brasileiro, reforçando a adaptação de soluções ao perfil regional de operação.
Eletrificação com cautela
Sobre eletrificação — área em que fabricantes chinesas têm avançado globalmente — a Mercedes adota uma abordagem de cautela no Brasil, condicionando a expansão à viabilidade econômica e à infraestrutura. “Não podemos entrar em guerra de preço. Há aplicações em que a conta fecha e outras em que ainda não”, diz Ferrarez.
A estratégia combina eletrificação com outras rotas tecnológicas, como biocombustíveis, além da digitalização dos veículos e das operações.
A digitalização é apontada como eixo central da disputa futura no setor. Conectividade, inteligência artificial e gestão de dados passam a ser vistos como instrumentos diretos de produtividade e eficiência operacional. “O cliente precisa de dados para tomar decisão. IA e conectividade são fundamentais para produtividade e rentabilidade.”
A perspectiva da Mercedes é de um mercado mais competitivo, porém menos fragmentado. “No extrapesado rodoviário, já há multinacionais estabelecidas com forte presença. O desafio para novos entrantes é enorme. No semipesado, a barreira principal é rede de serviços em escala nacional.”
A leitura da companhia é de que, em cinco anos, o setor deve caminhar para maior concentração entre players com estrutura consolidada de rede, serviços e financiamento — enquanto novos entrantes terão de enfrentar custos elevados de expansão para ganhar escala no país.
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