ABOL alerta para impactos da reforma trabalhista e da fiscalização do CIOT

Entidade aponta riscos operacionais com novas regras da ANTT e prevê desafios na adaptação à revisão da escala 6×1

Valeria Bursztein

A Associação Brasileira de Operadores Logísticos (ABOL) avalia que os principais desafios da logística brasileira em 2026 passam pela adaptação à reforma tributária, pela discussão sobre mudanças na jornada de trabalho, pela segurança jurídica em torno do CIOT e pela necessidade crescente de investir em tecnologia para enfrentar a escassez de mão de obra.

As considerações foram apresentadas pela diretora executiva da entidade, Marcella Cunha, que adverte que embora os temas sejam distintos, todos têm potencial de impactar diretamente os custos operacionais, a competitividade das empresas e a eficiência das cadeias de abastecimento.

Pressão por ajustes na MP do CIOT

Um dos assuntos que mais mobilizam o setor atualmente é a Medida Provisória 1.343/2026, que alterou regras relacionadas ao Código Identificador da Operação de Transporte (CIOT). A ABOL obteve decisão liminar favorável aos associados para impedir, temporariamente, a aplicação de penalidades previstas na nova regulamentação antes do esgotamento dos recursos administrativos.

Segundo a entidade, o objetivo é evitar multas consideradas desproporcionais, além de bloqueios operacionais que possam comprometer a continuidade dos serviços. De acordo com Marcella Cunha, a associação apoia mecanismos de fiscalização e controle do transporte rodoviário, mas defende que as regras sejam tecnicamente viáveis e compatíveis com a complexidade das operações logísticas.

A preocupação dos operadores está relacionada aos impactos que eventuais falhas ou instabilidades na emissão do CIOT podem provocar em cadeias de suprimento que envolvem embarcadores, transportadores, caminhoneiros autônomos, centros de distribuição, portos e aeroportos. Segundo a entidade, interrupções nesses processos podem afetar prazos de entrega e comprometer o abastecimento de setores considerados essenciais, como saúde e alimentação.

A associação informou que continuará negociando com a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e defendendo alterações na medida provisória para adequar as exigências regulatórias à realidade operacional das empresas.

Revisão da escala 6×1 elevará custos

Outro tema acompanhado pela entidade é a discussão sobre a revisão da escala de trabalho 6×1. Segundo levantamento citado pela ABOL, os operadores logísticos estimam que precisarão de pelo menos dois anos para adaptar suas operações a um eventual novo modelo de jornada. Outros 23,5% acreditam que a transição poderia ser realizada em aproximadamente um ano.

A entidade afirma que a principal preocupação está no aumento dos custos trabalhistas decorrente da necessidade de ampliar os quadros de funcionários para manter operações que funcionam continuamente, muitas delas 24 horas por dia e sete dias por semana.

Além disso, a ABOL destaca que a logística já enfrenta dificuldades para preencher determinadas posições operacionais. Apenas em 2025, as empresas associadas contrataram mais de 26 mil profissionais, enquanto mais de 70% afirmaram intenção de continuar ampliando seus quadros.

Automação avança

A escassez de mão de obra também aparece como um dos principais fatores por trás dos investimentos em automação e digitalização. Segundo Marcella, a adoção de tecnologias como sistemas de gerenciamento de transporte (TMS), gestão de armazéns (WMS), rastreabilidade e monitoramento em tempo real deixou de ser diferencial competitivo para se tornar requisito básico em grande parte das operações logísticas.

Segundo ela, a automação não tende a substituir trabalhadores em larga escala, mas a complementar atividades operacionais e reduzir gargalos em áreas onde há maior dificuldade de contratação.

A ABOL observa que o Brasil ainda está em estágio inicial na adoção de robótica em centros de distribuição quando comparado a mercados como Estados Unidos e países asiáticos, mas prevê aceleração desse movimento nos próximos anos.

A inteligência artificial também passou a ocupar posição de destaque nas estratégias dos operadores logísticos. Dados do estudo “Perfil dos Operadores Logísticos”, elaborado pela ABOL em parceria com o ILOS, mostram que os investimentos em softwares, digitalização e inovação ganharam prioridade e, em alguns casos, superaram os aportes destinados à expansão física das instalações.

As aplicações mais frequentes envolvem previsão de demanda, otimização de rotas, gestão de estoques, planejamento operacional, análise de dados e automação de processos. De acordo com a entidade, a expectativa é que a IA amplie a produtividade e a capacidade de tomada de decisão das empresas à medida que as ferramentas se tornem mais acessíveis e integradas às operações.

Inventário de emissões com novo indicador setorial

Na agenda ESG, a associação prepara a terceira edição do Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa das empresas associadas. O levantamento, realizado em parceria com a Via Green e com participação de 24 operadores logísticos, ampliará o monitoramento das emissões de Escopo 1 e passará a incluir informações relacionadas à geração e destinação de resíduos.

Uma das novidades será a criação de indicadores de intensidade de emissões, como carbono emitido por quilômetro rodado ou por tonelada transportada, permitindo comparações mais precisas entre operações.

Reforma tributária exige atenção

Na área tributária, a entidade alerta que as empresas precisarão acelerar os processos de adaptação às novas regras da reforma tributária. Segundo a ABOL, as recentes regulamentações da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) afetam diretamente operações de transporte, importação, exportação e regimes específicos aplicáveis ao setor logístico.

A entidade destaca que, já a partir de agosto, erros no preenchimento de documentos fiscais ou o descumprimento das novas exigências poderão resultar em autuações. A partir de 2027, a implementação da CBS e do Imposto Seletivo, juntamente com a extinção do PIS e da Cofins, deverá representar a fase mais sensível da transição tributária para os operadores logísticos.

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