O que o tarifaço dos EUA pode mudar na logística brasileira

Especialistas avaliam impactos sobre exportações, fretes marítimos, portos e cadeias de suprimentos

Valeria Bursztein

A proposta dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros acendeu um alerta entre exportadores, operadores logísticos e empresas de transporte internacional. Embora a medida ainda dependa de etapas regulatórias antes de sua eventual implementação, especialistas avaliam que seus efeitos podem começar a influenciar decisões comerciais e logísticas antes mesmo de entrarem em vigor.

O principal impacto esperado não está apenas na competitividade dos produtos brasileiros no mercado norte-americano, mas também no aumento da incerteza para o planejamento de embarques, contratos de transporte, armazenagem e estratégias de distribuição internacional.

A proposta foi anunciada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) no âmbito de uma investigação sobre práticas comerciais brasileiras. Caso seja confirmada, a medida poderá atingir diversos produtos exportados ao mercado americano, embora alguns itens considerados estratégicos para a economia dos Estados Unidos tenham sido excluídos das discussões iniciais.

Em busca de novos mercados

Para Carlos Cesar Meireles Vieira Filho, fundador da Talentlog Consultoria e Planejamento Empresarial, a sobretaxa tem potencial para reduzir a competitividade de produtos brasileiros e provocar mudanças nos fluxos comerciais.

Segundo ele, setores ligados a produtos industrializados e semimanufaturados, como siderurgia, móveis e vestuário, estão entre os mais expostos ao aumento das barreiras tarifárias. “As novas tarifas impostas pelo governo Trump, se confirmadas, tendem a reduzir a competitividade de diversos produtos brasileiros no mercado norte-americano. Isso pode estimular empresas a buscar alternativas em regiões como China e União Europeia, provocando ajustes nas cadeias logísticas e comerciais”, afirma.

Na avaliação do especialista, o movimento pode gerar impactos sobre rotas internacionais, estratégias de armazenagem e planejamento das operações de exportação.

Incerteza preocupa empresas

O parceiro da Talentlog em investimentos na iHub (XP), Daniel Abrahão, avalia que o principal efeito imediato da medida é a insegurança gerada para empresas que dependem do comércio exterior. Na visão dele, ainda existem dúvidas sobre o alcance efetivo das tarifas e sobre a forma como serão implementadas, o que dificulta a tomada de decisões por parte dos agentes econômicos.

“O mercado consegue se adaptar a custos mais elevados, mas tem dificuldade para lidar com incertezas. Ainda existem dúvidas sobre a aplicação efetiva das tarifas e seus impactos nas cadeias globais de suprimentos. Essa imprevisibilidade afeta diretamente o planejamento das empresas”, afirma.

Abrahão observa que parte dos investidores reagiu com relativa tranquilidade ao anúncio em razão da exclusão de alguns produtos relevantes das discussões tarifárias. Ainda assim, o ambiente permanece marcado pela cautela diante da possibilidade de novas medidas comerciais por parte dos Estados Unidos.

Logística não deve sofrer choque imediato

Apesar das preocupações, especialistas do setor avaliam que eventuais impactos operacionais sobre a logística tendem a ocorrer de forma gradual. Para Pedro Calmon Neto, sócio do PCFA & Associados e especialista em Direito Marítimo e comércio exterior, os setores ligados ao agronegócio e à produção primária estão entre os mais expostos, uma vez que os Estados Unidos figuram entre os principais compradores de diversos produtos brasileiros.

“Uma eventual redução da competitividade dos produtos brasileiros no mercado americano pode provocar alterações nas rotas marítimas, na ocupação dos navios e na demanda por serviços portuários e armazenagem”, afirma.

Segundo ele, entretanto, ainda é cedo para prever mudanças significativas nas operações marítimas. “Não vejo, neste momento, uma redução relevante de rotas ou do número de navios. Se isso vier a ocorrer, será resultado de um processo mais longo de adaptação do mercado”, diz.

Calmon destaca que a logística marítima possui características que dificultam mudanças bruscas de curto prazo. Além de concentrar a maior parte do comércio exterior brasileiro, o transporte marítimo continua sendo a alternativa mais econômica para movimentação de grandes volumes de carga.

Frete pode sentir efeitos no longo prazo

Um dos possíveis reflexos da medida, segundo o advogado, está relacionado à formação dos fretes internacionais. Caso haja uma redução significativa dos volumes exportados para os Estados Unidos, parte dos custos operacionais dos navios poderá ser redistribuída entre menos cargas transportadas.

“Se houver diminuição relevante da carga embarcada, os custos da operação precisarão ser divididos entre menos contêineres, o que pode gerar pressão sobre os fretes e aumentar os custos logísticos”, afirma. Por outro lado, Calmon não enxerga impactos relevantes sobre os seguros internacionais neste momento, uma vez que a tarifa não altera os riscos operacionais das viagens marítimas ou aéreas.

Renegociação como principal estratégia

Diante do cenário de incerteza, os especialistas apontam que a principal reação das empresas deverá ser a renegociação de contratos comerciais e logísticos. Para Calmon, exportadores e importadores tendem a buscar mecanismos de compartilhamento dos custos adicionais para preservar relações comerciais já estabelecidas.

“O caminho é sentar à mesa e renegociar. O importador americano também não quer perder fornecedores, assim como o exportador brasileiro quer manter mercado. Em muitos casos, esse reequilíbrio é possível”, afirma.

Dizem os especialistas que somente uma eventual manutenção das tarifas por um período prolongado teria potencial para provocar mudanças estruturais nas cadeias logísticas e acelerar a diversificação dos mercados de destino das exportações brasileiras.

Até lá, a expectativa predominante entre empresas e operadores é de cautela. A avaliação é que o mercado ainda aguarda definições mais claras sobre o alcance da medida e seus efeitos efetivos sobre o comércio bilateral entre Brasil e Estados Unidos.

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