Indústria volta a estocar insumos e reacende demanda por galpões logísticos

Empresas ampliam estoques estratégicos para reduzir riscos de ruptura e redesenham operações de armazenagem e transporte

Valeria Bursztein

A busca por maior previsibilidade no abastecimento de insumos está levando empresas brasileiras a ampliar estoques de materiais considerados críticos para a produção, em um movimento que começa a gerar reflexos sobre armazenagem, transporte e gestão das cadeias de suprimentos.

Após anos priorizando operações enxutas e modelos baseados no conceito “just in time”, setores como automação industrial, energia, equipamentos elétricos e manufatura avançada passaram a antecipar compras e reforçar estoques para reduzir o risco de interrupções produtivas causadas por atrasos no fornecimento global.

A mudança ocorre após uma sequência de eventos que expôs a vulnerabilidade das cadeias internacionais de suprimentos, incluindo a pandemia, a crise global dos contêineres, gargalos logísticos e o aumento das tensões geopolíticas. Um dos casos mais emblemáticos foi a escassez mundial de semicondutores, que levou montadoras e fabricantes de diversos segmentos a interromper ou reduzir a produção por falta de componentes.

Segundo levantamento da consultoria Gartner, mais de 70% das empresas industriais globais revisaram suas estratégias de abastecimento nos últimos anos, priorizando previsibilidade e diversificação de fornecedores. Já a McKinsey estima que interrupções em cadeias críticas podem comprometer até 45% do EBITDA anual de empresas altamente dependentes desses insumos.

“O estoque voltou a ser visto como uma ferramenta de proteção e continuidade dos negócios. As sucessivas rupturas mostraram que o custo de uma parada operacional pode ser muito maior do que o custo de armazenar componentes críticos”, afirma Rodolfo Midea, diretor da Fácil Negócio Importação.

Estoques maiores elevam importância da armazenagem

Além da revisão das políticas de compras, a formação de estoques estratégicos começa a influenciar decisões relacionadas à capacidade de armazenagem. Segundo Midea, algumas empresas já avaliam ampliar áreas próprias ou contratar espaços externos para acomodar volumes maiores de materiais considerados essenciais para suas operações.

“Em alguns segmentos já percebemos empresas revendo sua capacidade de armazenagem para acomodar estoques maiores. Ainda não é um movimento generalizado, mas a disponibilidade de espaço passou a fazer parte das discussões de planejamento operacional”, afirma.

O avanço dos estoques estratégicos encontra um mercado de galpões logísticos com oferta restrita nas principais regiões industriais do país. Levantamentos recentes de consultorias imobiliárias indicam que a vacância média dos condomínios logísticos brasileiros permanece próxima de 6%, enquanto alguns mercados da Grande São Paulo operam com índices próximos de 2%, limitando a disponibilidade de espaços bem localizados.

Caso a estratégia de formação de estoques ganhe escala em mais segmentos industriais, uma nova fonte de demanda pode surgir para o mercado de armazenagem, que nos últimos anos foi impulsionado principalmente pela expansão do comércio eletrônico.

Impacto no transporte e na distribuição

O avanço dos estoques estratégicos também altera a forma como empresas planejam suas operações logísticas. Em vez de reposições frequentes e volumes menores, características do modelo just in time, as empresas passam a trabalhar com compras mais antecipadas e embarques de maior porte, exigindo maior integração entre planejamento de suprimentos, armazenagem e transporte.

“A logística deixa de focar apenas eficiência de curto prazo e passa a incorporar também critérios de resiliência e continuidade operacional”, afirma Midea.

A mudança pode beneficiar operadores logísticos com capacidade de armazenagem dedicada e serviços integrados de gestão de estoques, além de ampliar a demanda por soluções de planejamento e visibilidade da cadeia de suprimentos.

Dependência externa amplia preocupação

A preocupação das empresas é reforçada pela elevada concentração global da produção de materiais considerados críticos para a indústria e pelo ambiente de maior incerteza no comércio internacional, marcado por disputas geopolíticas, restrições comerciais e novas políticas tarifárias.

Um dos exemplos são os ímãs de neodímio, utilizados em motores elétricos, sistemas automatizados, equipamentos médicos e aplicações ligadas à transição energética. Segundo dados do setor, mais de 85% da produção global permanece concentrada na Ásia.

A dependência de poucos polos produtores tem levado empresas a ampliar o planejamento de compras e reduzir a exposição a possíveis interrupções de fornecimento. “Hoje existe uma preocupação muito maior em garantir disponibilidade. O custo de carregar estoque aumentou, mas o custo de parar a operação ficou ainda maior”, afirma Midea.

Dados da Fácil Negócio Importação apontam crescimento de aproximadamente 42% na procura por compras programadas e pedidos antecipados nos últimos meses. A empresa também registrou aumento de cerca de 56% na demanda por estratégias voltadas à previsibilidade de fornecimento.

Novo elemento: Reforma tributária

Outro fator que pode acelerar a reorganização das cadeias de suprimentos é a implementação da reforma tributária. A transição para o novo modelo de tributação sobre o consumo pode levar muitas empresas a revisarem a localização de centros de distribuição, estoques e operações logísticas, uma vez que a cobrança dos tributos passará gradualmente a ocorrer no destino.

Nesse cenário, decisões relacionadas à localização dos estoques poderão ser influenciadas não apenas por questões operacionais, mas também por fatores tributários, de acesso aos mercados consumidores e disponibilidade de infraestrutura logística.

Se a tendência de formação de estoques estratégicos se consolidar em larga escala, a infraestrutura logística brasileira poderá enfrentar novas pressões. O desafio não estará apenas na disponibilidade de galpões, mas também na localização estratégica dos estoques, na eficiência da distribuição e na capacidade dos corredores logísticos de absorver fluxos maiores de movimentação de cargas.

“Existe uma mudança clara de mentalidade. O estoque, que durante anos foi tratado quase como ineficiência, voltou a ser visto como proteção operacional”, afirma Midea. Para o executivo, a tendência deve permanecer nos próximos anos, impulsionada pelo avanço da automação industrial, da eletrificação da economia e pela crescente demanda global por materiais estratégicos.

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